Entre a medicina e o blues, a vida do médico e gaitista Diogo Farias

No dia celebrado a todos os músicos, 22 de novembro, chegou a hora de saber como o médico especialista em mão e músico consegue dividir a vida entre suas duas paixões

Por Mario Henrique Lima

Uma das primeiras perguntas que faço quando chego à casa de Diogo Farias é se ele chegou a cogitar parar a música por conta da medicina e ele rapidamente me respondeu que não. “Nunca foi uma opção. Tanto a medicina quanto a música fazem parte de mim.” Farias é formado em medicina pela Universidade Federal da Paraíba e especialista em cirurgia de mão. Além desse trabalho principal, é gaitista da banda De Blues em Quando. 

A banda surgiu logo após um período em que ele esteve em Belo Horizonte fazendo especialização. “Fui me encontrar com meu amigo Darlington Mesquita que estava num estúdio aqui, em Fortaleza,  e vimos uma banda de blues ensaiando. Ele me apresentou para o pessoal e marcamos um primeiro ensaio. E foi aí que começou a De Blues em Quando. Era Alvim, na guitarra, Nino, na bateria, Lucas Ribeiro, no baixo e eu, na gaita.” Com a banda formada, começaram a ensaiar e fazer os discos. “O primeiro CD da gente foi bem difícil de sair. A gente parava e depois voltava. O álbum “O que é que eu Toco pra Ganhar Dinheiro?” saiu em 2010. A gente teve uma receptividade bem bacana. Começamos a nos apresentar em público e isso foi tomando proporção”, diz.

Com tamanho sucesso, Diogo passou a ser patrocinado pela marca de gaitas Bends, tendo a oportunidade de tocar em vários festivais nacionais e internacionais. Ele afirma que a medicina estava sempre em paralelo com sua carreira musical. “Houve momentos em que a música pagou as contas daqui de casa.”

Mas, afinal, qual paixão surgiu primeiro? A música ou a medicina? Diogo recorda que o primeiro contato com a música se deu escutando música. E ouvia muito samba. “Até digo que minha base musical foi escutando uma coleção de discos do meu pai, chamada “100 anos de samba”. Depois que passei no vestibular de medicina, comecei a gostar de blues. Um amigo me levou numa locadora de CD’s e conheci a banda Blues Etílicos e gostei demais do disco Água Mineral e o escutava direto. Comecei a gostar de um som que tinha achado legal e achava que era uma guitarra, porque a gaita quando amplificada, fica com o som distorcido. Eu pensava, “que som é esse? Vou tocar essa guitarra”. E quando descobri era uma gaita e quem tocava era um cara chamado Flávio Guimarães. E quis aprender.”

A banda De Blues em Quando se formou em 2004; Alvin, Diogo, Enos e Dudu Freire (esquerda à direita) / Foto: Reprodução

Gostou demais do som e comprou uma gaita, mas teve um problema: comprou numa tonalidade não muito comum, mi. Em uma greve da faculdade, em João Pessoa, voltou para Fortaleza, comprou duas gaitas, uma na tonalidade ré e outra em dó, e definiu como meta aprender a tocar. “Colocava os CDs pra tocar e ficava imitando os caras e aí comecei a aprender os solos, era uma coisa bem empírica”. Conheceu vários professores e decidiu experimentar o famoso método do professor Benevides Chiria Junior, de Curitiba-PR. 

Conseguiu o contato dele e comprou o método. Era uma fita cassete com as tablaturas e passou este conteúdo para um CD e começou a estudar. “Ele tinha uma paciência muito grande. Tirava minhas dúvidas com ele pelo telefone e ficamos amigos. Esse processo durou uns quatro meses. Estudava e tocava tanto que machucava os lábios”, revela.

“ A gaita me ajuda até hoje nas minhas coisas de medicina, porque ela é um elemento de integração. Se não fosse a gaita na minha vida, talvez não tivesse conseguido tanta coisa na medicina. São duas coisas que andam entrelaçadas na minha vida”

Diogo Farias

Nem sempre, porém, houve essa harmonia entre carreiras. “Antes de entrar na De Blues em Quando, eu e Marcelo Justa fizemos um projeto tocando nas noites de Fortaleza. E foi aí que os horários da medicina e da gaita começaram a bater. A gente tocava quinta-feira à noite, acabava às três da manhã e às sete horas eu tinha que dar plantão.”

Diogo afirma que é complicado conciliar essas duas paixões. ”É desafiador por causa do tempo. Chega um certo nível de profissionalismo que você precisa dedicar tempo. Tudo o que você faz nessa vida precisa dedicar tempo no início para você adquirir conhecimento, é uma escalada. Tanto a medicina quanto a gaita.”

Com tantos anos tocando, teve algumas experiências marcantes, como na vez em que estava treinando em seu apartamento em Belo Horizonte e um vizinho veio conversar com ele: “Um dia passei um pouco da hora e quando me dei conta tinha alguém na campainha. Quando olhei, era o vizinho da frente do outro bloco. Já abri a porta pedindo desculpas e ele disse que estava ali para agradecer, que estava em um período muito difícil de vida e escutar aquela gaita toda noite tinha ajudado ele.”

Outra experiência marcante foi quando estava em um retiro, e uma irmã chegou a ele dizendo: “Quando escuto a gaita durante a oração, meu coração se esvazia de tudo que é ruim e se enche do amor de Deus”. E isso é muito forte, acho que é uma coisa que vem lá de cima mesmo, sabe?”

Perguntei sobre suas principais influências internacionais e nacionais, Diogo relata:  internacionais, Little Walter, Sonny Boy Williamson II, Jean Jacques Milteau, Rick Estrin, William Clarke, Rod pizza, Gary Smith. Dos nacionais, Flávio Guimarães Benevides Chiréia Jr, Marcelo Naves, Joe Marhofer, Rodrigo Eberienos. Também me inspiram o guitarrista Muddy Waters e T Bone Walker”


Microfone feito para a gaita

Além de médico e músico, Farias se tornou um customizador. Criou um microfone para segurar e tocar gaita ao mesmo tempo. Ele tinha outros microfones e encontrava neles pontos que não o agradavam, um era pesado e outro tinha um esbarro na frente. “Juntei, então, em um microfone só as coisas que me agradavam, mudei a posição do botão de volume, por exemplo. Fiz o desenho e o material escolhido foi a madeira, pois ela é mais leve e fácil de trabalhar.”



Discografia da Banda

Além do primeiro disco, O que é que eu Toco pra Ganhar Dinheiro?, lançado em 2010, a banda tem mais dois álbuns de estúdio e quatro DVDs gravados ao vivo. 

“Em 2017, a gente lançou o CD “Você Vai Curtir” e todo esse CD a gente fez sozinho, gravado no estúdio do nosso baixista. Com este disco, a gente ficou em segundo lugar na categoria Artista de Blues, no Prêmio Profissionais da Música. E fomos seguindo o fluxo da internet, melhorando os equipamentos, colocando nosso material nos streamings”.

“Em 2020, lançamos o “Do Baú”, que são composições antigas, que estavam guardadas. Fizemos um novo arranjo e lançamos. A ênfase da De Blues em Quando é um trabalho de blues, de rock e é autoral e em português. Hoje tocamos muito em jantares, congressos. Temos uma estrutura que dá pra fazer estes arranjos. E isso sempre em paralelo com a medicina.”

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