“Hoje vejo que carreira linda construi no sentido de legitimar a verdadeira nordestina”

Karla Karenina Sales Fernandes nasceu em 1967 e desde a infância expressa seu amor pela arte e cultura 

Por Gabriel Gago

Alencariana, batalhadora, filha do filólogo cearense José Alves Fernandes, mãe de dois filhos, avó de um neto, amante de atividades que envolvam o corpo, como o karatê, a dança e o yoga. Karla Karenina Sales Fernandes expressa seu amor pela arte e cultura desde a infância. Na adolescência, já participava de festivais de dança, música e poesia, no colégio, quando criou a voz de uma matuta engraçada que deu origem à personagem mais marcante, Meirinha. 

Foi com ela que iniciou sua carreira na TV do Ceará, em 1992, como apresentadora do talk show “Meirinha 13 horas”. Poucos anos depois, fez parte de diferentes elencos com repercussão nacional, com destaque para a Escolinha do Professor Raimundo, a novela A Força do Querer, o filme Cine Holliúdy e o sitcom da MultiShow, Os Roni.

Firmando 30 anos de carreira em 2022  a atriz, humorista, cantora, dançarina, escritora, poetisa e terapeuta revela histórias de seu passado, sentimentos e vivências como atual diretora do Teatro Municipal São José e projeções de futuro, por meio de entrevista ao News Link, na última sexta-feira, 4.

News Link: Por que você quis ser atriz e quais foram as suas influências para ingressar no cenário artístico?

Karla Karenina: O porquê é fácil, é porque já nasci artista. Não é uma coisa que você vai conscientemente atrás, é que não tem jeito de fugir dela. Tiveram tantas coisas que me influenciaram, pessoas próximas a mim, distantes, do cenário nacional, e também internacional. Por exemplo, as músicas clássicas que o meu pai me fazia colocar depois do almoço; Florbela Espanca, uma poetisa portuguesa, influenciou muito a minha expressividade; Dora Andrade, minha ex-professora de balé, que hoje dirige uma escola para crianças carentes [Edisca] e Chico Anysio, que foi e ainda é um grande referencial para mim. 

NL: Interpretando Meirinha, você teve o prazer de contracenar com Chico Anysio. Como foi o processo até a conquista desse papel? É possível descrever as sensações presentes naqueles momentos? 

KK: Quando criei a personagem, foi mais por brincadeira. Era acostumada a imitar pessoas, minha família paterna sempre foi muito engraçada, contávamos piadas, então, era algo que já estava dentro de mim. Uma nordestina descomprometida, sem impostação vocal, ou melindres, uma mulher do povo, facilmente vista em uma doméstica, habitantes do interior ou simplesmente que avistamos andando no meio da rua. Tudo na minha vida foi evoluindo de forma espontânea, sem pretensão nenhuma. Tive que escolher entre três anos de Pedagogia, na Universidade de Fortaleza (Unifor), ou um pós-doc no humor que era a Escolinha – escolhi a Escolinha. E essa foi a minha grande escola mesmo. Ali eu aprendi o que era televisão profissional. Foram dois anos ao lado de mestres sagrados, que não era só Chico. Nos primeiros dias de gravação acho que estava anestesiada. Não compreendia muito bem aquele negócio. Tinha um complexo de inferioridade terrível. Não tinha noção de que, se estava entre os grandes, eu também era grande; me dei conta disso muitos anos depois, foi quando a terapia começou a fazer sentido e me fortaleceu enquanto pessoa. Todos deveriam ter acesso a essa experiência que é a terapia, independente da condição social. 



NL: Sua última performance foi em “Os Roni”, enredo que mostra ao público, nordestinos tentando a vida em São Paulo. Que significado tem para você representar a realidade de inúmeros cidadãos por meio da comédia e do humor?

