“A beleza de cada uma das pessoas é linda. E quero mostrar o bonito do preto”

Eduarda Moiano leva a vivência como inspiração para seus desenhos e obras. Suas artes são empoderadoras e inspiradoras para aqueles que a admiram

Por Vitória Vasconcelos

Eduarda Moiano, 22, é uma desenhista de caneta Nanquim, que vê sua arte sair do papel e caminhar para as paredes de galerias de artes nas ruas de São Paulo e também enfeitam a pele das outras pessoas por meio de tatuagens. Paulista de nascimento, mas cearense de criação, Eduarda veio para Fortaleza recém nascida com os pais, Junior e Fernanda, fazendo do Nordeste o seu lar.

O que começou como um simples desenho de presente para a namorada, passou a ser uma fonte de renda. Eduarda viu seu talento para o desenho, seu rigor e seus traços “darem frutos” por meio de encomendas. Ficando acordada até tarde da madrugada, ela precisou sair do emprego e se dedicar totalmente às obras e a vendas delas. Em 2021 começou a expor suas artes na Galeria Alma da Rua, no Beco do Batman, em São Paulo. As obras de Eduarda chamam a atenção por suas características particulares, seu modo de desenhar e a ausência de olhos na face são marcas que atraem todos que admiram suas obras.

Orgulhosa de quem é, a desenhista retrata, por meio de seus traços, o empoderamento, como o poder da cultura preta e do amor. Eduarda desenha aquilo que lhe vem ao coração e à mente, sente e enxerga como verdadeiro em seu mundo, algo que ela e as outras pessoas possam ver, para que se encontrem em todos os lugares na sociedade, dando voz a quem precisa de voz, por meio da arte.

Eduarda Moiano é desenhista de hachura e ilustrou o livro “Onze” sobre a chacina do Curió / Fotos: Arquivo pessoal

NewsLink: Como se deu seu começo com a arte? Como foi esse encontro com o ato de desenhar?

Eduarda Moiano: Sempre desenhei e acompanhei muito o universo da arte em si, mas era sempre um hobbie, como algo que estava junto a mim. 

NL: Como foi esse encontro com o ato de desenhar?

EM: Estava sempre com um caderninho de desenho, mas não trabalhava com isso e aí pra começar a trabalhar foi um processo de desconstrução e coragem, que não tinha tido antes.

NL: O que você gostava de desenhar?

EM: Sempre desenhei em estilos diferentes, desenhei umas coisas mais abstratas, umas coisas mais viajadas, até chegar ao que tenho hoje.

NL: Você tem alguém que seja a sua inspiração para o desenho?

EM: Tem muita gente. Muita gente das artes plásticas, das artes visuais. Muita gente de fora, que na real é a maioria que pego inspiração. Gosto de pegar inspiração de música. Gosto muito do Criolo. Então, pego muita inspiração dele. Pego muita inspiração de fotógrafos que gosto muito, e há um artista plástico chamado Marcos Roberto, lá do Rio de Janeiro.

NL: O que você faz com essas inspirações?

EM: Vou trocando figurinhas, pegando coisas totalmente diferentes do meu trabalho, que funcionam muito mais como inspiração do que como referência em si.

NL: Suas obras possuem traços fortes e marcantes de luz e sombra. Como você desenvolveu essa técnica?

EM: Nunca estudei arte, mas sempre tive uma boa noção estética, do “se eu fizer isso aqui, vou chegar a tal resultado” e antes de começar a trabalhar com hachura, o nome da técnica que uso hoje. Trabalhava muito com pontilhismo e conseguia os resultados que queria com luz e sombra. 

NL: Um talento nato.

EM: Então, tinha noção de que se pesar mais aqui consigo tal coisa e foi, quando fui para hachura foi instintivo. Nem sabia o nome da técnica, fui descobrir mais de um ano depois.

NL: Outro traço marcante das suas obras são as ausências de olhos nas pessoas desenhadas. Existe um motivo por trás dessa escolha?

EM: De início deixava de desenhar pessoas por completo porque achava que não sabia desenhar rosto e aí deixei de desenhar. Até que fui fazer o desenho de uma pessoa e fiz sem, e vi muito mais significado nessa ausência do que achei que ia ver. 

“Sethe”, 2020, foi uma das primeiras obras de Eduarda é representa um enorme significado emocional para a desenhista / Reprodução: Eduarda Moiano

NL: Que significado foi este?

