Especialista afirma que Putin enxergou uma janela de oportunidade para atacar a Ucrânia

Para o professor Philippe Gidon, o russo se aproveita da falta de líderes fortes no Ocidente para intervir no território ucraniano


Carlos Enrique e Batriz Bandeira

Após iniciar a invasão da Ucrânia, tropas russas estão preparadas para tomar Kiev, a capital do país. Nesta sexta-feira, 25, mísseis atingiram alvos militares e civis na cidade, o que mostra uma  rápida intensificação do conflito. O governo ucraniano declarou que qualquer cidadão pode se alistar para as forças armadas. 

Em resposta aos atos comandados por Vladimir Putin, nações ocidentais continuam a aplicar sanções contra a Rússia, na tentativa de persuadir o Kremlin de desistir da empreitada militar. Em comunicado publicado pela Casa Branca, o presidente norte-americano reafirma a intenção de responder às ações russas.   

Para Philippe Gidon, professor de Relações Internacionais da Universidade de Fortaleza, o conflito “tem cheiro do século XX”. Segundo o docente, há possibilidade de que Vladimir Putin tenha enxergado uma janela política para iniciar os ataques contra os ucraniano. “Ele sabe desnortear o interlocutor. Ela [a Rússia] identificou uma janela de oportunidade. Eles consideram que o tempo não está a seu favor. Quanto mais eles esperam, mais o inimigo consegue se preparar”, afirmou.

Segundo Gidon, em um período em que poucos líderes ocidentais são capazes de aglutinar forças, Putin pretende se mostrar um governante influente. “Os russos também viram uma oportunidade de atacar a Ucrânia neste momento de baixa popularidade de Joe Biden nos Estados Unidos e da incerteza da reeleição de Emmanuel Macron na França”.

Ele também traça um paralelo entre a forma de fazer política de Putin e a forma como o russo está lidando com a situação ucraniana. “Ele [Putin], faz parte da velha escola. Ele foi da KGB. Ele ainda tem uma visão que vem da União Soviética, e carrega uma visão muito fria e calculista sobre o poder. Ele é um mestre nisso, porque sabe desnortear o interlocutor. Faz parte de sua estratégia não ter escrúpulos em mentir”.  

Depois da invasão russa da região ucraniana da Criméia em 2014, tratados foram costurados para pôr fim às tensões na região. Concebido na época, o acordo de Minsk garantia mais autonomia aos enclaves separatistas de Donetsk e Luhansk, regiões reconhecidas por Putin como independentes na última segunda-feira, 21.

Reação brasileira ao conflito 
Bolsonaro foi recebido pelo presidente Russo no dia 16 desse mês / Foto: Mikhail Klimentyev / Sputnik / AFP

Em nota à imprensa, o Ministério das Relações Exteriores afirma que acompanha com preocupação a escalada do conflito no leste europeu. O governo brasileiro ainda diz que espera o fim das hostilidades e o início de negociações diplomáticas. 

Na contramão de diferentes líderes sul-americanos, Jair Bolsonaro não teceu críticas à postura de Vladimir Putin. No dia 16 de fevereiro, o presidente brasileiro realizou uma visita ao homólogo russo. Phillip Gidon explica essa visita: “As relações comerciais com a Rússia não são volumosas, mas elas são de produtos que são muito estratégicos para a própria economia brasileira, por exemplo, o fertilizante. Boa parte dos fertilizantes que são utilizados na agropecuária, no cultivo da soja, vêm da Rússia.”

“Ele foi no pior momento, bem na véspera da invasão. Pelo que os americanos dizem, ele já tinha a intenção de invadir há dias, só estava esperando o momento que considerasse mais apropriado”, afirma Gidon. 

Para o docente, a postura do chefe do Executivo brasileiro diante da operação militar da Rússia atesta ainda mais o seu isolamento dos principais líderes globais. “Acho que ele deve ter também uma certa admiração por essa personalidade mais forte e mais centralizadora. Ele está muito isolado e precisa mostrar para o eleitor dele que ele não está tão isolado quanto dizem que ele está”, disse. 

Quanto à duração do conflito, o professor não vê uma perspectiva viável de apaziguamento a curto prazo. “Esses cenários intermediários não permitem que a gente enxergue uma resolução a curto ou médio prazo. Vai ser o tipo de um conflito que, no melhor dos casos, vai ficar congelado.”

Foto em destaque: Vadim Ghirda / Outlook

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