“A informalidade deteriora a vida dos trabalhadores no presente e no futuro”

Para o economista Ricardo Eleutério, o Brasil tem uma perspectiva econômica desafiadora em 2022


Por Carlos Enrique

O aperto financeiro e a instabilidade econômica fazem parte do dia a dia de milhares de brasileiros. Nos últimos meses, é notório a disparada nos preços da cesta básica e de outros itens, como os combustíveis. O economista Ricardo Eleutério, professor de Jornalismo Econômico da Universidade de Fortaleza e vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará, aponta que o cenário para o crescimento econômico no Brasil é pouco convidativo. 

Como ilustração, o docente cita como empecilhos para o crescimento a pressão inflacionária e o aumento da taxa de juros, características da conjuntura econômica nos últimos anos. Com isso, afirma Eleutério, a informalidade tende a crescer, já que há dificuldade de geração de empregos com carteira assinada.  

Outro obstáculo a ser enfrentado em 2022 é a herança da pandemia no setor econômico, uma vez que as cadeias produtivas e o fluxo de capital foram fortemente atingidos pelas medidas de contenção à Covid-19. Reflexo disso foi a concretização de políticas econômicas que tinham como objetivo impedir o aumento da recessão, mas que acabaram por elevar a inflação no país. 

Para Eleutério, em meio a um quadro global de constantes mudanças econômicas, o Brasil necessita estar a par das inovações tecnológicas e do desenvolvimento sustentável para vencer os solavancos econômicos e se estabilizar.

NewsLink: Como podemos traçar a perspectiva da economia brasileira para 2022?

Ricardo Eleutério: O cenário é bastante desafiador. Vamos continuar com pressão inflacionária. A expectativa é que ela gire em torno de 5%, mais ou menos a metade do que fizemos em 2021, que foi na ordem de 10%. Para tanto, o Banco Central eleva a taxa de juros para esfriar a demanda, o que inibe a expansão do consumo e do emprego. Em decorrência deste remédio amargo, que é a elevação dos juros, teremos um crescimento baixo ou até negativo, o que causaria recessão com inflação. Isto caracterizaria o fenômeno da estagflação, que é o pior dos mundos, porque o Produto Interno Bruto (PIB) não cresce e os preços aceleram.

A taxa de desemprego vem caindo gradativamente, principalmente causada pela recuperação do ano passado, cujo resultado deve ser divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cuja previsão é de 4% a 5% de crescimento. Quando comparado com 2020, o resultado também é este. Ainda teremos, contudo, uma taxa de desemprego de cerca de 11% neste ano.  

NL:  O que o Brasil fez para reverter o impacto econômico causado pela pandemia? 

RE: Para se defender da pandemia, o Brasil e outras economias mundiais fizeram em 2020 uma política econômica anticíclica, com aumento da expansão fiscal para evitar que a recessão fosse maior. Outra medida adotada foi um política monetária também expansionista, pondo a taxa Selic em 2%, patamar mais baixo da história brasileira. Essas medidas, todavia, produziram mais inflação não só no Brasil, mas na economia internacional. Isto ficou conhecido como inflação da pandemia, porque existiu uma desorganização das cadeias produtivas. Os custos de produção subiram e os insumos para os processos de produção se tornaram escassos. Tudo isso contribuiu para o aumento da inflação. 

NL: Dados recentes atestam que a informalidade é responsável por uma grande fatia da taxa de ocupação no país. O que isso indica? 

RE: O mercado de trabalho sofreu um impacto muito significativo com a pandemia e com a paralisação da atividade econômica. Alguns setores sentiram mais estes impactos, como o de serviços. O desemprego aumentou e o empreendedorismo de necessidade cresceu, mas ele tem um problema, que é a falta de preparo. 

