“Sinto na pele como a desinformação é severa. Ela inclusive mata”

Natália Coelho, formada em Jornalismo na Universidade de Fortaleza, vai integrar o time da Agência Lupa em 2022


Por Carlos Enrique

Com a popularização dos meios de comunicação digitais,  é cada vez maior a quantidade de notícias falsas a circular entre os usuários. Como forma de combater a disseminação, agências de checagem de informação ganharam terreno no meio jornalístico brasileiro.  

Formada em Jornalismo pela Universidade de Fortaleza, Natália Coelho, 25, agora faz parte da Agência Lupa, a primeira organização de fact-checking do Brasil. Segundo a egressa, a desinformação na mídia é um dos sintomas de um processo de erosão da credibilidade dos veículos de comunicação. Criada em 2015, a Lupa  trabalha checando informações falsas deliberadamente veiculadas em redes sociais e em sites de notícias. 

Natália também atenta que as redações não podem mais deixar de investir em fact-checking, já que informações imprecisas não devem ganhar espaço no  jornalismo profissional. Para ilustrar a importância de combater notícias falsas, a jornalista lembra das fakes news vinculadas às vacinas contra a Covid-19.

NewsLink: Quando o desejo de cursar Jornalismo primeiro apareceu em sua vida?

Natália Coelho: Ele não vem de criança, não. Na verdade, até o segundo ano,  ainda pensava em medicina (como muitos estudantes do ensino médio), e no terceiro ano, ainda pensava em direito, mas já me encaminhando para esse lado de justiça e democracia. Acho que foi conversando com minha prima, que se formou em jornalismo, que percebi que na verdade amava esse lado do mundo, da comunicação, da democracia, do humanitário… Jornalismo é um campo muito amplo e, sem dúvidas, é uma profissão apaixonante demais! Sempre gostei de me comunicar (falar, escrever, pesquisar e repassar o que havia aprendido), mas me apaixonei pelo jornalismo quando entendi ele como uma forma de ajudar as pessoas, contar suas histórias e conseguir visibilidade para questões necessárias. Acho que o jornalismo, além de uma forte ferramenta da democracia, é também uma forma de amar as pessoas.

Natália acredita que a desinformação é um problema a ser combatido no meio jornalístico / Foto: Ares Soares

NL: De que maneira a sua formação na Universidade de Fortaleza reflete na sua vida profissional?

NC: Destaco muito o NIC (hoje NewsLink) e meus professores. Tive a honra de ser aluna de grandes nomes que me inspiram até hoje, como o professor Alejandro (meu primeiro professor da faculdade), Adriana Santiago, Janayde Gonçalves, Kátia Patrocínio e outros. Agradeci demais a todos no meu TCC (risos).

NL: A vontade de se tornar uma jornalista voltada a agências de checagem nasceu já no período de graduação?

NC: Conheci a Lupa numa palestra da faculdade, e fiz um curso de checagem com a grande Thays Lavor, na Universidade de Fortaleza (e inclusive citei isso com orgulho no processo seletivo da Lupa). Acho que posso dizer sim que surgiu nessa época. Sou apaixonada por diferentes áreas do jornalismo, mas a checagem e o trabalho da Lupa são alguns destaques, porque sinto na pele como a desinformação é severa. Ela inclusive mata, e a prova disso são as pessoas morrendo por não quererem tomar a vacina contra a Covid-19. Então, a desinformação me irrita, me incomoda, e acho que a todo jornalista.

NL: O ano de 2022 vai ser marcado pela realização de eleições no Brasil, as mais importantes desde o processo de redemocratização no país. Como enxerga o papel da imprensa neste contexto?

NC: Como dizia Schudson, não existe democracia sem jornalismo. Estudei o jornalismo cívico (que promove democracia) no meu TCC (orientado pela professora Adriana Santiago) e como o jornalismo tem um papel indispensável para a manutenção desse sistema. Então, o jornalismo vai ter o papel dificílimo de se comunicar muito bem nesse período. Dificílimo porque não só vai ser um momento em que seremos muito atacados, mas como teremos de ter cuidado para nós mesmos não produzirmos desinformação.

Não tem como a redação não investir na checagem, ou ainda publicar notícias sem checar

NL: Nos últimos anos, forças políticas avessas ao processo democratico e à liberdade de expressão ganharam terreno em diferentes países do Ocidente, incluindo o Brasil. Neste sentido, como o jornalismo independente vai sobreviver?

NC: O jornalismo, ao mesmo tempo que ainda está lutando para se adaptar ao mundo digital, nova esfera comunicacional, novo mercado, passa pelo desafio de ser sempre desacreditado. Se um jornal posta uma matéria que desagrada um político, por exemplo, seus defensores irão dizer que é fake news. Então, consigo ver os desafios, mas acho muito arriscado chutar uma solução. 

NL: Como se alimentar de informações precisas em uma conjuntura de disseminação de conteúdos  falsos?

NC: Outra pergunta muito boa, porque estamos  tão desacreditados que não sabemos mais em quem ouvir. O título de jornalista hoje às vezes parece que dá “credibilidade” para algumas pessoas falarem cada absurdo. Temos de confiar em pessoas que são transparentes quanto ao método, quanto às respostas e quanto aos erros, inclusive. A International Fact-Checking Network (IFCN), uma instituição internacional que certifica checadores de notícias, indica que os checadores devem ser transparentes quanto a diversas questões, desde metodologia até o financiamento. E isso deve valer para o jornalista que faz a matéria também, e é um indicador para garantir que o comunicador está sendo ético em seu trabalho.

NL: As redes sociais estão cada vez mais sendo usadas como aliadas de políticos e de influenciadores que visam a minar a democracia. De que forma as agências de checagem convivem com essa situação?

NC: As redes sociais aumentaram o número de informações a serem checadas, e isso é bom e é ruim. Bom porque o material para o checador é vasto, fica mais fácil entender a informação a ser checada e são muitas as redes que conseguimos alcançar. Mas ainda acho que as redes sociais são muito ‘terra sem lei’, e que também atrapalham — principalmente disseminando desinformação. Creio, porém, que o jornalismo e o fact-checking estão no caminho para usá-las a nosso favor.

NL: Que habilidades precisam ser desenvolvidas por um jornalista que queira trabalhar em uma agência de checagem?

NC: Acho que o principal é a transparência, como já mencionei. E não devemos esquecer que o checador é um jornalista. São as mesmas habilidades, o mesmo ethos e o mesmo objetivo.

NL: Como a imprensa profissional deve agir quando confrontada pela difusão deliberada de informações falsas?

NC: Entendo que toda imprensa deve ser uma checadora, porque o fact-checking já é atribuição rotineira. Fato ou Fake, Projeto Comprova e outras iniciativas que entram nas redações devem ser fortalecidas, e o fact-checking já pode inclusive entrar nas faculdades, porque a desinformação é real. Não tem como a redação não investir na checagem, ou ainda publicar notícias sem checar. Já recebi textos absurdos como pautas e é preciso visão para inclusive analisar se eles merecem ou não qualquer espaço na mídia.

Foto em destaque: Arquivo pessoal

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