“Não é fácil ser mulher em um esporte dominado pelo mundo masculino” 

Ex-árbitra assistente, Carolina Romanholi, fala da experiência como mulher no futebol, jornalismo e maternidade


Por Pedro Dias

A paixão pelo futebol herdada de sua mãe, direciona Carolina Romanholi a uma luta contra a maré, buscando espaço no esporte popular mais reverenciado pela população brasileira. Mesmo diante de inúmeros desafios no decorrer de sua trajetória, ganhou seu reconhecimento no esporte e atualmente experimenta, pela primeira vez, o início de uma gestação.  

Não só devota pelo esporte, Carol – como também é tratada – também cultiva outras paixões que coexistem e se relacionam na sua vida. Estudante de jornalismo na Universidade de Fortaleza (Unifor), trilha um caminho rumo ao jornalismo esportivo, no qual almeja relacionar-se com a sua paixão pelo futebol, se tornando comentarista. 

Além do esporte, já trabalhou com confeitaria e hoje atua também com criação de conteúdo e marketing em redes sociais. Durante a entrevista, Carol fala sobre a trama de ser mulher no futebol, como lida com as paixões paralelas que existem em sua vida e quais são suas projeções para o futuro como mãe. 

Carol Romanholi, com anos de arbitragem, agora experiencia gestação / Fotos: Vinícius Costa Lima

Newslink – Você atuou por muitos anos como árbitra assistente e já possui uma boa bagagem de experiência com o esporte. Conta um pouco da sua trajetória no futebol, como você descobriu que era isso que iria fazer durante boa parte da vida? 

CR: Eu era atleta de handebol, mas também gostava muito de futebol, assistia na televisão, e minha mãe sempre esteve muito ligada com o futebol também. Ela ia pra estádios com meu avô, e, assim, acabei assimilando esse gosto pelo futebol por meio dela. Via os árbitros e sempre gostei de coisas em que não houvesse tantas mulheres atuando, e, justamente, a arbitragem no futebol foi isso. Sempre foi um espaço muito masculinizado, sem muita presença feminina. É tanto que na época que fiz o curso de arbitragem só havia eu e outra menina, entre cinquenta homens. Mesmo assim, consegui me destacar, fiz o curso profissionalizante e comecei a atuar no futebol.  

Newslink – Você já trabalhou nas duas modalidades, no futebol masculino e feminino. Sente diferença entre ambos os gêneros?

CR: Existe uma diferença grande entre o masculino e o feminino adulto profissional. O nível também vai depender da categoria em que estão os times. Então, para cada categoria do futebol, seja ele no masculino ou no feminino, vai haver sim essa diferença na dinâmica do jogo.

Newslink –  Ainda sobre o futebol feminino, como anda esse cenário, agora pós pandemia? Você tem alguma projeção para o futuro do esporte? Como acha que vai ser daqui pra frente?

CR: O futebol feminino, assim como o masculino, vai continuar. Inclusive com novos campeonatos. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) está criando novos campeonatos para as meninas, os clubes também estão aumentando. Então, sinto que aos poucos o futebol feminino está melhorando e ganhando mais espaço. 

Newslink – Saindo um pouco do futebol, sabemos que você é formada em educação física e atualmente estuda jornalismo. De onde vem essa outra paixão? O jornalismo sempre andou ao lado do futebol para você? 

CR: Hoje não estou atuando no cenário brasileiro de futebol, nem pela federação e nem pela CBF. Quando começou a pandemia, fui retirada do quadro da CBF e resolvi encerrar minha carreira. Mas ainda atuo com o futebol não-profissional na liga do Regis Melo, que comanda a Copa Seromo, e estou adorando. Acho os campeonatos deles mais organizados que os da federação. Enfim, estou gostando bastante. Já a minha segunda paixão, no caso a terceira, que é o jornalismo, surgiu juntamente com a arbitragem de futebol, já que a minha intenção, desde o início, é ser comentarista do esporte. Eu já venho treinando isso em algumas rádios com participações especiais, e adoro, adoro o mundo do jornalismo, adoro o mundo do esporte. 

Newslink – Além do jornalismo esportivo, existem outras áreas que lhe chamam a atenção? 

CR: O jornalismo policial me chama muito a atenção, e também a parte de gastronomia relacionada ao jornalismo. Adoro cozinhar, gosto muito de fazer doces, de fazer bolo. A área da confeitaria em geral me chama muito a atenção, é tanto que já houve um tempo em que trabalhei com isso, com confeitaria. Mas, dentro do jornalismo, as áreas que mais me chamam a atenção são justamente o jornalismo esportivo e o jornalismo policial. 

