Estudantes de jornalismo lançam série de entrevistas com mães do Curió e da periferia

As matérias serão publicadas a partir da próxima semana, no site Newslink, que se estenderão até janeiro do próximo ano, com material escrito pelos alunos da Universidade de Fortaleza

Por Rafael Barros 

Os alunos da disciplina de Jornalismo Investigativo, do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, tiveram a oportunidade de exercitar as técnicas da profissão privilegiando, na prática, a modalidade de reportagem de investigação. Nos dois últimos meses de 2021, eles vivenciaram a dor e a luta por justiça, entrevistando mães que perderam filhos e parentes em crimes na periferia de Fortaleza e chacinas como a do Curió.

Na madrugada do dia 11 para o dia 12 de novembro de 2015, na Grande Messejana, nove adolescentes e dois adultos foram executados por policiais militares. Para Edna Carla, mãe de Álef Souza, de 17 anos, uma das vítimas da chacina do Curió, esta realidade só vai mudar quando a população exigir uma mudança na polícia.

Para o jornalista Demitri Túlio, os policiais que viraram réus serão condenados / Foto: Jornal OPOVO

O projeto, elaborado pelo jornalista Miguel Macedo, professor da disciplina, é uma forma de dar maior visibilidade ao caso do Curió, para que não caia no esquecimento. Além de trazer conteúdos voltados à chacina do Curió, a pauta também inclui outros casos de mortes causadas por policiais no Estado do Ceará.

Para colocar o projeto em prática, os estudantes contaram com o grupo “Mães do Curió” e “Movimento de mães e vítimas por violência policial do Estado do Ceará” como fontes. O curador do projeto foi o jornalista Demitri Túlio, que vem acompanhando os casos há seis anos. Ele acredita que os estudantes construíram um texto de investigação, com fontes primárias, as próprias mães e parentes, e que eles tiveram a oportunidade de escutar, apurar e sintetizar informações.

Segundo Edna Carla, uma das líderes do coletivo de apoio “Mães do Curió”, e que se tornou um símbolo de luta por justiça, é importante trazer à tona os crimes que o Estado pratica e que passa a mão por cima. Unidas por um só desejo, o de justiça pelas mortes de seus filhos, as mães das vítimas criaram, em 2016, o grupo “Mães do Curió”.

É muito importante para nós porque vamos ter mais pessoas que vão ter acessos às histórias que foram contadas e a nossa luta por justiça. Porque nós queremos que os culpados sejam condenados”

Uma das mães que fazem parte desse grupo é Maria de Jesus, que perdeu seu filho Renayson Girão, de 17 anos, na chacina. Ela disse que está muito feliz em ter a Edna Carla como representante do grupo. Maria de Jesus ressalta que a atuação da Edna vem conquistando muitos avanços e que foi dela a ideia do livro “Onze – Movimento Mães e Familiares do Curió com Amor na Luta por Memória e Justiça”, que traz depoimentos das mães das vítimas da barbárie.

O grupo “Mães do Curió” foi criado em 2016, com o intuito de acolher as mães das vítimas e fazer justiça pela morte de seus filhos / Foto: Arquivo pessoal

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De acordo com o promotor do caso Marcos Renan Palácio, professor de direito da Universidade de Fortaleza, os assassinatos praticados pelos policiais foram para dar uma resposta aos moradores do Curió, por causa da morte de um policial na região. “Eles não escolheram quem matar, era quem aparecesse. Se eles passassem por uma viela ou um por um beco e tivessem dois jovens conversando, eles atiravam”, disse o promotor.

Mesmo depois de seis anos da chacina, o caso ainda não foi julgado. Para Palácio, o caso do Curió incide nos princípios da razoabilidade e da proporcionalidade. O promotor revelou que cada policial estava com o rosto tampado por máscaras (balaclava), o que dificulta ainda mais nas investigações. O representante do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) no caso, esteve em sala de aula e respondeu as perguntas dos estudantes.

Nenhuma das vítimas identifica nenhum policial dos quais foram acusados. Os que morreram não podiam falar, as mães, os pais e as testemunhas, com o que viram foram homens com máscaras e não tem como reconhecer”

Segundo o promotor do caso Marcos Renan os policiais não escolheram quem matar, era quem aparecesse / Foto: Rodrigo Carvalho

Demitri Túlio acredita que os policiais que viraram réus serão condenados por causa das provas e das investigações levantadas pelo MPCE e pela Controladoria Geral de Disciplina (CGD). “Se provarem, com materialidade, que não estiveram lá, que não mataram aquelas 11 pessoas de forma brutal e inconcebível, serão inocentadas”, acrescentou Demitri. Mas o jornalista disse que a CGD provou que os policiais militares mataram aquelas pessoas.

A partir da próxima semana, às terças e quintas-feiras, o NewsLink irá publicar uma série especial com entrevistas, que os estudantes fizeram com as mães do Curió, da periferia e também do caso do adolescente Mizael Fernandes, 13, assassinado por policiais no Município de Chorozinho, a 72 km de Fortaleza.

Rádio documentário – As mães do Curió

Seis anos após a maior chacina do Estado do Ceará, as alunas Gabriela Guasti, Maria Estela Assis, Maria Eduarda Rodrigues e Mariana Moura realizaram uma reportagem que relembra o fato, que ficou conhecido como Chacina do Curió. O produto foi desenvolvido como atividade para a disciplina Radiojornalismo, sob a orientação da professora Kátia Patrocínio.


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3 thoughts on “Estudantes de jornalismo lançam série de entrevistas com mães do Curió e da periferia

  • 17 de dezembro de 2021 em 09:20
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    Trabalho fantástico realizado pelos alunos e professor da Disciplina. Parabéns ao jornalismo da Universidade de Fortaleza.

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  • 17 de dezembro de 2021 em 14:56
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    Estou super ansioso para ler esta série! Acredito que os estudantes fizeram um excelente trabalho. Parabéns pela iniciativa.

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  • 17 de dezembro de 2021 em 15:01
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    Rafael, você fez um grande trabalho. Reportagem de grande valor.

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