“O Domingo à NOITE é pra cronicar, contar, lembrar e festejar”

Para Tuty Osório, o semanário é o fruto de seu sonho de possuir um meio de comunicação próprio

Por Carlos Enrique

O Domingo À NOITE é um veículo de comunicação pouco convencional. Distante das manchetes sensacionalistas e da agitação que sintetizam os jornais de grande circulação, o jornal concebido por Tuty Osório, 56, é um espaço onde a literatura é o carro chefe e o conteúdo lúdico é destaque.

Dona de um sorriso cintilante e de uma carreira recheada de aventuras no meio jornalístico, Tuty sonhou em criar um veículo onde suas ideias pudessem fluir com espontaneidade. Em 2021, depois de experiências em publicações diárias, a comunicadora resolveu mirar em um produto que fosse veiculado semanalmente. 

No processo de criação de conteúdo para o Domingo À NOITE, contribuem pessoas de diferentes lugares do Brasil e de idades distintas. As filhas de Tuty também fazem parte da equipe de rege as publicações.

A maior inspiração da jornalista foi o jornal A Noite, produzido no Rio de Janeiro, no início do século XX. Fundado em 1911 por Irineu Marinho, o jornal A Noite foi o local onde Lima Barreto primeiro publicou o romance A Numa e a Ninfa e onde Clarice Lispector primeiro labutou. O diário também ficou famoso por abordar questões ligadas à efervescente sociedade carioca. 

Portuguesa, natural de Porto, Tuty passou a maior parte de sua infância em Moçambique, até vir ao Brasil quando tinha dez anos de idade. No país africano, a editora do Domingo À NOITE desenvolveu seu gosto pela leitura e pela comunicação.

NewsLink: Qual a sua jornada no meio jornalístico e como ela se reflete na sua vida hoje?

Tuty Osório: Sempre gostei de escrever, desde que aprendi. Com o tempo descobri que gosto, sobretudo, de ouvir e de contar histórias. Aos 7 anos fui âncora de um programa infantil de rádio, numa pequena cidade do interior de Moçambique, onde morava com a minha família. Não existia televisão, daí que a rádio, os jornais e as revistas impressas eram o nosso universo de informação e fabulação. 

Minha jornada no jornalismo deu-se por veículos alternativos. Integrei a equipe da revista WOW, na década de 1980. Depois editei a CARIRI revista entre 2011 e 2014. Nos intervalos colaborava como freela em projetos para Veja, Caros Amigos, Revista Roteiro , em Brasília. Nunca integrei a redação de um grande jornal. Minha participação sempre foi nas áreas de planejamento, marketing, publicidade, assessoria de comunicação. 

Curiosamente, sempre tive um relacionamento muito harmonioso com os jornalistas do cotidiano, os grandes repórteres e editores. Muitos deles são meus amigos e amigas, há muita admiração e respeito entre nós. Só que, a rigor, sempre fui meio cigana como jornalista, participando esporadicamente e nunca integrei o que se pode chamar de mercado. Sou nômade, digamos assim.  Mas, sempre estive integrada ao meio, de um jeito ou de outro.  

Segui carreira como autônoma na área de pesquisa qualitativa, uma de minhas principais atividades hoje, que envolve muita escuta e muita escrita. É uma espécie de reportagem com outros parâmetros. Viajo pelo Brasil fazendo esse trabalho e gosto muito. Mas, escrever é, de fato, a minha grande paixão. 

NL: Quando surgiu a ideia de criar o Domingo à NOITE?

TO: Sempre sonhei em ter o meu próprio veículo. Primeiro, revista. Com a chegada da internet, comecei a viajar no sonho de algo digital. Reunia os colegas jornalistas e designers que alimentavam o mesmo sonho, mas nunca dava tempo. Nunca havia dinheiro. A sobrevivência impunha-se e ia adiando, adiando. Esse sonho teve muitas caras e muitos nomes. Roteiro da cidade. Revista que a cada edição seria um só tema. Comportamento. Literatura. Educação. Ecologia. Chamou Esquina, Escada, Jabuticaba. Perdi a conta de quantas vezes planejei. Tomamos muito vinho em torno dos planos!  

Até que em 2020, deslocada em Cuiabá para um trabalho de pesquisa qualitativa, descobri um livro sobre Clarice Lispector e seu primeiro emprego, no jornal carioca A Noite, um vespertino que circulava com as últimas do dia, a partir das 17 horas e podia ter até duas edições, se a pauta estivesse quente! 

