Abra os olhos da justiça

Auricélia Pereira, 50, é integrante do grupo Mães da Periferia e luta por punição pela violência policial que deixou o filho incapaz de andar


Por Beatriz Bandeira, Nancy Benevinuto e Guilherme Gondim

No dia nove de março de 2021, Athirson Gabriel Pereira da Silva foi atingido por um tiro durante uma abordagem policial na Rua Damasceno Girão, no bairro Jardim América, em Fortaleza. A lesão deixou o jovem de 18 anos, que cursava o primeiro ano do Ensino Médio, incapaz de andar e vem trazendo dificuldades para a mãe, Auricélia, há mais de nove meses. 

O motivo do confronto foi a entrega de um aparelho de ar condicionado, que deveria acontecer em um condomínio residencial no Eusébio, cuja rota foi alterada durante o percurso. A pessoa que vendeu o ar condicionado procurou a polícia ao constatar que havia entregue o produto sem receber o valor da venda. Ao tomarem conhecimento do fato, os policiais se dirigiram ao local de entrega, onde estavam Gabriel e outra pessoa. 

Segundo Auricélia Pereira, a abordagem ocorreu em um local que Gabriel costumava frequentar com os amigos, para jogar bola, perto da casa de sua avó. A prisão aconteceu por volta das dez horas da noite da terça feira, dia nove de março. Ao ver os policiais, Gabriel correu e foi atingido por um tiro, tendo que ser levado para o Instituto Dr. José Frota (IJF) para receber atendimento médico.

Caixa D’água na Rua Damasceno Girão / Foto: Google Street View

Gabriel chegou a escutar conversas na viatura em que foi levado, entre os policiais, que mostraram ter consciência da truculência da abordagem. Para a mãe, o tratamento que os policiais deram ao jovem teve cunho racista.

Nos dois primeiros dias em que esteve hospitalizado, Auricélia não foi autorizada a ver ou saber do estado de saúde de seu filho. Athirson Gabriel foi indiciado por estelionato e homicídio e nele foi colocada uma tornozeleira eletrônica ainda no hospital. 

Após um parecer judicial, a acusação de homicídio foi retirada. Auricélia conta que não conseguiu obter informações sobre a acusação: “Cadê o morto? Quem é, que ninguém comenta, que ninguém fala?” 

No dia dez de março foi realizado um protesto com o objetivo de obter justiça pela lesão de Gabriel. Na ocasião, manifestantes atearam fogo à barricada no cruzamento entre as Ruas Damasceno Girão e Antônio Mendes. O fogo foi controlado por uma unidade do Corpo de Bombeiros e, segundo Auricélia, a polícia militar entrou em confronto para dispersar a população.”Aqui pela redondeza eles têm esse costume. É fato. Policial entra atirando nas comunidades. Ficam atirando, desacatam à população, amedrontam.”

Protesto deixou  uma faixa pedindo justiça ao Governador Camilo Santana / Foto: Assessoria do Corpo de Bombeiros

Desde a sua saída do hospital, a dona de casa teve que cuidar do filho e arcar com a dificuldade financeira do seu tratamento, sem qualquer tipo de ajuda do Estado. Gabriel está em atendimento fisioterápico no hospital Sarah Kubitschek e, desde então, tem retomado os movimentos na perna esquerda enquanto a outra continua paralisada. 

Entre os remédios com os quais a família tem que arcar estão o analgésico (Tramal), antidepressivo (Amitriptilina) e a medicação de Auricélia para lúpus eritematoso (Reuquinol). Com o bolsa família como fonte principal de renda, nos últimos meses, não tem sido possível arcar com a conta de energia. 

Outra dificuldade para Gabriel está sendo retornar aos estudos. A família procura, há cinco meses, um colégio onde ele possa continuar o primeiro ano do Ensino Médio, mas as instituições de ensino procuradas afirmaram não ter estrutura para receber um aluno com deficiência física e se recusam a realizar a matrícula.

Diante da situação, o que mais aflige Auricélia é o estado emocional do filho. “A vida do Gabriel mudou muito, você não vê mais alegria”. Ela conta que Gabriel passa a maior parte do tempo em seu quarto e que “via ele chorando direto de dor.” 

“A vida do Gabriel mudou muito, você não vê mais alegria” Auricélia Pereira

“O Gabriel era um rapaz jovem cheio de vida, cheio de planos que do nada foram interrompidos. (…) Ele trabalhava e estudava e hoje ele se vê sem condições de fazer as atividades que ele fazia antes por causa de uma irresponsabilidade de um policial que fez uma abordagem desastrosa confundindo ele com outra pessoa e não se deu ao trabalho de primeiro ter certeza”, relata a mãe. 

Um grupo de policiais procurou a casa em que Gabriel mora com o pai e a mãe, perguntando aos vizinhos por informações. Auricélia diz que se sente intimidada pelas visitas e que, quando os policiais perguntam sobre o estado de saúde do jovem, ela responde que ele está “do jeito que vocês deixaram.” 

Além de ter se empenhado não só para cuidar do seu filho, ela também luta por justiça pela lesão sofrida por ele. Diz que tem medo de deixá-lo sozinho em casa e que  é desmotivante ver a impunidade nos casos de violência policial no Brasil. Desde então, conta que está “pedindo a Deus que abra os olhos da justiça para punir os policiais, porque é muito triste eu ver meu filho em uma situação dessa e eles, impunes.”

Foto em destaque: Reprodução / G1

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