“Criei outro estilo em cima do estilo que aprendi com meu pai”

Ao adaptar o que aprendeu durante a infância, Espedito Seleiro levou suas peças de couro para as passarelas de moda e o reconhecimento mundial

Por Vitória Vasconcelos

Desde os oito anos de idade, seguindo os passos do pai, Espedito Seleiro, 82, trabalha com couro. Ele é a quinta geração da família a trabalhar como seleiro, profissão esta que gerou o apelido pelo qual é chamado e conhecido por todos que o admiram, tanto no seu dia a dia, quanto no meio da moda ao redor do mundo.

As peças, feitas com carinho e capricho, trazem na sua criação todo o conhecimento que adquiriu durante os 74 anos trabalhando com o corte de couro. Suas criações são feitas de forma tão únicas que acabaram abrindo as portas do mundo da moda para ele, fazendo com que participasse de desfiles de moda, como foi o caso de ir três vezes para o São Paulo Fashion Week e duas vezes para o Dragão Fashion, além de suas peças aparecerem como figurino em filmes e novelas e possuir um museu em sua homenagem, chamado Museu do Couro de Espedito Seleiro.

Orgulhoso de seu trabalho, o mestre da cultura e da arte no Brasil faz tudo, como ele mesmo diz, com as próprias mãos, com a mente e com muito perfeição e cuidado. Tanto é assim, que pessoas de diferentes países visitam a loja e o museu para saber mais sobre sua história e comprar alguma peça que tenha feito.

NewsLink: Queria começar perguntando qual a origem do sobrenome Seleiro?

Espedito Seleiro: O Seleiro é por causa da profissão. Meu pai chamava-se Raimundo Pinto de Carvalho, mas o povo só o conhecia por Raimundo Seleiro, por causa da profissão de fazer sela, gibão e sapato.

Espedito Seleiro recebeu, em 2013, a Ordem do Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura / Foto: Divulgação: Pau de Arara

NL: O seu trabalho é algo que acompanha a família há quantas gerações?

ES: Tudo que faço com esses sapatos era o que o meu avô, meu bisavô, meu tataravô faziam. Comigo é a quinta geração trabalhando com couro.

NL: O que diferenciou sua forma de fazer as peças, da forma que seu pai fazia?

ES: O meu modo, como fazia algumas peças que aprendi a fazer com ele [pai], como roupa pra vaqueiro, cigano, tropeiro, cangaceiro, que meu pai fez, mas nunca fiz, porém aproveitei o modelo. Como eu vestia muito essas pessoas que hoje não têm mais, como, por exemplo, acabou o vaqueiro… Quando você vê um vaqueiro tangendo o gado na estrada é em uma bicicleta ou em uma moto, ou carro, ou até mesmo em avião, eu já vi. Na época que comecei com meu pai era tudo no cavalo encorado com gibão, chapéu, bota. Esse povo se acabou e foi aí que criei outro estilo em cima do estilo que aprendi com meu pai: fazer peças coloridas que quem vai usar não são o vaqueiro, cigano, tropeiro, cangaceiro, quem vai usar é o estudante, o padre, o doutor, o artista, quem quer que seja. Fui eu que criei o modelo, fui eu que fiz as tintas, fui eu que fiz tudo.

NL: O senhor é bem conhecido no mundo da moda. Como é está entre os estilistas reconhecidos?

ES: Quando ainda fazia peça pra esse povo que falei pra você, não havia mais. Você levava para a feira e não tinha mais, botava na lojinha e ninguém comprava. Por isso que hoje só trabalho mais pra novela, filme e desfile. O mais complicado é fazer peça pra desfile de moda… Não queira entrar nisso não, que é complicado. Porque você tem que criar algo que nunca foi visto no mercado e em lugar nenhum, um estilo que ninguém nunca viu. Um desfile de moda é uma coisa que você vai mostrar uma coisa que não existia.

NL: E eu fico me perguntando quem usaria uma roupa de um desfile de moda na vida real.

ES: É o mais complicado. O trabalho da arte é criar um modelo que ninguém nunca viu, se nunca viu, também nunca usou, que é pra mostrar no desfile. E já fiz muitos: São Paulo Fashion Week já fiz três vezes, Dragão Fashion fiz duas vezes, desfile em Goiânia, Teresina, Rio de Janeiro… Graças a Deus deu tudo certo.

NL: O Museu do Couro é considerado seu museu. Como se sente?

ES: Não queria o Museu do Couro, mas como não entendo de museu, entendo do trabalho que faço; ser curador de museu, não entendo. Se for fazer um pra mim mesmo, como ainda tenho vontade de fazer, faço do meu gosto, do jeito que quero e ninguém vai desaprovar, que é gosto meu. Mas como não sabia como é que fazia a montagem, pedi a Alamberg pra me ajudar com na montagem, e ele disse: “vou fazer, mas  não vou colocar nada de seu pai, de sua mãe, nem a história de nada da família, só sua. Vai ser Museu do Couro de Espedito Seleiro”. Pedi a opinião dele, e também fiquei quieto, aceitei, mas queria que fosse o museu do vaqueiro, porque o museu do vaqueiro traz muitas histórias em cima daquelas, não é do Espedito Seleiro, pra mim não sei se vale a pena. Mas, tenho muita vontade de fazer o que quero e se Deus quiser vou fazer. Lá é uma coisa e aqui vai ser outra. Porque  não vou desmanchar o que pedi a ele pra me ajudar e ele achou bom botar o museu no meu nome e a história só minha, tudo que tem lá é só meu, a história é só Espedito Seleiro. Mas num gostei. Tem muita gente que pensa que quero aparecer, me mostrar, quero num sei o quê. O bom é o povo enxergar o que você é, não é a gente se achar bonito, se achar famoso, se achar isso ou aquilo, deixe que o povo diga.

