“O mais importante na trajetória de um cineasta são os filmes dele”

Cineasta cearense, Wolney Oliveira é diretor do Cine Ceará e da Casa Amarela Eusélio Oliveira

Por Vinícius Gabriel

Wolney Oliveira é um cineasta brasileiro, nascido em 1960 em Fortaleza. Formou-se cineasta pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba, com especialização em fotografia. Atualmente é diretor da Casa Amarela Eusélio Oliveira, do departamento de Cinema da Universidade Federal do Ceará, e também diretor executivo do Festival Ibero-americano de Cinema Cine Ceará.

Seu primeiro filme foi “O Milagre em Juazeiro” e é um cineasta com repercussão nacional e internacional, ganhando prêmios como Margarida de Prata, pelo filme “Soldados da Borracha”, um dos prêmios mais importantes do cinema documentário brasileiro. Seu penúltimo longa, “O último Cangaceiro”, esteve em mais de 50 festivais de cinema mundo afora e ganhou prêmios no Brasil, Cuba, México, Bolívia e foi considerado pelo renomadíssimo Cinema Tropical entre os 100 melhores filmes do mundo entre 2010 e 2019. Para falar sobre esta trajetória, o Newslink conversou com Wolney Oliveira, que falou do início da carreira aos desafios de dirigir a 31ª edição do Cine Ceará.

News Link: O que lhe motivou a seguir a carreira no cinema?

Wolney Oliveira: A principal motivação foi meu pai, Eusélio Oliveira, que, além de ser meu primeiro professor de cinema, é fundador da Casa Amarela Eusélio Oliveira da Universidade Federal do Ceará (UFC) que, atualmente, dirijo. Então, podemos dizer que foi uma influência do berço e que sou totalmente apaixonado pelo que faço.

Cena do documentário “Soldados da Borracha” / Foto: Divulgação

NL: O que destacaria em sua trajetória desde a formação acadêmica até agora, após os filmes dirigidos?

WO: Acho que o mais importante na trajetória de um cineasta são os filmes dele. Destacaria meus filmes, entre eles “O Milagre em Juazeiro”, meu primeiro longa metragem. É um docudrama, uma mistura de documentário e ficção, dois gêneros em um só. Um filme que percorreu inúmeros festivais no Brasil e no exterior, ganhando vários prêmios, inclusive ganhando, na época, o prêmio de melhor documentário do Festival Nacional de Cinema Documentário do Uruguai, competindo com mais de 250 documentários do mundo todo. Além dele, destaco “Os Últimos Cangaceiros” que, na realidade, é o filme que gosto mais, pois ele passou em mais de 50 festivais em vários países do mundo, foi muito elogiado pela crítica brasileira e internacional e foi muito legal ter feito. O “Soldados da Borracha” é outro que destaco. Ele estreia no festival de “É Tudo Verdade”, de São Paulo, um dos mais importantes no contexto ibero-americano e ganhou o prêmio de melhor documentário, segundo a Associação Brasileira de Documentaristas de São Paulo, um prêmio paralelo, mas muito importante, pois é um prêmio de uma associação paulista, reconhecendo o trabalho de um cearense, quando poderia ter reconhecido alguém de lá mesmo. Até hoje o “Soldados da Borracha” ganhou 14 prêmios, sendo o último, o mais importante para mim,  o Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos no Brasil (CNBB), que é o prêmio mais antigo do cinema documentário brasileiro, ou seja, um grande reconhecimento do nosso trabalho. Além disso, recebemos a notícia de que ele está na mostra competitiva principal do Festival Internacional de Cinema Ambiental, festival de Goiás, muito importante. É um filme que está seguindo sua trajetória nos cinemas mas, ao mesmo tempo, o meu filme mais premiado, pelo menos em quantidade de prêmios, já que “Os Últimos Cangaceiros” teve repercussão internacional maior. Destaco esse três filmes, mas também o trabalho que tem sido feito no Cine Ceará que, das 31 edições, dirigi e produzi 29, além de destacar meu trabalho político, pois fui o primeiro diretor presidente da Conexão Audiovisual Centro-Oeste Norte e Nordeste, e membro da diretoria do Congresso Brasieliro de Cinema. Mas, como falei, o mais importante para um cineasta são os filmes e não um trabalho político ou cultural que tenha sido feito, apesar de serem importantes.

NL: Como diretor do Cine Ceará, o senhor tinha ideia do sucesso que o festival iria fazer ao longo dos anos?

