“Precisava transformar a minha dor em alguma coisa útil”

Andressa Meireles dedica parte dos seus estudos à luta contra os tipos de violências contra as mulheres


Por Matheus Araújo

Nascida em Salvador (BA), Andressa Meireles é jornalista  e idealizadora do projeto “O que não nos disseram”, lançado em 2020. Trata-se de uma segunda edição de uma exposição que  dá voz a mulheres que foram vítimas de algum tipo de violência doméstica. A instalação funciona  de quatro formas diferentes. Por meio do visual, apresenta fotografias de mulheres comuns e com traços marcantes. Com o auxílio da linguagem de sinais, reforça a importância da inclusão social. Por fim, ela  brinca com os sentidos táteis e auditivos, utilizando peças em material MDF e relatos das mulheres. Ela cria, então, um ambiente extremamente realista e envolvente em meio ao à movimentação do Shopping Iguatemi, em Fortaleza, onde está instalada.   

Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Qualquer um desses tipos demonstra uma violação aos direitos humanos. De acordo com Andressa, a grande maioria dos casos de agressão ocorre por pessoas próximas às mulheres, como  namorados, cônjuges, pais ou tios. Entre os tipos de violência, destaca-se a psicológica. Durante a exposição, a equipe do Newslink  conversou com algumas mulheres que estavam presentes.  Todas relataram ter sido, pelo menos uma vez,  vítimas desse tipo de violência.

NewsLink: Você trata de um tema muito pertinente para a sociedade, que é o de mulheres que já sofreram algum tipo de violência e nunca se deram conta disso. Sua exposição funciona como um alerta para essas mulheres, como se dissesse:  ‘OLHA VOCÊ NÃO PRECISA PASSAR POR ISSO, ISSO NÃO É NORMAL”?

Andressa Meireles: Antes de nascer o projeto, nasceu a vontade de conversar com outras mulheres para  tentar entender o que eu tinha vivido. Eu fui vítima de violência e nunca imaginei que passaria por isso. Conversando com elas,  gravei alguns depoimentos por conta própria e somente assim, entendi  que se falava muito pouco a respeito da complexidade da violência.  A mulher  sabe que não precisa passar por isso, só que talvez ela não entenda a complexidade do que ela tá vivendo e como ela faz para sair disso. Existe o receio de como ela vai ser vista  diante da sociedade, porque uma mulher vítima de violência se tornar só uma mulher vítima de violência, nós somos reduzidas a estatísticas. Então, o projeto nasceu para a gente conversar sobre violência e, acima de tudo, ouvir mulheres que sofreram violência, porque falar do assunto e não ouvir as mulheres não faz sentido. 

Ilustrações: Chate

NL: Hoje, ainda vivemos em uma sociedade muito autoritária e machista, o que influencia na maneira com que as  mulheres são tratadas desde cedo. Os tipos de violência contra a mulher, em especial a psicológica e patrimonial, já são mais percebidos no seio familiar? 

A.M: Existe uma pesquisa de 2019 que fala que mais de 90% das mulheres vítimas de violência já sofreram violência psicológica. Partindo do pressuposto  que a violência doméstica ou familiar ocorre com pessoas que têm vínculo afetivo com a mulher, o dano, seja ele físico, patrimonial, moral ou sexual, faz com que  ela também passe por um dano psicológico. Não tem como uma mulher passar por uma violência física e não sofrer uma violência psicológica, ela ser lesada patrimonialmente e isso não causar um dano psicológico. A violência psicológica  transpassa todas as outras formas de violência.

NL: Vários casos de violência contra a mulher ocorrem quando o casal já possui um relacionamento consolidado, inclusive com filhos e alguns anos de convívio. É possível perceber comportamentos  abusivos já no início do namoro? 