NL: Quais materiais o senhor utiliza para criar suas peças?

ES: Utilizo só a cabeça. E as ferramentas são muito simples: tenho uma máquina de costurar, eu não, cada menino que trabalha comigo, de fazer costura reta, o resto é tudo à mão. Eu não tenho balancinho, máquina de engraxar, de cortar, máquina de atalazar, tudo é na mão.

NL: É a própria ferramenta.

ES: A própria ferramenta a gente mesmo faz. Faço a minha, você faz a sua, é uma laminazinha que corta, só não faz aquela canetinha, que a gente compra a canetinha própria pra riscar a peça.  Mas, mesmo assim, se ainda aperrear, a gente faz o costa, que é o risquinho, só que não é muito legal, não é como a caneta. Faz o corte com uma laminazinha, a mesma que o médico faz operação, você faz todos os cortes e fica tudo certinho.

NL: É isso que faz com que suas peças possam ser identificadas com as cópias vendidas por aí?

ES: Por que os ‘cabas’ pelejam pra imitar Espedito Seleiro e só fazem porcaria? Porque eles cortam no balancinho. O balancinho é uma peça grande e quando desce corta tudo, só que a faca não é afiada como a nossa e a beirada fica arrepiada. O colorido que faço é feito com o mesmo couro da peça, sabe? O mesmo couro que faço a peça, faço o coloridinho aqui embaixo. Você chanfra com uma faca, colada só por um lado, que é pra não estragar o outro lado. Aí você chanfra e coloca, com o mesmo couro, se for pano, coloca o mesmo pano. E esses ‘cabas’ que fazem as cópias, como eles não sabem fazer isso e nem têm a manha, compram o plástico que já vem prontinho, o plástico fininho, umas cores bem bonitinhas, aí só tira um pedaço e coloca embaixo, o próprio plástico mesmo. Aí querem vender barato.

As sandálias de couro estão dentre as peças mais procuradas por aqueles que admiram Espedito Seleiro / Foto: Divulgação: Pau de Arara

NL: Como é que o senhor faz para colorir o couro?

ES: Hoje encomendo no curtume. Se você me pedir uma remessa de calçado, aí você me pede as cores e eu não tenho aqui. Vou escrever as cores que você me pediu, ligo pro curtume, que estou acostumado, eles já fazem as cores e aqui eu aplico. Mas, antes disso, eu que fazia as tintas, com o maior sacrifício da vida. O marrom fazia com a casca do Angico, o preto com a lama do rio, o vermelho com a pasta do Urucum e o branco com seiva da Catingueira misturado com lama. O maior sacrifício da vida. Mas aí apareceu a internet, não gosto muito, mas ajudou bastante. A gente faz o pedido, chega no curtume ele pinta meu couro e corto a peça.

NL: Há quanto tempo está nessa profissão?

ES: Eu tô com 82 anos e comecei com oito, faz tempo, mas pra mim foi ontem. Nunca cortei couro de gente, mas o resto já foi tudo, couro de cobra, de onça, lagartixa, peixe. Já fiz peça de veado, de onça, cobra.

NL: Mas hoje em dia o couro é só de gado?

ES: Hoje é gado, bode e ovelha. Peixe também.

NL: Como faz no de peixe?

ES: É Tilápia. Tira o couro do jeito que tira o de um boi ou de um bode.

NL: Tudo o que cria tem um design muito particular. Existe um significado por trás dessa escolha?

ES: Todo esse trabalho tem um significado. Isso aí [o design] é o gibão, a frente do gibão.

NL: Pessoas de todos os lugares compram o que produz, como é isso?

ES: Acho que já veio gente do mundo todinho, já veio muita gente de outros países, é que não gravo, mas tem um livro lá no museu que tem. Quando o museu está funcionando, todas as pessoas que iam visitar o Museu do Couro de Espedito Seleiro deixam o nome lá.

NL: Como foi a época da pandemia para o senhor?

ES: Passou um pouquinho ruim aqui, sabe? Mas, graças a Deus, a gente tirou o tempo. Parei só uns três meses, depois botei tudo pra trabalhar de novo, tudo funcionou, saíram umas quatro ou cinco pessoas, mas paguei tudo direitinho. Aí os outros disseram: “não, não vamos parar”, só distanciei cinco metros longe como era a regra. Como o ponto é grande, botei dez.

NL: Teve muita venda na internet?

ES: Sim, muita. A gente vendia mais era só pela internet. O povo não vinha, mas a gente mandava pra lá.

NL: A arte é feita com vários tipos de materiais. Por que sua família escolheu o couro para desenvolver a dela?

ES: Não sei. Isso é coisa de Deus. Acho que acostumei todo mundo. Porque se seu pai é um vaqueiro, a família dele toda é de vaqueiro. Se seu pai, avô ou bisavô é médico, é difícil ter um para não ser doutor. Se for da roça, é difícil ter um para não ser agricultor. Creio que, como seleiro, minha família me acompanhou, tudo tem sangue de seleiro. Acho que é assim.

One thought on ““Criei outro estilo em cima do estilo que aprendi com meu pai”

  • 31 de janeiro de 2022 em 14:05
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    Entrevista maravilhosa!

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