“Ele era um apaixonado pelos tipos sofridos e esquecidos da sociedade”

O historiador Levi Jucá sempre nutriu interesse e admiração pela vida do caricaturista cearense Mendez e agora lança a sua biografia, após anos de ampla pesquisa


Por Carlos Enrique 

Nascido em Baturité (173 km de Fortaleza), Mário de Oliveira Mendes, conhecido em âmbito nacional como Mendez, é considerado um dos maiores caricaturistas brasileiro do século XX. Em sua arte, é possível notar elementos da cultura cearense e brasileira.

Foi no Rio de Janeiro que o artista ganhou notoriedade por suas obras, principalmente nos jornais O Globo e A Tarde. Figuras como Getúlio Vargas e Jorge Amado foram retratados por Mendez em suas caricaturas. Além de grandes nomes da política e da cultura nacional, ele adorava representar traços de personagens da periferia e de estratos mais pobres da sociedade.    

O historiador e escritor cearense Levi Jucá há anos estuda a vida e a obra desse artista cearense. Do interesse em estudar o caricaturista, nasceu a ideia de publicar uma biografia sobre Mendez. Depois de quatro anos visitando museus e se debruçando em acervos públicos e privados, o biógrafo conseguiu concluir seu livro “Mendez – mestre da caricatura”. 

Conhecido por seu traçado fine e elegante, Mendez retratou grandes políticos brasileiros do século XX / Foto: Reprodução / Mendez

NewsLink: Como nasceu seu interesse pela vida e obra de Mário de Oliveira Mendes, o Mendez?

Levi Jucá: Moro em Pacoti, na Serra de Baturité, e há 14 anos tenho me dedicado à pesquisa histórica dessa região. E isso inclui histórias de vidas, de personalidades locais. Minha primeira biografia publicada foi sobre outro baturiteense ilustre, também radicado no Rio de Janeiro, Luiz Severiano Ribeiro (1885-1974), o “Rei do Cinema” do Brasil. Isso foi em 2017, mesma época em que, durantes as viagens de pesquisa ao Rio, acabei por descobrir o Mendez, cuja biografia concluí em 2021, totalizando 4 anos de pesquisa em acervos públicos e particulares.

NL: José Carlos de Brito e Cunha, importante artista brasileiro, uma vez afirmou: “O Mendez terá grande futuro, e os historiadores de amanhã irão se utilizar de seus desenhos como fortes subsídios”. Podemos afirmar que esta frase realmente traduz a atemporalidade do caricaturista cearense?

LJ: Sem dúvida, afinal J. Carlos foi o grande ícone da ilustração, charge e caricatura moderna brasileira. Apesar de mais velho, foi amigo e contemporâneo de Mendez, ao qual não poupou elogios. Quando J. Carlos menciona que os historiadores utilizarão seus desenhos como fortes subsídios se refere sobretudo, para além da caricatura de figuras do meio político e artístico do seu tempo, aos estudos e desenhos de Mendez sobre os tipos do povo, como os negros do Nordeste (Bahia), ou da periferia carioca, verdadeiros retratos sociológicos das minorias.

NL: De que forma a cultura cearense influenciou a obra de Mendez? 

LJ: Nascido em Baturité em 1907, onde permaneceu até os 5 anos, Mendez viveu os anos seguintes como “nômade”, por conta do pai que era maestro de banda de música e, por essa razão, frequentemente convidado a formar bandas em diversos lugares. Viveu no Pará, Maranhão e, por fim, nos sertões dos Inhamuns e em Fortaleza, onde trabalhava no ateliê do Queirós, próximo à Praça do Ferreira. A influência do Ceará, como de aspectos do Norte e Nordeste em geral, são muito presentes na sua obra, especialmente em ilustrações e pinturas, a retratar pescadores, jangadeiros, indígenas, rendeiras, vaqueiros, cenas de maracatu, briga de galo, pega de boi, dentre outros tipos e manifestações culturais.

NL: Por meio das diferentes obras de Mendez, de que modo podemos compreender a sociedade brasileira contemporânea?

LJ: Ele representou a geração dos artistas modernos no Brasil. No âmbito do traço de humor, fez história ao lado de outros grandes chargistas, como Alvarus, Augusto Rodrigues, Nássara, Lan, Martiniano, etc. No caso específico de Mendez, ele era um apaixonado pelos tipos sofridos e esquecidos da sociedade. Após excursionar pelo Nordeste, entre 1933 e 1934, realizando diversas exposições de caricaturas e desenhos, ele passou a ter um olhar extremamente sensível a esses sujeitos e seus costumes, característica que o acompanhou por toda a sua trajetória artística. Portanto, nesse aspecto social de sua obra, podemos reconhecer as desigualdades históricas do nosso país.

Natural do Ceará, o caricaturista fez sua vida no Rio de Janeiro e trabalhou em grandes veículos da cidade / Foto: Reprodução / Mendez

NL: Qual a importância do Ecomuseu de Pacoti para seu desenvolvimento como historiador e biógrafo?

LJ: Além de pesquisador, sou professor de história no ensino médio. O Ecomuseu foi criado em 2015 junto de meus alunos, por meio de ações de iniciação científica, como pesquisa e divulgação do patrimônio cultural e natural de Pacoti e Maciço de Baturité. Hoje, como entidade sem fins lucrativos, é proponente de diversos projetos educativos e culturais, a exemplo da publicação do livro Mendez, que contou com apoio de recursos da Lei Aldir Blanc, e que é a primeira obra impressa a trazer o selo editorial do Ecomuseu de Pacoti. 

Desde então, o Ecomuseu passou a colecionar um importante acervo documental, bibliográfico e digital sobre a memória histórica da região, a partir de doações de material e de meus levantamentos como pesquisador e autor independente.

NL: De que maneira o senhor pretende reafirmar a importância de Mendez para a cultura cearense e brasileira?

LJ: Trazendo à luz a sua trajetória pessoal e artística para conhecimento das novas gerações por meio do livro biográfico e iconográfico. É um primeiro passo para fazer justiça ao seu importante legado. Pretendo, com o apoio da família de Mendez, realizar novos projetos, como publicações e exposições de sua obra.

NL: O senhor acredita que sua biografia tem o potencial de estimular a criatividade de jovens artistas cearenses?

LJ: Acredito que sim, afinal Mendez é um “clássico” e o clássico é uma referência atemporal. Vale ainda destacar que ele era chamado de “mestre da caricatura” não apenas como um grande portrait-chargista, por seu traço preciso, quase “psicológico”, como se costumava dizer, mas porque era extremamente generoso com os novos artistas, sempre os recebendo em sua casa, mesmo já bastante idoso. Era muito generoso, doava desenhos originais a esses jovens e publicou o seu método de observação e desenho através do célebre manual “Como fazer caricaturas”, publicado pela Ediouro entre as décadas de 1950 e 1980, alcançando e inspirando diversas gerações nos quatro cantos do país. Por tudo isso, é muito provável que sua arte permaneça, como sempre foi, inspiradora aos jovens. Incluindo seus conterrâneos, que agora terão a oportunidade de conhecê-lo através do livro.

Foto em destaque: Arquivo Pessoal

One thought on ““Ele era um apaixonado pelos tipos sofridos e esquecidos da sociedade”

  • 10 de fevereiro de 2022 em 14:31
    Permalink

    Quando me debrucei sobre a leitura desta matéria tive a certeza que MEU AMIGO Carlos Enrique está de fato no caminho certo. Enrique, você tem um talento para a escrita jamais visto antes em redações de todo o país.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

css.php