EM: Vi que estava conseguindo passar uma mensagem completa, com coisas faltando, coisas que muitas pessoas consideram importante, que é a face do personagem. Com essa ausência eu consegui passar muito melhor do que queria, do que talvez tivesse colocado. Aí comecei a adquirir características pro meu estilo com isso, com essa ausência, às vezes colocar também, quer dizer alguma coisa, poucas artes minhas têm e elas têm um significado diferente, do que normalmente tem.

NL: Para você, qual temática seus desenhos carregam?

EM: De primeira, você vai ver que são pessoas pretas e gosto de mostrar para além dessas pessoas pretas o que vejo de bonito nesta cultura, o que a cultura traz para além do que é mostrado de forma pejorativa. A cultura que a gente traz com a gente, a beleza de cada uma das pessoas, é linda. E quero mostrar o bonito do preto.

NL: Sua arte representa a cultura e o poder do povo preto. Como é simbolizar esse empoderamento por meio de ilustrações?

EM: É muito diferente ver como consigo alcançar coisas que antes elas estavam inalcançáveis para mim. Tenho uma prima, ela é criança e foi inspiração para uma das minhas artes e aí quando ela se viu como uma obra, que vai para a galeria, ela ficou “caramba, sou eu”. É isso que eu quero. Pessoas que costumam não se ver em alguns lugares, podem ver que estão em todos os lugares.

NL: Estão sempre presentes.

EM: É arte para os outros e para mim também, é arte para que eu possa acreditar naquilo que eu quero passar.

NL: Recentemente você ilustrou dois livros, “Onze”, sobre a chacina do Curió, e “A Filha Primitiva”, de Vanessa Passos, que conta uma história de amor e ódio, redenção e violência, com protagonistas femininas. Como foi ilustrar dois livros tão diferentes e tão importantes?

EM: O da Vanessa, a gente já tinha essa troca havia um tempo, porque ela começou a acompanhar meu trabalho e antes de pensar em usar minha arte para o livro, ela gostou e quis comprar o quadro.

NL: Qual foi o quadro?

EM: A Primeira Face, que é a capa do livro. Ela era uma arte que já existia e que se encaixou perfeitamente com a história do livro.

NL: Como foi esse encaixe?

EM: A capa já estava pronta, quando ela me passou a história, devorei, sabe? Falei “cara, é isso aqui, esse é o roteirozinho do desenho” e fiquei: “caramba, que massa!” É muito bom quando você consegue pegar uma obra de outra pessoa e consegue encaixar com a sua, tudo direitinho. Fiquei muito feliz com a potência de tá ali, junto.

NL: E sobre o “Onze”?

EM: O livro da Chacina do Curió foi um impacto gigantesco, porque já conhecia a história, acompanhava, mas não de perto, porque o envolvimento das mães é muito restrito por questões de segurança. E quando recebi esse convite disse: “cara, quero muito participar disso”.

NL: Imagino que tenha sido algo de extrema importância.

EM: O convite chegou e a gente foi se acertando com as mães. Quando fui começar a entender melhor o que elas queriam, vi que a mensagem que chega para os outros é que rolou aquilo de violência. O Estado costuma ser violento com pessoas periféricas, mas, para além disso, elas queriam contar a história dos filhos delas. A história que foi curta, mas que tinha muito pra acontecer e elas queriam contar.

NL: Algo que você poderia passar.

EM: Elas só queriam isso: a leveza que os filhos passavam para elas. E fui trabalhar nisso, fui tentar entender um pouco mais com desenhos, que são só preto e branco, que quando você pensa em alegria e leveza, você pensa em colorido. Fui conseguindo ajustar as coisas e elas ficaram muito felizes nos encontros que tive com elas depois, a alegria que elas passavam. Foi muito massa.

NL: Foi recompensador.

EM: Demais.

NL: Atualmente, qual a sua obra autoral favorita?

EM: Essa pergunta é muito fácil e é muito difícil também, porque ela vai sempre ser diferente, mas atualmente vai ser a minha última obra. Não sei. Tem uma que é a minha favorita: é a “Seth”. Ela é mais antiga, foi uma das primeiras, inclusive ainda quero tatuar em mim. Mas, “Tudo está em nós” é uma obra que me deixou muito tocada, de como eu consegui evoluir. Então, essas duas.

NL: Qual é a sensação de ter a sua arte sendo reconhecida?


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