“A maior parte dos motivos para preocupação são muito mais teóricos do que práticos”

Professor e infectologista Guilherme Henn afirma que imunização da população é principal medida de combate a Covid-19 

Por Carlos Enrique

A confirmação dos primeiros infectados pela variante Ômicron no Brasil fez soar um alerta entre a população sobre a possibilidade do aumento de contaminações pela nova cepa da Covid-19. Na última terça-feira, 30, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), informou que dois brasileiros, vindos da África do Sul, carregavam a nova variação do Sars-Cov-2. 

Em entrevista ao NewsLink, o professor Guilherme Henn, presidente da Sociedade Cearense de Infectologia, afirma que os estudos produzidos até o momento apontam que a nova variação do vírus não está vinculada ao desenvolvimento de casos graves daqueles que a contraíram. 

Graduado em Medicina pela Universidade Federal do Ceará, Guilherme Henn alerta que é necessário dar tração ao processo de imunização da população para que novas variantes não encontrem solo fértil para germinar. O docente lembra que parte dos diagnosticados com a nova cepa não tinham tomado qualquer das doses das vacinas disponíveis contra o coronavírus.

Guilherme Henn afirma que os estudos disponíveis não atestam maior mortalidade da variante Ômicron / Foto: Reprodução / Internet

NewsLink: No último final de semana, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária confirmou os primeiros casos da variante Ômicron no Brasil. A Organização Mundial de Saúde classificou esta cepa como de alto risco. Pelo que a comunidade científica até agora sabe, existem motivos para preocupação? 

Guilherme Henn: A maior parte dos motivos para preocupação são muito mais teóricos do que práticos, até o momento. Os alertas derivam do fato de que, quando a variante foi descoberta e sua estrutura foi descrita, ela tinha um número muito grande de mutações, principalmente na proteína Spike. Por coincidência,  esta proteína é alvo de ação dos anticorpos produzidos em resposta às vacinas que tomamos. Os principais imunizantes são feitos para ensinar o organismo a fabricar defesas contra a proteína Spike. 

Os dados que possuímos dos países mais afetados pela nova cepa mostram que os infectados por ela não desenvolveram casos mais graves.

NL: Caso o número de novos contaminados cresça nas próximas semanas, será prudente retroagir no processo de relaxamento de medidas de restrição?

GH: Naturalmente, sim. Além de intensificar as campanhas de vacinação, o distanciamento social e as medidas de proteção individual são maneiras que se têm para reduzir os números de novas infecções. Complementando, a preocupação [com a variante] é teórica, e os dados que possuímos dos países mais afetados pela nova cepa mostram que os infectados por ela não desenvolveram casos mais graves. A maior parte das infecções são observadas em pessoas não vacinadas ou parcialmente imunizadas. Ainda não é conclusivo, mas as vacinas parecem funcionar contra a Ômicron.  

NL: Novas variantes podem surgir durante o curso da pandemia. As vacinas podem precisar de uma espécie de atualização?

GH: Sem dúvida. As vacinas que temos são muito boas, no sentido de reduzir mortalidade e complicações, mas ainda possuem eficácia modesta, do ponto de vista de reduzir a infecção. O risco de se infectar, mesmo vacinado, ainda é alto. A diferenciação das vacinas é impedir que, uma vez infectada, a pessoa desenvolva uma doença grave. Portanto, esperamos que a segunda geração dos imunizantes tenha uma eficácia melhor do ponto de vista de reduzir infecções.

Independente do surgimento de novas cepas virais, vacinas com aprimoramentos estão em desenvolvimento.

NL: A variante Delta foi a responsável pelo aumento no número de infectados na Europa e nos Estados Unidos nas últimas semanas. No Brasil, entretanto, a quantidade de novos acometidos pelo vírus diminui. Pode-se cravar que a adesão dos brasileiros às vacinas disponíveis foi primordial?

GH: Podemos dizer que foi um dos fatores. Não podemos afirmar, de maneira alguma, que foi o único. As justificativas para esse comportamento epidemiológico diferente ainda estão em estudo. Um dos motivos para essa situação é a existência, inacreditavelmente, de movimentos contra a vacinação na Europa e nos Estados Unidos. Existem tais manifestações entre os brasileiros, assustadoramente, mas não de forma tão numerosa. Porém, é possível apontar outras hipóteses para justificar essa diferença nos números. No Brasil, por exemplo, a vacina que foi dada, prioritariamente, a pessoas mais suscetíveis foi uma diferente daquela disponibilizada nos Estados Unidos e em países europeus. Nestes lugares, a maior parte das vacinas distribuídas continha RNA mensageiro, e não as que possuíam adenovírus. No Brasil, o imunizante inicialmente distribuído foi a Coronavac, que possui o virus inteiro inativado. Talvez a diferença nas vacinas tenha gerado uma proteção distinta em relação à variante Delta. É importante lembrar que a cepa que precedeu a Delta no Brasil foi diferente da que a precedeu na Europa. A Gama foi surgida em Manaus. Então, a variante Gama pode ter trago uma proteção em relação à Delta. 

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