A decisão por um semanário veio da consciência de que as pessoas não conseguem ler todos os dias o tanto de informação que chega. E as limitações de produzir todos os dias, acumulando tarefas e só com a cara e a coragem como investimento! (risos)

Inspirada nisso, bolei A NOITE em 2020. Para chegar por WhatsApp com pequenos textos, todos os fins de tarde, inspirados no que estivesse acontecendo. Mais charge, poesia, bonitas fotos. Entretanto, meu pai adoeceu e as vinte noites com ele no hospital me ajudaram a construir mentalmente o projeto. Troquei muita ideia com ele, quando estava lúcido, um apaixonado por leitura, também. Morreu em janeiro de 2021. E meio que assumi um compromisso com ele, com toda a torcida dos afetos para que eu fizesse, e principalmente comigo mesma.

NL: Em que se inspirou para idealizar o Domingo à NOITE?

TO: Como disse, a inspiração foi o vespertino A Noite do início do século XX. E o clima daqueles anos, no Rio de Janeiro acontecia com muito brilho e muitas contradições também. Quis trazer aquele lirismo. O jornal que contava histórias bonitas e tristes, a literatura como estrela, os afetos como referência. Não reportagem, análise. É vida expressa em textos, fotos e ilustrações. A nostalgia e a renovação de um final de domingo.  

NL: Como acontecem as reuniões que decidem os materiais que vão ser postos no jornal?

TO: Infelizmente, nunca são presenciais. Parte dos colaboradores mora em Brasília, tem até de fora do país. E todos têm muita agenda pessoal e profissional. Vou elaborando ao longo da semana e os colaboradores têm liberdade para escrever sobre o que querem. Só não podemos sair da referência do afeto, da literatura. Falamos de política sem tocar em eleições, polarizações, falas especulativas. Já há muito espaço para isso na mídia e não mídia. O Domingo à NOITE é pra cronicar, contar, lembrar e festejar. Não é alienação, é só porque a ideia é justamente respirar um outro ar.

Na verdade, não há reuniões. Vamos trocando ideias, vão me mandando o material e vamos agregando. Manuela Marques, a criadora do projeto gráfico e responsável pela edição gráfica semanal e pelo desenho, totalmente manual, da Tirinha Cabulosa, escolhe as fotos e as ilustrações. Ela tem 17 anos e muito talento. Fernando Brito e Mário Sanders acompanham, mas é ela quem decide e faz, literalmente.

A finalização é comigo, Manuela e Camilla Osório, cineasta e pesquisadora do Bem Viver. Vamos juntas até à hora da publicação, no início da noite de domingo. Independente da atualização automática do site, faço a transmissão pessoalmente pelo WhatsApp, para todos os apoiadores e leitores cadastrados. 

Faço questão. É uma energia incrível, esse momento. 

NL: Como consegue conciliar a correria do dia a dia com o jornal?

TO: Acho que não concilio, mas o fato é que todos os domingos estamos no ar. E as outras tarefas continuam, sem prejuízo. Talvez o segredo seja o prazer imenso que tenho em fazer. E a liberdade e a confiança que permeia todo o projeto. A minha e de meus parceiros e parceiras. 

NL: Em relação aos custos financeiros decorrentes do Domingo à NOITE, como consegue os superar?

TO: Estamos investindo, por enquanto. Parte dos colaboradores participa voluntariamente. Mas a ideia é ter mais apoiadores e com o tempo alguns patrocínios inteligentes, que não interfiram na essência do jornal e possam fortalecer o projeto. Só posso garantir que é viável. Pelo financiamento coletivo, com cada leitor colaborando com um pouquinho podemos chegar longe. E com a busca de patrocínios diferenciados também. Não somos concorrentes de ninguém, nosso Domingo é único e muito segmentado. Estamos inscritos no Apoia-se, uma plataforma de financiamento coletivo de muita credibilidade. E é possível colaborar diretamente, para quem preferir. 

Só tenho uma certeza, abraçada pelos criadores, colaboradores, apoiadores do Domingo à NOITE, aos quais sou eternamente grata. Viemos para ficar e contar muitas, muitas, histórias.

2 thoughts on ““O Domingo à NOITE é pra cronicar, contar, lembrar e festejar”

  • 20 de dezembro de 2021 em 17:42
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    Carlos Enrique, um nome inesquecível do jornalismo cearense, ensina a arte de uma boa entrevista. Genial! Está ganhando cada vez mais reconhecimento merecido!

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  • 21 de dezembro de 2021 em 10:25
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    Perguntas coesas e sem papas na língua. Isto é Carlos Enrique!

    Resposta

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