Fotógrafo realiza ensaio para mostrar feridas sociais e raciais da juventude negra

No mês da Consciência Negra, o NewsLink entrevistou o fotógrafo George Braga, que fez uma sessão de fotos com o propósito de mostrar a realidade dos jovens negros no sistema socioeducativo

Por Érica Prado

No dia 20 de novembro de 1965, o líder negro Zumbi dos Palmares foi morto em luta contra o Império português, após brigar incessantemente durante anos contra a escravidão no Brasil. Foi criada, então, nesta data, o Dia Nacional da Consciência Negra, e é comemorado em todo território nacional. A celebração relembra a importância de pensar sobre a posição dos negros na sociedade em que vivemos. Não é à toa que muito tempo depois da escravidão ainda existem muitos casos de preconceito e racismo no país. Com o intuito de mostrar uma ferida social e racial no nosso sistema, o fotógrafo George Braga produziu um ensaio com jovens que fazem parte do sistema socioeducativo.

O ensaio fotográfico, que teve início em 2018, tem o intuito de mostrar a realidade dos adolescentes, a realidade dentro dos centros e poder transmitir para as pessoas que esses jovens não estão ali de férias, e sim, por um erro que cometeram. Jamais privados dos seus direitos, eles têm direito à educação, cultura, informação, mas foram privados de liberdade, para que possam repensar nos atos cometidos e com ajuda do sistema dando auxílio e oportunidades, sair daquele lugar pessoas diferentes.

De acordo com George, a maioria dos adolescentes apreendidos no Seas, são negros. Grande parte deles são presos por tráfico e roubo e, por morarem em áreas faccionadas, existe oportunidade para o crime. Muitos relatam que fazem isso por uma questão de sobrevivência e necessidade, para conseguir algo que os faça levar um prato de comida para casa.

George Braga em oficina de fotografia da SPP21, Semana de Publicidade e Propaganda na Universidade de Fortaleza / Foto: Divulgação

Ao ser perguntado sobre o que espera da reação das pessoas após verem o projeto, George afirma que deseja que as pessoas reflitam e critiquem menos os jovens naquela situação. “É muito fácil criticar as pessoas quando a gente não conhece e não sabe o porquê que aquilo aconteceu, até porque poderia ser um filho seu ou um irmão. Então, quero mostrar a realidade nua e crua sem maquiar”.

Por fim, o fotógrafo relata o desafio que enfrentou ao ser avisado de que não poderia fotografar os rostos dos jovens, que são todos menores de idade. “Havia entrado lá só com a experiência de trabalhos que mostravam o rosto e tive de reinventar maneiras de expressar as emoções das pessoas, e o semblante que eles passavam. Ao invés de ser uma limitação para mim, foi um gancho de criatividade”, concluiu George Braga.


Ensaio fotográfico: Quando a segunda chance é a primeira

Por George Braga (*)

O projeto que estou documentando vem sendo feito desde o começo de 2018. Não sabia do que se tratava o sistema Socioeducativo até mergulhar nesse ambiente que, além de ser bem delicado, é um local em que a maioria dos jovens adolescentes, que se encontram cumprindo suas medidas, são negros e periféricos.

Isso me inquietou e precisava de alguma forma documentar esse ambiente e mostrar realidades que não estamos costumados a ver. A mídia sensacionalista e policialesca sempre pregou o discurso de que “bandido bom é bandido morto”, em todas as esferas. Como homem preto, vindo da mesma origem periférica, tive as mesmas “oportunidades” para entrar pro crime e ser também um adolescente apreendido. E este questionamento interno sempre mexeu comigo e como poderia ser voz de alguma forma para eles e expressar o que sinto ao entrar nesses locais. De falar que eles podem, sim, ser pessoas melhores e que o problema social e estrutural é bem maior.

Usei, então, a ferramenta que mais amo para dialogar: a imagem. Mostrar a desigualdade e que nem todo mundo está no mesmo barco, que tem as mesmas oportunidades e, no caso deles, é preciso ser apreendido pra ter acesso a determinados locais. Muitos adolescentes quando chegam às unidades socioeducativas nunca foram à escola e nem tiveram seus direitos básicos como documentação social e saúde básica. São pessoas invisíveis para o sistema em que vivemos, mas que só são lembradas quando morrem ou quando são presas. Morar na periferia é acordar todo dia com um alvo nas costas e quando você é negro esse alvo só aumenta.

(*) George Braga é publicitário, fotógrafo e, desde 2018, trabalha como assessor de comunicação/fotógrafo na
Superintendência do Sistema Estadual de Atendimento Socioeducativo – Seas


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