Chacina do Curió: sobrevivente diz pela primeira o que viveu em novembro de 2015

Seis anos após o massacre que vitimou onze pessoas, um sobrevivente revive a fatídica noite, na qual uma bala foi alojada em sua coluna; a paralisia é um lembrete constante ainda hoje

Por Maria Estela Assis, Maria Eduarda Rodrigues e Mariana Moura

Uma chacina. Onze mortos. Na noite de 11 para a madrugada de 12 de novembro de 2015, policiais militares teriam adentrado os bairros Curió, Alagadiço Novo, São Miguel e Messejana, em Fortaleza, e atirado a esmo em civis. Mas, nem todas as vítimas vieram a óbito: algumas ainda estão entre nós, esperando para contar suas histórias.

É normal ver a foto do dono da história, mas como o final desta ainda não aconteceu, ele prefere manter-se incógnito. Por quê? / Foto: Reprodução/Google

Uma destas vítimas, que sentiu na pele o horror daquela noite, teme se identificar. Nunca havia dado entrevistas, e o fez desta vez em resposta ao pedido de uma amiga: Edna Souza, líder do movimento de mães de vítimas de violência policial no Ceará. São as Mães do Curió.

Dia 11 de novembro de 2015 foi um dia comum. Nenhuma surpresa ou anormalidade teve lugar. Um dia como outro qualquer, até à noite. Quando o dia 12 se inicia, entretanto, é inesquecível. Por volta da 1 hora da manhã, saía do trabalho e encontrava na rua um amigo. Os dois ficaram na calçada conversando, enquanto um fumava.

Dois carros passaram. Tiros foram disparados. E fim: seu amigo estava morto e ele, baleado. Já sabia o que acontecera. Lembrava que um dos carros era um Celta branco e que, dentro dele, havia um policial fardado. Os moradores da rua, quando o viram, chamaram seu cunhado, que o levou para o hospital. 

A vítima afirma ter visto um celta branco com um policial militar fardado na madrugada de 12 de novembro de 2015 / Foto: Reprodução

Internado por dois meses, após duas cirurgias, ele se descobre paralítico, capaz de se locomover apenas com auxílio de um andador ou cadeiras de rodas. A bala atingiu sua coluna. Mesmo assim, até a entrevista, ainda não teria recebido indenização. O único valor que recebe do governo é sua aposentadoria por invalidez.

Internado por dois meses, o sobrevivente necessitou ser submetido a duas cirurgias para retirar a bala de sua coluna / Foto: Reprodução/Diário do Nordeste

Hoje, ele diz ter seguido sua vida, mas se sente alarmado com barulhos altos. Diz que é incômodo falar sobre o assunto, mas que acaba sendo necessário fazê-lo sempre: especialmente próximo ao aniversário da tragédia. Diz que a perda dos movimentos é um constante lembrete.

Apesar de tudo isso, ele ainda afirma sentir confiança na polícia e na segurança pública, afinal, nem todos são culpados.

O motivo

Não há como saber ao certo o que deu início a tudo. Em uma das versões, no dia 25 de outubro de 2015, Raimundo Cleiton da Silva discutiu com Irisleide Costa de Andrade, irmã do PM Marcílio Costa de Andrade, no Curió, por uma suposta traição da namorada de Cleiton. Marcílio agrediu Cleiton, que chamou a polícia.

Rua no bairro Curió. / Foto: Reprodução/Kiko Silva

Traficantes da região haviam proibido que policiais fossem ao bairro. Por isso, no mesmo dia, Pedro Domingo e Francisco de Assis de Moura de Oliveira, o Neném, ambos traficantes de drogas, abordam Cleiton. Aparentemente os dois planejavam matá-lo.

Porém, Marcílio e seu cunhado apareceram, atirando. Neném acabou morto. Segundo os autos dos processos, Marcílio foi ameaçado pela família de Neném. Cinco dias mais tarde, o pai de Neném foi executado. A perícia comprovou que a arma usada para disparar em Francisco de Assis de Moura de Oliveira também foi utilizada durante a chacina.

Acredita-se que Marcílio teria incitado seus colegas a ajudá-lo a lidar com a situação. Depois disso, um senso de corporativismo ocasionaria mais onze assassinatos. 

“A verdade é que não há nada que justifique”, afirma Demitri Túlio, repórter do jornal O Povo, que cobre o caso há seis anos. Segundo o MP, mais de cem policiais estavam na Grande Messejana durante a chacina. A investigação rastreou celulares e viaturas, o que indica a presença dos PMs nos bairros na noite do ocorrido, além de apurar conversas em grupos de WhatsApp convocando oficiais para a região.

Entretanto, apenas 34 PMs foram considerados aptos para responderem a processos e aguardam liberdade seus julgamentos. Nenhum pedido de desculpas foi oferecido pelo Estado às vítimas ou às suas famílias até a publicação desta matéria. Hoje, duas ruas no Jangurussu têm nomes em homenagem às vítimas.

Rua no bairro Curió. (Foto: ReproPlacas de ruas no bairro Jangurussu em homenagem às vítimas da chacina. / Foto: Reprodução/Google


Rádio documentário – As mães do Curió

Seis anos após a maior chacina do Estado do Ceará, as alunas Gabriela Guasti, Maria Estela Assis, Maria Eduarda Rodrigues e Mariana Moura realizaram uma reportagem que relembra o fato, que ficou conhecido como Chacina do Curió. O produto foi desenvolvido como atividade para a disciplina Radiojornalismo, sob a orientação da professora Kátia Patrocínio.

Foto em destaque: Reprodução internet

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