Moderno e experimental, Mis convida as pessoas a interagir com as obras

A instituição volta a fazer parte do circuito cultural cearense, ampliado e repaginado para atrair o público


Por Caio Brasil

O Museu da Imagem e do Som do Ceará Chico Albuquerque (Mis) ressurge ampliado e  equipado para a sua missão de informar e educar. Construir processos mais democráticos de acesso à cultura e colocar um ponto de interrogação nas estruturas conservadoras de um museu, subvertendo-as, é o propósito deste novo equipamento. Buscando redescobrir este espaço cultural do Estado do Ceará, percorremos o complexo para conhecer as novidades e entender mais sobre o lugar.

A visita ao Mis começou agitada. No fim de tarde desta quinta-feira, 7, o complexo estava movimentado por pessoas montando o palco das atrações da noite. Após passar por quatro anos de reforma, o Mis está com uma programação especial de final de semana para atrair o público no segundo final de semana reaberto. Fernando Catatau, compositor, cantor, guitarrista, produtor musical e artista plástico cearense lançava o primeiro álbum solo, depois de mais de duas décadas ao lado da banda Cidadão Instigado.

Estrutura do show do artista Fernando Catatau na praça do Mis

O museu, localizado na Av. Barão de Studart  Nº 410, e o mesmo endereço da residência histórica de antiga propriedade do ex-senador Fausto Augusto Borges Cabral, nos anos 50. Foi restaurado e ganhou o anexo de um prédio de cinco andares, sendo dois subterrâneos. Unindo as duas construções, uma ampla praça funciona como área de convivência para atividades externas. “Esse novo momento do Mis que reabre com tanto encantamento e tanta alegria marca tudo isso. Essa consciência de que cultura é um direito, que o acesso à cultura é um direito numa sociedade democrática e que é fundamental pra gente entender uma vida que seja de liberdade, uma vida que tenha beleza, uma vida que tenha força no coletivo também. Então é um museu que pode ser muitos museus por todas essas pessoas que estão envolvidas” pontua Iana Soares, coordenadora de formação do museu. Este é o cenário onde começa a nossa visita.

Na praça, dois senhores eram acompanhados por uma equipe de filmagem. Um deles fumava cigarro e logo o reconheci como fotógrafo, professor e pesquisador Silas de Paula, diretor do Mis. Ele parecia fazer um tour guiado pelo complexo, com o outro cidadão que estava sendo documentado por uma assessora de comunicação e uma cinegrafista.

Show de Fernando Catatau na praça do Mis

Enquanto Silas se afastava para apagar o cigarro, me aproximei delas e me apresentei como estudante de jornalismo produzindo uma matéria sobre o Mis. Foi quando o diretor, que vinha voltando, ouviu a conversa e falou em seguida que me atenderia após encerrar o passeio com o outro camarada, o cantor Ednardo! E foi assim que a visita se tornou uma passeio nos bastidores, acompanhando o cantor Ednardo! O cantor e compositor cearense é consagrado como um dos maiores artistas brasileiros. 

Ingressamos por escadas de incêndio às salas subterrâneas do novo prédio. Laboratórios para restauro e digitalização do acervo, laboratórios de ampliação e de impressão, reserva técnica, estúdios de fotografia, vídeo e de som, ilhas de edição e a sala imersiva com dez projetores para instalações multimídia. Não vou poder dar detalhes dessa caminhada. Silas aceitou dar a entrevista após terminar com Ednardo, mas foi diligente mostrando tudo, claro, em off.

Na exposição “Ontem Choveu no Futuro” imagem e som se misturam nesse espetáculo

Depois de conferir as partes ainda fechadas do prédio, voltamos à área pública para visitar a exposição do edifício.  A exposição “Ontem Choveu no Futuro” foi concebida e dirigida por Batman Zavareze, que fez a direção de arte das projeções do encerramento das Olimpíadas 2016, com imagens no campo do Maracanã. 

O projeto no Mis foi executado com combinação e a colaboração desse coletivo de profissionais com diferentes habilidades técnicas e linguagens artísticas. Nas paredes e chão de uma sala enorme, são projetadas imagens de forma imersiva, graças ao videomapping, uma técnica visual que consiste em projetar imagens sobre superfícies, criando efeitos de animações tão impactantes que parecem ganhar vida.

Profusão de imagem e som na exposição

Os espectadores apreciam uma exibição de vinte minutos e mergulham nos muitos Cearás. Expondo obras dos artistas Chico Gomes, Davi Pinheiro Santos, Hélio Rola, Mestre Júlio Santos, Patativa do Assaré, Tibico Brasil e – obviamente – Chico Albuquerque. Embalados por uma trilha sonora com canções de Alberto Nepomuceno, Leopoldo Miguez e composições autorais. 

