CW enfraquece uma das maiores heroínas que já passaram pelas telas da televisão

Mudança de emissora, efeitos especiais fracos e furos de personagem fazem com que a heroína protetora de National City perca seu rumo e força

Por Vitória Vasconcelos

Antes de começar a ler, um aviso aos habitantes da Terra: “sem querer querendo” posso dar alguns spoilers, então fiquem por sua conta e risco ao ler. Avisei vocês.

Conhecida como a última filha de Krypton, mais forte que o Superman, Supergirl, ou Kara Zor-El, é uma personagem da DC Comics, uma das editoras mais aclamadas de quadrinhos do mundo. Apareceu pela primeira vez na Action Comics em 1959 e, em 2015, teve sua série lançada pela emissora CBS, com a atriz principal Melissa Benoist. No ano seguinte, porém, os direitos de criação e distribuição, a partir da segunda temporada, passaram a pertencer a emissora da Warner, CW, que passou a ser responsável por trazer às telas ao redor do mundo, as histórias e aventuras da garota de aço.

A série conta a história de Kara Zor-El, uma alienígena da raça kryptoniana que chega ainda criança com o seu pod (um tipo de espaçonave) ao nosso planeta, após o dele explodir. Após chegar na Terra, ela tem de aprender a viver como uma humana e passa a viver ao lado de sua irmã adotiva, Alex Danvers (Chyler Leigh). Quando um acidente com um avião em que Alex está, ameaça a vida da irmã de Kara, a jovem decide usar seus poderes para salvar a irmã e assim decide assumir o manto, como o seu primo Superman, e se tornar a Supergirl.

Melissa Benoist como Kara Danvers/Supergirl e Chyler Leigh como Alex Danvers / Foto: Reprodução

A mudança de emissoras foi apontada pelos fãs e espectadores como um dos maiores problemas para a série televisiva. A diferença já pode ser acompanhada com a queda gritante de audiência entre a primeira temporada, em que a CBS era a emissora, com 12.960.000 de espectadores no primeiro episódio, e a segunda temporada, com a CW sendo a nova emissora da série, com apenas 3.060.000 de espectadores no episódio inicial.

O passar das temporadas da série não foi muito melhor para a evolução do roteiro e dos efeitos especiais. A própria personagem com o evoluir da série acabou em alguns momentos perdendo o seu brilho inicial, sendo ofuscada por personagens masculinos que foram inseridos de forma errônea pela emissora de televisão, muitas vezes sendo colocados para formar pares românticos desnecessários com a personagem principal, Kara Danvers.

A ideia da emissora de colocar pares românticos desnecessariamente para a principal, acabou por desagradar ao público. Kara parecia ficar apagada por homens e precisava da opinião deles para validar as suas.

Além disso, o relacionamento de Kara com Mon-El, um de seus pares românticos, que aparece pela primeira vez na segunda temporada da série, veio como um balde de água fria, visto que o herói chega coberto em um manto de mentiras e segredos, os quais usa apenas para que possa conseguir engatar um relacionamento com a personagem principal. Um dos exemplos de desrespeito do rapaz por ela, é quando Kara pede para que ele mantenha segredo do namoro dos dois, pois ainda não queria contar, e ele, assim que tem a chance, espalha para todos que conhece que os dois estão juntos.

O casal foi extremamente forçado apenas para tentar atrair alguma audiência para a série, mas teve um efeito contrário, pois a Supergirl ficava apagada na presença do novo personagem e par romântico e isso acabou gerando a saída de Chris Wood, com quem Melissa acabou se casando na vida real, da série na temporada 3.

Melissa Benoist como Kara Danvers/Supergirl e Chris Wood como Mon-El / Foto: Reprodução

Outra aposta alta da CW para a recuperação da série, e essa obteve mais sucesso, foi a entrada de Katie McGrath como Lena Luthor, a irmã mais nova do temível Lex Luthor, arqui-inimigo do Superman. Assim como Mon-El, Lena entrou na segunda temporada do show e o que era para ser apenas por alguns poucos episódios, rendeu um contrato para cinco temporadas e uma legião de fãs apaixonados. Sem falar com um dos shipps mais procurado em plataformas de fanfics, Supercorp, a junção de Supergirl com L-Corp (a indústria que Lena comanda).

Katie McGrath como Lena Luthor e Melissa Benoist como Kara Danvers/Supergirl / Foto: Reprodução

Lena entra no show com a premissa de recuperar o nome Luthor e trazê-lo para o “lado bom da força”, sua jornada com a personagem principal é dividida. Ela é melhor amiga de Kara Danvers e eventual parceira de Supergirl. Essa dualidade chega a ser contraditória, e ficamos nos questionando muitas vezes o porquê de terem deixado tão dualista a relação entre elas, como se fossem três personagens, no lugar de apenas duas. Você assiste as interações da Supergirl com a Lena e da Kara com a Lena e se questiona, se a emissora pensa em fazer como a HBO fez com Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) no final e transformá-la em vilã, por isso manteve por três temporadas, o segredo escondido dela, sendo muito angustiante até o final da série, esse medo de terem transformado uma das personagens mais amadas do show em algo que ela lutou tanto para não ser.