 KK: Esse projeto foi especial. Com exceção dos atores Oscar Magrini e Raphael Viana, que não são nordestinos, todo restante leva sua própria história e ancestralidade nesse programa. Acho que foi uma forma de legitimar ainda mais nossa história, que é a história de milhares de brasileiros, e por meio da comédia porque a gente tem essa veia. A gente tem essa maneira leve de ultrapassar nossas barreiras, que ainda são muitas, mas já foram bem maiores. E eu, particularmente, já vim de papéis que legitimam os nossos costumes, o nosso sotaque, nosso jeito de ser, desde o início. É uma honra. Hoje, vejo que carreira linda consegui construir ao longo desses 29 anos – por mais dura que tenha sido.



NL: Em janeiro de 2021, você aceitou o convite do secretário da Cultura de Fortaleza, Elpídio Nogueira, para trabalhar como diretora do Teatro Municipal São José. Como está sendo essa nova experiência e o que a levou a tomar essa decisão?

KK: A primeira vez que humoristas fortalezenses se apresentaram em um teatro foi no Teatro Municipal São José. Então, tenho esse gostinho do início de uma era aqui dentro. Atrelado a isso, em 2010, tive a oportunidade de trabalhar como assessora de políticas públicas na Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), e meu sonho era transformá-lo em um teatro de referência para o humor. Muitas questões de ordem superior existiam e acabei voltando pro Rio de Janeiro para outros trabalhos na TV e, passados alguns anos, descobri que a Prefeitura tinha se movimentado no sentido de torná-lo parte de seu patrimônio, restaurando-o. Isso me deixou muito feliz. No começo deste ano, veio o convite do Elpídio, um amigo de longa data com quem tenho muita sintonia. O que mais me motivou a aceitar foi o olhar do artista; saber o que o artista precisa. Em saber também, enquanto público, o que gostaria de ter na minha cidade. É a vontade de fazer do teatro um equipamento cultural acessível a todos, uma alternativa de entretenimento ao público de baixa renda. Afinal, o Teatro Municipal São José foi feito por mãos voluntárias, do círculo operário.

Dia da posse de Karla Karenina como diretora do Teatro São José / Foto: Reprodução/Instagram

NL: Quais dicas você daria para aqueles que apreciam seu trabalho?

KK: Já me perguntaram qual o caminho para alcançar o sucesso e a realidade é que você deve trilhar o seu próprio caminho. O meu caminho foi único, como o de qualquer um vai ser. A gente projeta para desprojetar, a gente programa para desprogramar. A vida é assim. A vida exige que a gente seja maleável, como a água. A água é um exemplo que sempre gosto de citar, porque ela nunca irá entrar em conflito com a pedra. Independente de onde ela estiver, sempre seguirá o seu rumo. A vida também é movimento, tem seus altos e baixos. Então, o sucesso, como já dizia Chico, é um acidente de percurso, não a regra. O verdadeiro sucesso é ser leal à nossa própria verdade. Acredite em você, em sua realidade, e a dignifique. 

Ensaio fotográfico mostra Karla, sua filha e neto juntos / Foto: Aline Calda /DN

NL: Quais suas ambições de futuro, tanto no âmbito pessoal como profissional?

KK: Eu sou sagitariana, então tenho um arco e flecha apontando para um alvo a todo momento. Metade cavalo, metade instinto e metade racionalidade, acho que isso me ajuda bastante. Quero lançar o meu livro impresso, meu primeiro romance, não só por uma questão pessoal mas também porque quero dividir minha história com outras pessoas que acho que vão se identificar. Um artista não pode viver só de ambição pessoal, de seu ego, o artista está aqui para ser um porta-voz, e eu tenho isso muito claro e muito tranquilo na minha cabeça. Tenho alguns projetos audiovisuais a cumprir. Quero continuar aprendendo, essa é a minha alma inquieta. E minha maior ambição é ficar velhinha escrevendo, esperando manter minha lucidez por muito tempo, para ver meus netos crescendo e usufruindo da minha história também, ajudando-os a escreverem a deles.

Foto em destaque: Aline Caldas / DN

One thought on ““Hoje vejo que carreira linda construi no sentido de legitimar a verdadeira nordestina”

  • 13 de dezembro de 2021 em 14:05
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    Gabriel Gago, baluarte do jornalismo cearense.

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