Obras de artistas cearenses projetadas na exposição

Misturando-se com as obras, os visitantes se confundem com ela. Mexendo com os sentidos, é interessante notar que os adultos se encontram mais aos cantos do espaço imersos em seus celulares para registrar o momento, mas não apreciá-lo. Quem realmente experimenta a exposição são as crianças.

A cena de um menino, confuso e maravilhado, por estar cercado de cores e formatos em movimento diante dos próprios olhos num universo à parte, me obrigou a fazer um registro tão tocante. O garoto com certeza estava viajando! A estilista Isabelle Pertenelli, 28, que visitava o museu, comenta: “Muito impactante a experiência sensorial de estar cercado de estímulos visuais e o que isso faz com o nosso cérebro. Como despertar coisas dentro da gente, estar rodeado, imerso dentro, na experiência tanto visual quanto auditiva.”

Placa que marca a reabertura ao lado da antiga casa que já era sede da instituição

Saindo de lá, fomos ao escritório do diretor Silas de Paula. Ednardo foi embora e enfim consegui conversar com o responsável por este complexo.“Olhar o passado tendo em vista o futuro para trabalhar o presente” é um pensamento do filósofo italiano Giorgio Agamben, que Silas me apresenta e relaciona com o papel do museu. “Olhar o passado, mas não carregar isso de uma forma só contextualizada. Isso tem que ser revisto, retrabalhado repensado,” pontua. A questão tecnológica também é muito importante para o espaço. “Se você olhar os museus, normalmente a gente entra e tem algumas frases: ‘não fotografe, não toque e uma porção de não.’ Aqui é o contrário! Os equipamentos que estão ali são interativos. Então, é pra tocar.”

O acervo técnico do museu é, além disso, para a formação de profissionais do Ceará. “Quem trabalha no museu tem que ser do Ceará. A gente não quer trazer ninguém de fora”, observa o diretor. Dar o olhar do próprio Ceará sobre o Ceará é a aposta do Mis para vender o museu às pessoas. Como propriedade pública, ele pertence às comunidades, no plural mesmo, todas as comunidades, destaca: “O que ninguém conhece do Ceará, que é a produção mais jovem, pessoal que tá produzindo, é isso que vai dar suporte. A gente possibilita o aparecimento de grandes figuras”.  

Esta reabertura foi muito impactada pela pandemia. Esses processos de elaboração do conteúdo do Mis sofreram com o distanciamento social. Agora, o momento do museu é de ajuste, inserindo-se no espaço cultural local e fazendo um esforço para agregar e representar os mais diferentes grupos, e retomar essa ideia de troca com as pessoas. “Propusemos o conceito de Simpoiesis (que significa ‘fazer com’, ‘juntos’) como categoria máxima do processo: nada se faz por si. Essa é a implicação radical do conceito,” conclui Silas.

Experimentação na exposição “Laboratório dos Sentidos”

O escritório do diretor fica no antigo casarão do ex-senador Fausto Augusto Borges Cabral, no mesmo prédio da outra exposição. A casa, da década de 1950, conta com a proteção de dois leões de porcelana, vindos da cidade do Porto. Datadas do início do século XX, estas peças são a marca registrada deste prédio histórico, que hoje abriga uma parte do Mis. A exposição “Laboratório dos Sentidos” tem relação direta com os dois sentidos trabalhados no museu, o áudio e o visual. A mostra se propõe a explicar de forma interativa e experimental, alguns aspectos da imagem e do som. Os equipamentos expostos não são apenas para contemplação.

Interação com os objetos da exposição

Os visitantes são convidados a interagir com eles, de acordo com as instruções de cada um. Manipular os aparelhos, apertando, puxando, ligando, admirando e, claro, aprendendo com os fenômenos observados. A experiência é tão participativa, que duas atrações estavam desativadas após interações desastrosas de crianças empolgadas, que quebraram as peças. Isabelle fala sobre interação: “A experiência de juntar o pensar, o ver com o manuseio e a interatividade que também é uma experiência”.

Imagens projetadas no prédio do Mis à noite

A noite caiu, o show do Catatau já ia começar. A praça estava lotada de pessoas para conferir a atração, e nem a chuva conseguiu boicotar a festa. No escuro, projeções de imagens são lançadas na fachada do complexo.  A imagem e o som se misturam nesse espaço que encanta todos que passam por ali.


Serviço:

Museu da Imagem e do Som do Ceará Chico Albuquerque funciona de quinta a domingo, de 13 às 21 horas, na Av. Barão de Studart  Nº 410.

  Programação especial do final de Semana:

8/4 | Sexta-feira 18h | Praça do MIS | Aula Magna “Cultura Negra e Indígena: Por mais política de Diversidade” – com Zelma Madeira

9/4 | Sábado 18h | Praça do MIS | Aula aberta “Conhecendo o que é programação criativa” – Com Rafa Diniz

10/4 | Domingo 17h | Casarão | Visita mediada à exposição Laboratório de Sentidos – Com André Scarlazzari e Marcus Vale

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