“Foi executado sumariamente”, destaca mãe de vítima da Chacina do Curió

Suderli, familiar de Jardel Lima do Santos, assassinado aos 17 anos, comentou sobre o caso, sua relação com o filho, o andamento do processo e a importância do apoio das famílias de outras vítimas na luta por justiça

Por Daniel Farias, Pedro Cavalcante e Luís Eduardo Queiroz

Há seis anos, na noite do dia 11 de novembro de 2015 e na madrugada do dia 12, uma chacina vitimou diversas pessoas no bairro do Curió, em Fortaleza. Ao todo, foram 18 vítimas, totalizando onze mortos e sete feridos. O caso ganhou repercussão nacional e o processo ainda está em andamento. No centro da investigação estão membros da Polícia Militar, que devem ir a julgamento em 2022.

Jardel Lima dos Santos foi uma das vítimas da Chacina do Curió. Ele tinha apenas 17 anos quando foi assassinado. Suderli, mãe de Jardel, conta como foi o momento em que descobriu a morte de seu filho: “Quando a gente chegou lá, já não podia mais fazer nada. De longe a gente já tinha visto o corpo dele deitado, já baleado, sem nem ter tido chance de defesa. Foi executado sumariamente”.

A mãe destacou ainda que seu filho era uma pessoa muito bem relacionada, ressaltando que até o momento do assassinato, não havia tido problemas em relação a Jardel: “Desde pequeno até os 17 anos eu nunca tive problema com ele. Nem no colégio, na convivência em casa, na rua com os amigos. Sempre gostou de jogar futebol. Tinha muita facilidade de fazer amizade. Sempre foi um menino muito alegre”.

Foto: Arquivo pessoal

Ao longo de seis anos, mães como Suderli lutam para que as memórias das vítimas da Chacina do Curió permaneçam vivas. Dentre diversas ações, destaca-se a nomeação de ruas com nomes de pessoas mortas naquele crime. Jardel foi um dos homenagaeados. “A rua aqui é o nome dele. Jardel Lima dos Santos é a rua que eu moro até hoje”, destacou a mãe.

O promotor de justiça Marcus Renan é um dos responsáveis pela condução do processo. De acordo com ele, o Ministério Público tem o poder de fazer sua própria investigação. Nesse caso, isso levou cerca de dez meses. O profissional também fez questão de citar o artigo 29 do Código Penal, afirmando que “não precisa provar quem deu o tiro, mas se viu a cena, está sendo investigado”. Marcus destacou que até hoje os 44 policiais supostamente envolvidos estão afastados dos serviços de rua, além de terem sido presos por um período de oito meses.

Suderli comenta sobre o andamento do processo, ressaltando as dificuldades encontradas ao longo dos anos: “Já completamos seis anos desse processo. É um processo realmente muito extenso, de muitas vítimas e de muitos réus. A gente acha lento porque queria logo de imediato, mas infelizmente no Brasil a nossa justiça é muito lenta, principalmente para a periferia, para a parte pobre. Para quem não tem dinheiro para pagar um advogado particular, fica muito difícil”.

Apesar disso, ela destacou o trabalho dos promotores envolvidos no caso: “Cuidado, graças a Deus, os promotores estão tendo. Isso aí seria uma coisa que a gente não pode tirar. O tempo que é injusto com a gente”.

Foto: Arquivo pessoal

Por fim, Suderli comentou sobre a importância do companheirismo entre as famílias vitimadas e como isso ajudou na causa: “É muito importante a união da gente. Porque através da união a gente conseguiu colocar esse caso para frente, conseguiu dar a visibilidade. Porque se a gente não tem essa união, isso nunca ia acontecer, pelo contrário, ia cair mais em esquecimento ainda. Quando uma está com dificuldade, a outra dá um apoio, mesmo de longe, mesmo pelo telefone”.

Enquanto aguardam o julgamento, as mães e demais familiares envolvidos no caso seguem buscando justiça pelos seus entes queridos. O Ministério Público também segue trabalhando para que a situação seja resolvida de maneira eficaz e em tempo adequado. As vítimas da Chacina do Curió seguem vivas de diferentes maneiras: em nomes de ruas, em homenagens, mas principalmente na mente de seus familiares.

Foto em destaque: Mauri Melo / O Povo


Rádio documentário – As mães do Curió

Seis anos após a maior chacina do Estado do Ceará, as alunas Gabriela Guasti, Maria Estela Assis, Maria Eduarda Rodrigues e Mariana Moura realizaram uma reportagem que relembra o fato, que ficou conhecido como Chacina do Curió. O produto foi desenvolvido como atividade para a disciplina Radiojornalismo, sob a orientação da professora Kátia Patrocínio.


Veja também:

6 anos após a Chacina do Curió, familiares das vítimas ainda aguardam justiça
Chacina do Curió: sobrevivente diz pela primeira o que viveu em novembro de 2015

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

css.php