Carol segura bandeira utilizada durante sua carreira na arbitragem

Newslink – Recentemente, acompanhando suas redes sociais vi que agora você vai ser mãe, né? Como está sendo esta nova fase da vida, este novo processo? Como isso tem mudado sua rotina?

CR: Descobri, recentemente, que estou gestante e tem sido uma reviravolta na minha vida. Deixei de fazer todo tipo de atividade física porque ainda estou no primeiro trimestre de gestação, então todo cuidado precisa ser redobrado, já que ainda é um serzinho que o meu corpo pode expulsar, é um corpo estranho dentro de mim, né? Por enquanto, atuo como delegada de partida, não deixei o futebol, estou caminhando com o futebol, porém, atuando em outra área. Mas, além disso tudo, muita coisa muda na rotina, porque vêm os enjôos, vem a mudança de hábitos. Uma gravidez precisa ser bem cuidada para que não haja nenhum imprevisto. 

Newslink – Como imagina o seu futuro, após a gestação? Existe algum plano sobre qual caminho trilhar junto da maternidade?

CR: Pretendo seguir a mesma coisa: voltar para a arbitragem amadora, voltar pros meus exercícios físicos e se meu filho quiser ser jogador de futebol ou se minha filha quiser ser jogadora de futebol, vou super apoiar. Se for menina principalmente, porque a gente vê que o futebol feminino ainda é muito defasado, que ele não tem o apoio que deveria ter, assim como o futebol masculino tem. Se eu tiver uma filha que goste do futebol, vou ser a primeira a apoiar.

Newslink – Você tem um gosto forte pela culinária. A sua relação com a gastronomia é algo de família ou um gosto unicamente seu ?

CR: Gosto muito mesmo de gastronomia. Fui confeiteira, fiz um curso de confeitaria, mas essa paixão pela confeitaria vem da minha avó. Lembro muito de um bolo que minha avó fazia que lembra demais a minha infância. E ela me ensinou a fazer esse bolo, virou algo passado de geração para geração. E, por conta desse bolo, que me lembra a infância,  comecei a fazer doces. Por incrível que pareça, fui trabalhar também com o marketing de uma empresa onde a minha patroa amava cozinhar, então acabei juntando o útil ao agradável. Tô aprendendo muito com ela, muito mesmo. Venho agregando cada vez mais conhecimento ao que eu já possuía.  

Newslink -No âmbito da comunicação, já pensou em atuar como criadora de conteúdo? Como é essa sua relação com as redes sociais? 

CR: Já pensei em trabalhar com produção de conteúdo, mas meu tempo é tão corrido que muitas vezes não consigo parar pra fazer isso. Tenho a faculdade, tenho a arbitragem no final de semana, sou esposa, sou dona de casa, sou estudante, sou marqueteira (risos). Enfim, são várias coisas, e se eu parasse pra fazer minha própria criação de conteúdos eu precisaria fazer isso todos os dias. Já tentei, mas não consigo fazer pra mim. Trabalho com produção de conteúdo para empresa que estou hoje, mas no meu instagram eu não consigo por conta da correria que é a faculdade, o trabalho, a casa, o marido, o futebol e agora a maternidade. 

Newslink – Por último, Carol, o que você tem a dizer para as mulheres que amam futebol e sonham em trabalhar no ramo esportivo ? 

CR: Que se dediquem bastante, porque é um mundo ainda muito machista, por mais que isso tenha mudado muito da época que entrei na CBF até hoje. Isso já mudou bastante, mas ainda assim, é um mundo muito machista. A gente não vê uma mulher técnica de futebol em um time masculino profissional,entretanto, geralmente os times femininos são comandados por homens. Por mais que seja um time feminino, são poucas as mulheres que estão no comando.  

Sou voluntária num clube de futebol feminino em que atuo como assessora de imprensa.  A gente vê nos clubes de futebol feminino uma presença muito forte dos homens por trás de tudo e uma quantidade muito pequena de mulheres. Sou defensora, com unhas e dentes, da arbitragem feminina, mas uma arbitragem feminina que passe por testes físicos, que passe por provas teóricas, para quem está ali por méritos e não por casualidade. Então, o que tenho a dizer é: dediquem-se cento e cinquenta por cento naquilo que vocês querem, porque não é fácil ser mulher em um esporte dominado pelo mundo masculino.

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