“Nossa arte é poderosa, consegue transformar a vida das pessoas”

Com mais de 30 anos de carreira, a multiartista Marta Aurélia transita entre diferentes linguagens e processos

por Alec Bessa

Ela atua como cantora, atriz, compositora, poeta e produtora dos próprios projetos. Formada em jornalismo, é especialista em teorias da comunicação e da imagem, foi locutora e produtora da rádio Universitária FM. O talento dessa atriz e sua bela voz serão homenageadas no 31º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, ao lado do cineasta Halder Gomes. Eles receberão o Troféu Eusélio Oliveira na solenidade de abertura do evento.

Marta estreou no cinema em “Luzia Homem”, do diretor Fábio Barreto. E ao interpretar a beata Maria de Araújo, em Milagre em Juazeiro (1999), de Wolney Oliveira, ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante, no Festival de Brasília. Ela foi protagonista no curta Francisca Carla, de Natal Portela, com Ney Matogrosso e Elke Maravilha no elenco. Participou do filme Cabeça de Nêgo, premiado no Cine Ceará, em 2020, como melhor longa da mostra Olhar do Ceará. A atriz protagonizou recentemente o filme “Circuito”, de Alan Sousa e Leão Neto. O Newslink preparou algumas perguntas especiais para Marta, falando desde seu início de carreira, até como criar suas personagens e processos.

NewsLink: Versatilidade, teu nome é Marta Aurélia. Quem é esta atriz que será homenageada na abertura do 31º Cine Ceará?

Marta Aurélia: É incrível pensar sobre isso, cara. Gosto de me identificar como uma artista. Em meus processos, fico sempre completamente entregue e disponível, a ponto de me sentir completa. Surgem linguagens e diferentes possibilidades. Mesmo quando enquanto locutora e produtora da Rádio Universitária FM, me via ali como artista também. Me sinto – e sou – artista.

Marta Aurélia no filme Cabeça de Nego, dirigido por Deo Cardoso / Foto: Divulgação

NL: O que você destacaria na sua trajetória, desde sua participação no Grupo Raça, em 1982, até sua atuação em Cabeça de Nêgo, de Déo Cardoso, em 2020?

MA: Lembro muito bem do Grupo Raça, minha primeira peça lá inclusive foi “A Noite Seca”, uma peça que nós só tivemos a oportunidade de apresentar duas vezes. Ela, não sei exatamente o motivo, acabou sendo censurada. Naquela época, estávamos vivendo a ditadura militar, você sabe. Foi um momento de muita vivência e ativismo na minha vida. Sabe, é engraçado que com o cinema as coisas demoram um pouco mais para ficarem prontas, mas o “Cabeça de Nego” a gente gravou já faz uns dois anos, em 2019. Atualmente, tenho feito coisas bem diversas. Fui dançarina e performer em um videoclipe e também atuei no filme “Circuito”. Além disso, estou com um outro projeto teatral junto aos grupos “Teatro Máquina” e o “No barraco da Constância tem!”, dois grupos que tenho muito carinho e sempre quis trabalhar em conjunto.

NL: Marta Aurélia, qual o significado desta homenagem no Cine Ceará e o que representa para sua carreira?

MA: Lembro de quando recebi a ligação, me perguntando se eu aceitava – entre risos – ser homenageada. Foi surreal. Fiquei pensando no significado daquilo tudo, sabe. Mas eu sei, e assim cheguei à conclusão de que nada que você faz enquanto artista, é feito sozinho. Nada mesmo. Existe a trajetória, a coletividade. E, para mim, significou reconhecimento para nós, artistas. Você sabe disso, Alec, sendo um colega ator, sabe do valor do reconhecimento para com a nossa arte, e da potência dela. É poderosa, consegue transformar a vida das pessoas e, ainda assim, é muito desvalorizada. É um reconhecimento que vai para além de mim, mas também para todos os que fazem arte. Um reconhecimento para a arte no Ceará, num festival de cinema cearense, numa premiação. Fiquei muito feliz com a homenagem e em ter chegado a essa percepção.

