“Precisamos continuar lutando por um Brasil possível e digno a todas as pessoas” 

Aos 57 anos, Ana Karla Correia Teixeira Dubiela trabalha na criação da coletânea Pandemônio: crônicas brasileiras


Por Gabriel Gago

Filha caçula e única mulher dos cinco filhos de Herbênia Correia Teixeira e Gerardo Barros Teixeira, a jornalista, escritora e professora universitária, Ana Karla Correia Teixeira Dubiela, nasceu em Iguatu (132 km de Fortaleza), no dia 22 de abril de 1964. Segundo ela, apesar da mãe ter sido professora de português, foi do pai, ex-bancário, a sua maior influência pelo prazer na leitura.

Desde pequena, Ana Karla é apaixonada por Belchior, Chico Buarque e Nat King Cole. / Foto: Divulgação/Facebook

Católica, mas simpatizante do espiritismo, o que a resume, na fé, é o respeito por todas as religiões. Ao escrever “A morte do Xamã”, ainda não publicado, conviveu ao lado de cinco tribos indígenas cearenses, e confessa apreciação pelo Xamanismo há mais de 25 anos. 

Mãe, teimosa, e perseverante o que a ajuda na realização de seus projetos, gosta de estar entre amigos, ir ao cinema e conversa de bar. Ela é graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e doutora em Literatura pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), autora de quatro livros e coautora de mais dois.

NewsLink: De onde surgiu a admiração pelo pai da crônica brasileira, Rubem Braga? 

Ana Karla: Foi na infância, no primário, fazendo fichas de leitura e lendo a coleção “Para Gostar de Ler”. Achei ele um máximo. Depois de vinte anos fazendo jornalismo, reli algumas crônicas dele e resolvi que Rubem Braga seria meu objeto de estudo na especialização, no mestrado e no doutorado. 


Livros de Ana Karla Dubiela de gabrielgago_

NL: A obra “Um coração postiço – a formação da crônica de Rubem Braga”  teve aparição no Domingão do Faustão (2012). Qual foi o sentimento quando viu a indicação de um grande ícone da televisão brasileira?

AK: Olha, foi engraçado porque eu não vi. Meu irmão viu e me avisou. Só depois alguém fez um vídeo e aí vi pela primeira vez. Fiquei muito feliz. É um reconhecimento não só do meu trabalho, mas também da grandeza de Rubem Braga. Foi o início de uma trajetória onde me tornei uma referência. Esta semana, por exemplo, Carlos Castelo, da revista Bravo, e do Estadão, pediu meus livros para ele fazer uma matéria sobre o Rubem Braga. Então, as pessoas que se interessam pelo autor geralmente me procuram para saber um pouco mais sobre ele, inclusive o neto, quando quer tirar alguma dúvida sobre o avô, me liga.

NL: Em entrevista à Bienal do Livro do Ceará de 2017, você disse que gostaria de ampliar seus horizontes para além de Rubem Braga. Considera paga essa promessa?

AK: Acho que sim. Tenho novos projetos para este ano. O primeiro, é um novo livro sobre Belchior, que faz com que ele seja visto, revisto, reconsiderado e relido pela MPB (Música Popular Brasileira). O segundo é o centenário do artista plástico Aldemir Martins. Fora estes, também estou lançando um livro autobiográfico de crônicas sobre personagens da cena cultural cearense cujo nome é “A Morte do Xamã”, que será publicado ainda neste ano. Por fim, tem a coletânea de crônicas dos maiores autores do século XXI, Raimundo Neto, Demitri Túlio, Ana Miranda, Lira Neto, enfim, várias pessoas, mas, também, dos grandes nomes como Zuenir Ventura, Martha Medeiros, Luis Fernando Verissimo, Pedro Bial, entre outros. São 33 autores, e a única coisa que tem de Rubem Braga é “Os 30 Anos Sem Rubem Braga” uma menção rápida. O nome da obra é “Pandemônio”. Trata-se de crônicas escritas durante a pandemia, onde faço um encontro entre autores já consagrados e da nova geração, os novos talentos, que procurei em diferentes regiões do país para estarem nessa vitrine.

NL: No jornalismo, enquanto escritora, e como professora universitária, você recebeu premiações. São conquistas que refletem momentos diferentes da sua carreira?

AK: Sim, são momentos completamente diferentes. Os dois primeiros prêmios foram de melhor reportagem, no jornal O Povo, logo, dizem respeito à minha trajetória como repórter de jornal impresso. Em 2008, por meio da obra “Um coração postiço – a formação da crônica de Rubem Braga”, fui ganhadora do Edital Cultural Banco do Nordeste. A menção honrosa, de 2018, é como uma pesquisadora e professora universitária de Jornalismo no Centro Universitário INTA, em Sobral. Foi um prêmio internacional, mas que diz respeito a José de Alencar como precursor da crônica moderna. Normalmente, a gente se refere a Machado de Assis, porém, nesta pesquisa, sinto que foi José de Alencar o autor – 10 anos antes -, de uma metáfora citada por Machado de Assis. Sinto, também, que o grande ídolo de Machado de Assis, é o nosso José de Alencar. Pouca gente sabe disso. 


NL: Como destacaria o período como professora universitária?

