Centenário da eleição do bode Ioiô discute a tradução cultural do ‘Ceará moleque’

De acordo com o pesquisador e turismólogo Gerson Linhares é preciso lutar e perseverar para continuarmos com a nossa cearensidade


Por Germano Bezerra

Que Fortaleza está crescendo e ganhando muitas culturas novas é um fato. Mas, será que está perdendo a cultura raiz? A série de eventos em torno dos 100 anos da eleição do bode Ioiô, promovida pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, acaba trazendo como ponto de referência, o debate sobre o conceito de identidade cultural e a realidade das práticas da cultura como bem comum e público.

 A exposição “Ioiô Itinerante: o centenário da eleição do bode mais famoso do Ceará (1922-2022)” teve início no dia 9 de março, no Museu de Arte Contemporânea, e, a partir de hoje, 22, segue para o Museu da Cultura Cearense, equipamento do próprio Dragão.

Com a perspectiva de refletir sobre a cultura e o questionamento sobre a perda das nossas raízes, o pesquisador e turismólogo Gerson Linhares afirma que o Ceará precisa aproveitar os motes e os personagens da história para se reinventar. E a mostra itinerante é um bom motivo.

Bode Ioiô eternizado ao ser empalhado, está localizado no acervo do Museu do Ceará / Fotos: Gerson Linhares

De acordo com o pesquisador, o bode Ioiô viveu 16 anos, entre 1915 e 1931, tempo de mudanças para Fortaleza, quando a cidade, aos poucos, estava saindo do modo de ser e viver ‘Europa’. “Surgia, assim, a nossa cearensidade, este sentimento de pertencimento que até precisamos lutar e perseverar. Hoje com esse efeito ‘miamização’ de Fortaleza precisamos ter um novo bode”, observa Linhares.

Para o turismólogo, o bode Ioiô é uma boa referência da cultura do sertão na capital, devido ao fato de muitos cearenses acima de 40 anos ainda terem um pé no sertão. “Um personagem que até hoje nos faz refletir o jeito de ser do povo cearense: curioso, extrovertido, brincalhão, perseverante, andarilho e multifacetado…o bode é a tradução do nosso ‘Ceará moleque’!”

Ele ressalta que o bode Ioiô logo encantou a todos, principalmente os frequentadores da Praça do Ferreira, como os boêmios, artistas e as pessoas de boa visão política em especial, citando Raimundo Cela e Quintino Cunha, os quais eram seus amigos e cabos eleitorais. O pesquisador ainda diz que já no início do século XX, Fortaleza já apresentava muitos desafios e a  indicação do bode para vereador foi a culminância pela busca de novos valores. “Bode é um animal esperto e vivedor. Ele sabia os lugares onde era bem vindo! Além de muitos causos, muitas gaiatices, um andarilho cultural. Talvez se tivesse assumido o cargo teria feito muito mais que os vereadores da nossa capital, à época”, compara.

Pesquisador e turismólogo Gerson Linhares  ao lado do mascote Bode Ioiô / Foto: Arquivo pessoal

O personagem cearense ganhou o apelido por percorrer sempre o mesmo caminho, entre a Praça do Ferreira e a Praia de Iracema. Em 1922, a população descontente com a política local, elegeu o bode para vereador da cidade, como forma de protesto. Ioiô nunca foi empossado oficialmente, mas se tornou uma celebridade e foi eternizado ao ser empalhado e doado ao acervo do Museu do Ceará, no qual é a peça mais procurada no acervo. 

O turismólogo diz sonhar com que um dia o bode possa ter sua estátua fincada no meio da Praça do Ferreira, como “reconhecimento da nossa cearensidade”. Linhares anunciou que, em breve, será inaugurado o Museu do Bode Ioiô, “onde  iremos mostrar os três momentos de sua vida: a do sertão, a morada na capital e, como todo cearense, a sua viagem ao Rio de Janeiro, onde foi homenageado no desfile da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, em 2019.

Mascote bode Ioiô, ao lado do bode Ioiô original, no Museu do Ceará

Foto em destaque: Felipe Abud / Secult CE


Serviço

“Ioiô Itinerante: o centenário da eleição do bode mais famoso do Ceará (1922-2022)”

Programação

De 22 de março a 3 de abril

– Instalação “O universo fabuloso do Bode IoIô”

Onde: Museu da Cultura Cearense

 1º de abril

15 horas – Videorreportagem “Ioiô: o bode que fez história”, idealizada por Mirella Mirla

Onde: no Youtube do Dragão do Mar

 2 de abril

15 horas – Mesa “Usos e Representações do Bode no Ceará”, com Amadeu Batista e Gláudia Mapurunga

Onde: no Youtube do Dragão do Mar

 3 de abril

16 horas – Cordel “Ioiô – uma entrevista com o bode mais querido do Ceará”, de Torquato Lima e Klévisson Viana no Museu da Cultura Cearense

Onde: Museu da Cultura Cearense

 Ioiô Itinerante

De 22 de março a 3 de abril no Museu da Cultura Cearense (rua Almirante; Jaceguai, 81 – Praia de Iracema); programação virtual no Youtube do Dragão do Mar

 Mais informações: site do Dragão do Mar

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