A.M: Existe uma metáfora que explica perfeitamente como funciona um relacionamento abusivo. Uma cientista separou três sapos para fazer um experimento. O primeiro sapo ela colocou em um recipiente com água e ele nadou perfeitamente. O segundo, ela colocou em água fervendo e ele pulou fora no mesmo instante. Quando ela colocou o terceiro sapo em um recipiente com água fria e foi adicionando aos poucos água quente, ele morreu fervido.  Aos poucos ir adicionando temperatura representa as mínimas manifestações de violência que sofremos dentro de um relacionamento. São situações sutis que, quando você percebe, a água esquentou e você morreu fervida.  Antes de falar sobre sinais de violência é preciso falar sobre como funciona uma relação saudável, precisamos falar sobre a construção de amor próprio que nos é negado enquanto mulheres, porque nós não somos construídas para nos amarmos. 

NL: Existem redes de atendimento e leis que favorecem mulheres vítimas de agressões, mas, na sua concepção,  por que algumas mulheres ainda aguentam violências domésticas por tanto tempo? 

A.M: O Fórum Brasileiro de Segurança Pública afirma que 52% das mulheres não denunciam. Muitas afirmam que por causa do medo do agressor, já outras afirmam que têm medo da exposição, de como vão ser vistas pela sociedade e como vão se recuperar da situação. Então, existem vários motivos para que uma mulher se mantenha em uma situação de violência. Ela pode não saber como recomeçar a vida. Ela pode estar em um estado de dependência emocional muito grande e não conseguir romper com o este ciclo. Vou falar por mim e não por outra mulher Para quem ninguém soubesse que havia sido vítima de uma agressão pela primeira vez, eu fiquei [na relação] e sofri com a violência por uma segunda vez. Conhecia a lei, sabia que tinha estrutura financeira. Mas a questão era a forma como as pessoas que me amavam e me conheciam iriam me ver. Sabemos que a dor de uma vítima de violência é uma dor que apenas quem sofreu sabe [da sua dimensão]. Não gostaria que ninguém soubesse o que estava passando. Depois do primeiro episódio, fui vítima de violência outras dez vezes. Não foi por falta de informação, por dependência financeira ou por medo do agressor. Precisamos conversar com muitas mulheres para entendermos porque não é falado sobre o assunto. No jornalismo, aprendemos que, quando mais se fala sobre algo importante, é maior a chance deste assunto  ganhar força.

NL: Os depoimentos das mulheres que acompanham fotografias da exposição são bem marcantes e revelam coisas que ocorrem diariamente na vida delas. Como você chegou até elas? 

A.M: Foi uma grande rede de amor, de indicação e de acolhimento. A primeira pessoa que entrevistei foi uma ex-colega de faculdade. Ela foi a primeira pessoa que falei sobre o interesse de fazer um projeto que ajudasse outras vítimas. Ela logo falou “tô dentro”. Me indicou outra mulher, também jornalista, que havia sofrido violência. Fomos à Defensoria Pública e outras mulheres que lá foram acolhidas, chegaram até nós. Temos mulheres beneficiadas por organizações da sociedade civil. Tem uma mulher que foi fotografada para esta  segunda edição. A conheci ainda na primeira exposição. Ela viu os depoimentos e disse que, quando a segunda edição fosse ocorrer, queria participar. Existem vítimas que não podem ajudar financeiramente, mas querem ter fotos suas na exposição. Muitas mulheres querem contar suas histórias. Isso é muito potente.

NL:Você tem dedicado grande parte dos seus estudos à luta contra os diferentes tipos de violência sofrido pelas mulheres, inclusive foi tema do seu TCC na graduação e agora é título das suas duas exposições. O quanto esse trabalho significa como uma realização pessoal?

A.M: Este trabalho me resgatou a vida. Sofrer violência e passar por essa dor é algo muito forte, até o ciclo ser rompido. Mas conhecer outras mulheres que foram vítimas fez-me ver mulher de novo. Me fez entender que aquilo que nos une é muito maior do que nos aconteceu. Precisava transformar a minha dor em alguma coisa útil. Preferia não estar fazendo isso [o trabalho]. O faço porque um dia passei por essa situação.

Foto em destaque: LC Moreira / DN

  • Foto: Natália Rocha

One thought on ““Precisava transformar a minha dor em alguma coisa útil”

  • 22 de março de 2022 em 14:55
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    Parabéns pelo trabalho, Andressa! Bela entrevista, Matheus!

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