A terceira e a quarta temporada tiveram arcos muito bons, porém os efeitos se mantiveram muito fracos. Era como se a CW se recusasse a gastar com o seriado. Um bom caso de enredo foi a guerra contra as Worldkillers (assassinas do mundo, na tradução literal), um grupo de mulheres que tinham um vírus kryptoniano em seus corpos e queriam purificar o mundo para uma nova geração. As brigas entre Supergirl e Reign, o alter ego de Samantha Árias (interpretada por Odette Annable), com certeza foi um dos momentos em que os efeitos especiais foram usados de verdade e ficaram na mente de quem assistiu.

Odette Annable como Samantha Árias/Reign e Melissa Benoist como Kara Danvers/Supergirl / Foto: Reprodução

Percebendo e se aproveitando do poder que o fandom de supercorp tem, e se aproveitando da famosa técnica do queerbait (tipo de estratégia usada na qual se coloca falsas interações entre casais do mesmo gênero, para atrair público LGBTQIA+), durante a quinta temporada, em uma entrevista a EW, a atriz principal da série, Melissa Benoist, chegou a dizer que a temporada teria uma “batalha pela alma de Lena”, o que instigou e alegrou muito quem shippa o casal, mas que no final foi uma total decepção.

A temporada foi um completo desastre. Supergirl nunca esteve tão petulante na vida, totalmente se sentindo superior a todos e Lena Luthor agiu totalmente fora de sua personagem, quase como se a emissora tivesse a transformado em vilã, depois de anos dela ter lutado do “lado do bem”. O descaso acabou gerando uma enorme onda de boicote na série por parte dos fãs, que levantaram até mesmo tags no Twitter. No final, Lena lutou por sua própria alma e voltou para a luz, conseguindo gerar um final relativamente pacífico entre ela e a Super, fazendo com que a empolgação voltasse para quem assiste a série.

Em 2020 foi anunciado que a sexta seria a última temporada da série, que daria lugar para o super masculino, com o seriado, também da CW, Superman & Lois. Com novas promessas de uma boa temporada e a empolgação de ser a final, as esperanças de ter algo de qualidade voltaram. O começo foi muito bom, o retorno da Zona Fantasma, o arco dos super amigos tendo que resgatar Kara, Kelly como Guardiã e Alex como Sentinela, um casal de heroínas lésbicas, algo que traz representatividade, apesar da emissora não ter colocado muitas cenas românticas entre as duas.

A temporada final estava se desenvolvendo bem, mas, na metade final, os produtores acabaram colocando informações demais nos episódios que faltavam para terminar a série. Como o fato, por exemplo, de terem colocado Lena como uma bruxa. Poderiam ter desenvolvido esse dom que herdou da mãe, algumas temporadas antes, ficou muito apressado. Ela teria sido um acréscimo muito valioso se tivesse entrado nos super amigos desde o começo.

Além de apressarem o enredo de alguns personagens, trouxeram de volta outros personagens que não eram de tão bom agrado, como o caso do Mon-El. Não havia a necessidade de trazer de volta o personagem. Ele não acrescentou nada à trama, apenas trouxe ondas de revolta no Twitter, por conta da época em que  namorava com a Supergirl e era uma relação tóxica. Até tag na rede social foi levantada.

#NOMOREMONEL foi a tag levantada pelos fã revoltados de Supergirl no Twitter quando souberam da volta do personagem à série / Foto: Twitter

Alguns pequenos momentos de glória foram quando nos presentearam com Esme, uma pequena alienígena que foi adotada por Alex e Kelly. Os momentos de interação com a menina foram os que salvaram a temporada final, juntamente com o casamento Dansen (nome do shipp feito com os sobrenomes da Alex Danvers e Kelly Olsen).

Azie Tesfai como Kelly Olsen, Mila Jones como Esme e Chyler Leigh como Alex Danvers / Fonte: Reprodução

No fim, Supergirl foi uma série que marcou muito, e fez parte de seis anos da vida de muitas pessoas. Mesmo com seus muitos defeitos ainda tem um lugar enorme no coração, pelo carinho que se tem pela personagem da DC. O final não fez jus à magnitude do poder da última filha de Rao (o deus dos Kryptonianos). Terminou com a sensação de que a história não estava concluída. Não ficou como se tivesse aberto a imaginação, apenas não finalizou.

One thought on “CW enfraquece uma das maiores heroínas que já passaram pelas telas da televisão

  • 11 de dezembro de 2021 em 20:38
    Permalink

    Mais uma matéria sensacional de Journalist Vitória Vasconcelos que mexe com o nosso imaginário pela sua concatenação e narrativas sempre muito bem redigida . Me senti assistindo as séries e conhecendo os detalhes que eu Jamais saberia por minhas próprias buscas . Gostei demais ma verdade amei . Parabéns ao NewsLink por nos dar esta oportunidade pela ótica de Vitória.

    Resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php