Marta Aurélia, na juventude, em temporada com Grupo Raça no Teatro Universitário / Foto reprodução: Miguel Macedo

NL: Sua interpretação como a beata Maria de Araújo, no filme Milagre em Juazeiro, do diretor Wolney Oliveira, lhe valeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante, no Festival de Brasília, em 1999. Foi seu melhor trabalho?

MA: Acho que esse foi um dos trabalhos mais importantes no decorrer da minha vida artística, sim. O Wolney é um incrível documentarista e no decorrer do projeto ficou decidido fazer essa mistura, de ficção, dentro do documentário. Agora, uma vez no festival, houve todo um debate sobre se eu deveria concorrer enquanto protagonista do filme ou coadjuvante. Pois veja, quem recebeu a hóstia e teve a boca banhada em sangue, foi a Beata, não foi? No fim, decidiram que a figura do Padre Cícero e em consequência o ator, seriam os protagonistas e eu, enquanto Beata ficaríamos com o papel de atriz coadjuvante. Foi um sentimento talvez agridoce. Fiquei muito feliz em receber o prêmio de atriz, porém meio pensativa sobre questões como o patriarcado e a desvalorização da figura feminina. Mas, no fim, tive outra percepção ainda: a de que foi incrível a experiência. O Cariri é minha terra ancestral. Atribui recentemente que o filme de certo modo me conectou com esse universo mais mágico ainda, de ancestralidade forte. Ainda hoje, a experiência vai se atualizando em mim.

NL: Esta sua versatilidade – você é vista na tela de cinema, nos palcos musicais, e teatrais, em estúdios, em espaços com performances, além de dirigir seu próprio talento artístico, dialogando com sua pluralidade, recriando suas vivências -, como vivencia seu processo de criação e trabalha sua teatralidade?

MA: Ultimamente tem sido algo bem orgânico, mas claro que nunca é apenas uma coisa. Para mim, a parte mais importante é essa de ter uma oportunidade de criar algo em conjunto com outros artistas. Principalmente nesse momento de dificuldade, com o governo atual, a arte é quem nos acolhe, nos apoia e nos move. Não tira de nós, mas dá. Meus processos de criação surgem de diferentes maneiras, às vezes mais íntimos, como quando pensei nos movimentos da Terra e quis criar a música ‘’Tectônica”, por exemplo. Outras vezes existem estímulos mais coletivos. No filme do Wolney, como preparação para a personagem, eu costumava dar longas caminhadas na praia e fazer meditação. Buscava com isso atingir o estado de fé e espiritual da Beata, assim como sua tonalidade de pele. Algo que para nós, atores e atrizes, é muito importante, essa verossimilhança. Acabei ainda me envolvendo, na época, com outro projeto, mas que curiosamente, se relacionava com o do filme. É assim que as coisas são, tudo se permeia.

NL: Marta, por fim, gostaria de te perguntar sobre a experiência trabalhando no “Cabeça de Nego”, já que o filme está super visado nesses tempos e recentemente entrou inclusive para o catálogo do serviço de streaming GloboPlay.

MA: Foi realmente ótimo. Comecei a gostar desse projeto a partir do momento que o Deo me ligou. E a experiência foi incrível, muito tranquila e suave, apesar do tema abordado no filme. Eu odeio fazer testes de elenco, algo que você também compartilha, mas com o Deo foi simples. Ele sabe exatamente o que ele quer e como quer. É um maestro incrível nessa grande aventura que é a atuação. O clima durante as filmagens foi de muita harmonia e firmeza, confiança e sintonia, ou seja: todos juntos. No fim, queria destacar também o trabalho incrível da Natali Rocha como preparadora de elenco. É possível sentir o resultado desse trabalho dela na tela, sabe. Além de ela também ser uma atriz incrível. No meu último dia de gravações, o Deo fez o set inteiro de filmagens parar e bater palmas para mim. Foi algo realmente muito tocante. Estou ainda mais feliz agora, com a trajetória e repercussão desse filme tão importante, que trata de juventude, racismo e burocracia.

Foto em destaque: Divulgação


Serviço:

Instagram: Marta Aurélia

O 31º Cine Ceará acontece de 27 de novembro a 3 de dezembro, de forma presencial, em TV por assinatura e online


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