WO: Idéia a gente nunca tem. O que temos é desejo. O primeiro grão do festival foi plantado pelo meu pai, e foi um evento que começou bem pequeno como Vídeo Mostra Fortaleza, em 1991, época em que eu ainda estava estudando cinema na Escola Internacional de Cinema e Televisão, em Cuba, na qual fui aluno da primeira geração da escola. Quando retorno de lá, em 1992, já havia sido realizado o segundo Vídeo Mostra Fortaleza, conduzido pelo cientista Marcos Moura, e, a partir de 1993, assumi o festival. Quando assumi, a ideia era crescer, como cresceu de fato, e sempre tratamos de inovar, criar novas coisas, de acompanhar a modernidade. Fico muito feliz de que hoje, ao falar principalmente dos últimos cinco anos de evento, o festival cresceu muito no conceito nacional de sua importância, fato que não é falado só por mim, mas também pela crítica que cobre e acompanha o evento. Grandes filmes como “A Vida Invisível”, “O Clube”, “A Mulher Fantástica”, “Fortaleza Hotel”, “Praia do  do Fim do Mundo”, entre outros, escolhem fazer suas estreias para o cenário nacional e mundial no Cine Ceará. Isso prova o reconhecimento, não só nacional, como internacional do festival.

Eusélio Oliveira, pai de Wolney / Foto: Cena do filme “Eu, sélio” (1991)

NL: Qual a sensação/expectativa de ver o festival chegando à 31ª edição?

WO: É a melhor possível, apesar da pandemia. Se houve alguma coisa positiva em relação aos festivais e às outras áreas, é que a pandemia fez com que os festivais de cinema descobrissem a janela virtual. Não que  não soubesse da existência dela, mas não a usávamos pois não havia a necessidade de usar. Por exemplo, a nossa parceria com o Canal Brasil faz com que os seis longas, da competitiva de longas ibero-americanos, sejam exibidos pelo canal, que tem quase 15 milhões de assinantes. O Cine Ceará, que acontece no coração da cidade de Fortaleza, no Teatro São Luiz, vai poder ser visto pelos assinantes do canal. Esse foi um lado bom, pois estamos exibindo a Mostra Olhar do Ceará, na TV Ceará (TVC), ou seja, as pessoas que querem conhecer, não precisam se deslocar de suas casas para assistir. Então, apesar de toda essa turbulência causada pela pandemias, estamos fazendo, uma grande edição, com seis longas inéditos no Brasil, 12 curtas na Competitiva de Curta Brasileiro, 20 filmes na Competitiva da Mostra Olhar do Ceará, seminário importantíssimo na Federação das Indústrias  do Estado do Ceará (FIEC),  Diálogos do Audiovisual: Perspectivas Econômicas, que acontecerá nos dias 1º e 2 de dezembro, no Auditório José Flávio Costa Lima. As expectativas são as melhores possíveis, mas a principal, é o festival que acontece nesse período muito difícil para todos, mas que estamos conseguindo fazer esse evento e acredito que vai ter uma boa repercussão e vai ser mais um sucesso.

NL: Marta Aurélia e Halder Gomes são os homenageados do evento. Qual foi a motivação para escolhê-los?

WO: Bom, a Marta Aurélia é uma excelente atriz, já ganhou prêmios importantíssimos como o de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme “Milagre em Juazeiro”, no Festival de Cinema de Brasília, que um dos festivais de cinema mais importantes do País e o mais antigo, além estar agora em cartaz no filme “Cabeça de Nêgo”. Ela não é só atriz, mas também jornalista, cantora, uma artista polivalente, digamos assim. O Halder Gomes é um diretor cearense que nos últimos 10 anos teve um grande crescimento, principalmente após o lançamento do “Cine Hollywood”, que estreou no Cine Ceará, quando fizemos no Teatro José de Alencar. Ele virou uma grife de sucesso, ou seja, a Globo, já está indo para a terceira temporada da série do Cine Holliúdy, e também já tem um projeto do próprio Cine Hollywood 3, Shaolin do Sertão 2, além de outros projetos. É um grande diretor com muito talento e foi quem descobriu esse filão do cinema de humor, não do brasileiro, mas com uma pegada cearense que repercute também no exterior. Foi pelo talento deles que decidimos homenageá-los.

NL:  Voltando ao documentário “Soldados da Borracha”, que no último mês de outubro ganhou seu 14º prêmio e ganhará uma minissérie. O senhor tinha ideia do sucesso que esse documentário iria fazer e se ele foi o trabalho que mais teve orgulho de fazer?

WO: Gosto de todos os meus filmes, mas o que tem a minha melhor fatura, podemos dizer assim, foi “Os Últimos Cangaceiros”, que também foi meu trabalho de maior repercussão internacional e nacional. O “Soldados da Borracha” sabia, digamos assim, que estava tratando de um tema importantíssimo que, felizmente, melhorou depois do longa e depois de outro filme, que foi o primeiro em que tratei sobre o tema, que se chama “Borracha para a vitória”, um média metragem disponível no YouTube. O projeto da minissérie do “Soldados da Borracha” existe, mas vai depender de orçamento para ser colocado em prática.

Foto em destaque: Viktor Braga/UFC


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