AK: Foram 4 anos e sete meses dando aula. Foi um período muito gratificante. Não sabia o quanto nós, professores, temos o poder de fazer florescer os talentos dos jovens. Por exemplo, tive uma aluna que era considerada um “caso perdido”, já estava no terceiro professor e mais nenhum queria orientá-la. Aí disseram: “Ana Karla, se não der certo com você, não vai dar com mais ninguém”. Hoje, ela é uma empresária bem sucedida, ganhou prêmio nacional em vídeos curta-metragem, e fez, junto comigo, o documentário “Bole de Salão”, exibido na França, no Clermont-Ferrand, maior festival de curta-metragem do mundo. Ela se apaixonou pela leitura, pelo audiovisual, em estudar, e volta à universidade para dar palestras. Então, passou da última da sala e irresponsável a uma pessoa de futuro brilhante. Me orgulho disso.  

NL: Nas emissoras de televisão, nos jornais e nas assessorias, quais foram suas experiências?

AK: É uma longa estrada. Comecei no jornal O Povo, sem carteira assinada de jornalista, fazendo a função de repórter na editoria de Cidades. Fiquei pouco tempo, pois fui chamada para ser produtora da TV Manchete. Fui produtora do Agostinho Gosson, minha referência no jornalismo cearense. Depois, acabei tendo três empregos para sustentar minha filha Ilana. A minha trajetória foi toda atrás das câmeras, sendo editora-chefe, redatora, produtora, chefe de reportagem e editora. Durante 10 anos, trabalhei tanto em emissoras locais, como TV Ceará, TV Verdes Mares, e na TV Manchete, do Ceará e do Paraná. A televisão tem um diferencial importante que te dá uma bagagem múltipla, onde você faz pautas e edita de tudo, e isso proporciona uma experiência muito vasta. No impresso, por incrível que pareça, fui repórter de economia sem saber uma linha de economia e tive que me especializar tentando ser uma tradutora para aqueles que não sabiam tanto quanto eu, assim ganhei prêmios de economia, por levar uma linguagem mais acessível, um vocabulário menos economês, a todas as classes sociais e faixas etárias. Posteriormente, quando entrei no caderno Vida&Arte, do jornal O Povo, a cultura falou mais forte e foi quando comecei a fazer meus estudos literários. Também atuei, por 30 anos, na área de assessoria tanto de órgãos públicos, como em Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e Organização não Governamental (ONG). Na época, quase não havia assessoria em ONGs, então, geralmente era contratada para instalar as primeiras. Foi assim que trabalhei no Ceará Periferia, no Dragão do Mar, na Agência Boa Notícia, entre outras. 

NL: O que objetiva na obra “Pandemônio: crônicas brasileiras”?

AK: Nesta produção, não tive medo de chegar perto de Luís Fernando Veríssimo, que também é meu ídolo. E ele disse que tinha prazer em ceder uma crônica. Detalhe: ninguém foi pago. Todos cederam suas crônicas gratuitamente. A literatura vem sendo muito pouco, pra não dizer totalmente desvalorizada na cultura do nosso país. Espero que, em 2022, seja eleito um presidente que preze por educação de qualidade e saiba o verdadeiro valor da cultura. Saí procurando novos talentos e eles ficaram encantados em ter uma publicação sua em um livro como esse, uma coletânea, e quis dizer aos críticos da literatura que: sim, existe crônica no século XXI, e boa crônica, porque disseram que a crônica morreu no século XX, de Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Oliveira. Isso é “conversa”. Hoje, temos crônicas no rádio, na TV, nos jornais, nos blogs, nos sites, e o Prêmio Jabuti, que é o maior prêmio nacional de Literatura do Brasil, criou uma categoria de crônicas, somente em 2021. Só existia conto, romance e poesia. O meu intuito não é mostrar os grandes talentos que a gente já conhece e, sim, que, durante a pandemia tivemos de tudo, que ainda temos uma gama de autores maravilhosos, que a crônica não morreu, que a crônica é um gênero contemporâneo e o preferido da maioria das pessoas, muita gente, adolescente e de todas as idades, escolhem a crônica como um meio de falar tanto de si como do cotidiano e dos problemas enfrentados. 

NL: Qual recado deixaria às pessoas que lhe acompanham?

AK: Quero dedicar, especialmente, a nós, jornalistas. Algumas pessoas falam que o jornalismo está morrendo, que o jornal impresso não existe mais […] O que estamos vivendo é uma abertura de leque, de oportunidades. Temos jornalistas de mídias sociais, de blogs, de sites, de rádio, da internet etc. Não se deixem abater por um único lado da história. O jornalismo nunca foi tão necessário. Precisamos ter pessoas especializadas em trazer informação de qualidade e responsabilidade ética, para continuarmos lutando por um Brasil mais possível, mais digno a todas as pessoas. 

2 thoughts on ““Precisamos continuar lutando por um Brasil possível e digno a todas as pessoas” 

  • 7 de março de 2022 em 14:27
    Permalink

    Fantástica entrevista. Gabriel Gago é craque!

    Resposta
  • 7 de março de 2022 em 23:35
    Permalink

    Adorei conhecer a escritora Ana Karla nessa ótima entrevista de Gabriel Gago! Eu também tive meu primeiro contato com as crônicas de Ruben Braga lendo a coleção Para Gostar de Ler. Sou jornalista e acredito firmemente que só com imprensa livre e ética será possível um Brasil melhor.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

css.php