Com alta taxa de desempregados, cresce no Brasil a informalidade como forma de ocupação / Foto: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo

A informalidade cresce em períodos de baixa na atividade econômica. Existe uma precarização do trabalho, com os empregados sem as coberturas de seguro-desemprego e sem contribuir para a previdência. Então, a informalidade deteriora a vida dos trabalhadores no presente e no futuro.    

NL: No último ano, se registou um aumento exponencial no preço da cesta básica. Este cenário tende a se repetir em 2022?

RE: A expectativa é de uma taxa de inflação menor que a do ano passado. A inflação, como dizem os economistas, é o pior imposto, porque ela tira dos agentes econômicos o poder de compra, especialmente daqueles de renda menor. Os gastos com transporte, habitação e alimentação pesam mais no orçamento destas pessoas. Se a pressão inflacionária se apresenta sobre estes segmentos, a deterioração da renda e do poder de compra é muito acentuada.  

NL: Em anos eleitorais, é normal que governantes esqueçam o cuidado fiscal e estabeleçam programas econômicos que inflam suas chances de eleição. Qual o impacto que a má gestão das contas públicas pode causar a longo prazo? 

RE: O desequilíbrio fiscal é uma decorrência da expansão dos gastos públicos. Em anos eleitorais, a prática de aumentar as despesas é recorrente. Assim, o desequilíbrio nas contas pode se aprofundar, aumentando o ambiente de incertezas. Os investimentos estrangeiros podem declinar em função do risco-país ser maior, o que gera uma pressão no dólar e na inflação. O mercado e a dinâmica econômica são impactados negativamente. No longo prazo, o desequilíbrio fiscal mantém a necessidade do setor público comprar dinheiro da sociedade, vendendo títulos públicos para financiar o déficit, gerando aumento da dívida pública. 

NL: Quais os maiores desafios a serem enfrentados para reverter o mal uso das contas públicas?

RE: O desafio de enfrentar o déficit público é enorme. Via de regra, procura-se fazer o ajuste pelo lado da receita, criando mais impostos e tentando aumentar a arrecadação. É mais difícil, politicamente, fazer os ajustes por lado das despesas, cortando gastos no investimento público, pois a política fiscal passa pelo Congresso e pelas assembleias dos estados. Já realizar política monetária é mais fácil porque ela é feita na órbita do Banco Central.

NL: O Brasil está apto a acompanhar as principais mudanças econômicas do globo?

RE: As mudanças e os avanços econômicos estão associados com inovações tecnológicas, com o aumento da produtividade da mão de obra, com o desenvolvimento sustentável e com o equilíbrio ecológico. Estas pautas não fazem parte do programa do governo. Tudo isto tem sido negligenciado ou trabalhado na contramão. Precisamos pensar no futuro, desenvolvendo estratégias. O desenvolvimento econômico é um processo de longo prazo. 

O futuro está contido no passado, dependendo do que fazemos hoje ou não. Podemos sentir estes efeitos. Parafraseando um grande cronista, “o Brasil é um país que tem um longo passado pela frente”. 

Foto em destaque: Ares Soares

3 thoughts on ““A informalidade deteriora a vida dos trabalhadores no presente e no futuro”

  • 22 de fevereiro de 2022 em 00:11
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    Parabéns, Carlos Enrique, pela escrita impecável, e parabéns, professor Ricardo, por seus depoimentos coesos acerca da economia brasileira.

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    • 22 de fevereiro de 2022 em 16:38
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      Professor Ricardo, mais uma vez, demostra grande conhecimento sobre a economia do Brasil. Grande mestre.

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  • 23 de fevereiro de 2022 em 15:03
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    Quando eu li essa reportagem realizada pelo meu colega de trabalho Carlos Enrique, tive a certeza de que amo o jornalismo. É tão bonito ver uma pessoa tão jovem e talentosa por em pratica os seus sonhos. Perdi as contas de quantas vezes ele me disse que o seu sonho era entrevistar o Professor Ricardo Eleutério. Carlos Voa irmão <3

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