“O racismo está presente em toda a realidade brasileira” 

Para a professora Zelma Madeira, o legado da escravidão ainda é latente na sociedade cearense  

Por Carlos Enrique

O racismo é uma ferida aberta aos olhos de todos nós. Mesmo séculos depois da abolição da escravidão no Brasil, a herança deste mal é visível nas diferentes perspectivas que permeiam a sociedade nacional. Estes são alguns dos pontos levantados pela professora Zelma Madeira em entrevista ao portal NewsLink.

Graduada em Serviço Social e doutora em Sociologia, Zelma Madeira e, desde dezembro de 2020, ocupa o cargo de Assessora Especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do governo estadual. Em 2019, a professora esteve à frente da formulação da campanha Ceará sem Racismo – Respeite minha história, Respeite minha diversidade. A peça publicitária recebeu o prêmio Innovare 2020.   

Natural de Aroazes (Piauí), Zelma Madeira foi professora na Universidade Estadual do Ceará (Uece). Para a docente, questões como a inclusão do negro e o racismo estrutural precisam ser pauta nos diferentes ambitos que compõe a sociedade. 

NewsLink: A senhora venceu o prêmio Innovare 2020 pela coordenação na campanha Ceará sem Racismo – Respeite minha história, Respeite minha diversidade. Esta premiação aconteceu em um momento pandêmico e de incremento de forças racistas e discriminatórias. Como foi vencer este prêmio diante desse cenário? 

Zelma Madeira: A campanha foi lançada no final de 2019. Então, para nós da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para Igualdade Racial (Ceppir) era urgente fazer uma ação de enfrentamento ao racismo nesse estado. Fala-se muito sobre o “Ceará, Terra da Luz”, ou sobre o Ceará que não tem negro. Era necessário que chamássemos a atenção para isso. Nos aproximávamos do período da pandemia, onde tudo ficou complicado. Mas estávamos inseridos em um momento estrutural muito grave também, que foi o aumento do autoritarismo, da perspectiva fascista e do racismo. Agora temos um governo nacional que muito influencia nesse discurso de ódio. A soma disso tudo resultou na campanha, onde falamos muito dos grupos étnico-raciais e da população negra. Falamos disso tudo para reafirmar a necessidade do Ceará respeitar sua diversidade e sua história de formação. 

NL: Em relação à campanha, como enxerga o seu impacto?

ZM: Não é uma campanha longe, mas perto da nossa história. Na época, nos consideramos vitoriosos por sermos os finalistas. Mais alegres ainda ficamos no dia 1º de dezembro, quando participamos da solenidade e ganhamos o prêmio por uma campanha que também é um projeto, porque ele não parou ali. Neste ano, a nossa ênfase é nos indígenas. Queremos destacar algum grupo formador do Estado do Ceará a cada ano. 

NL: Na sua fala inicial, a senhora destacou que por muito tempo pareceu que não existia racismo neste estado. O Ceará foi a primeira província do Império do Brasil a abolir os escravos, mas nunca estudamos figuras da resistência do período. Precisamos discutir com mais firmeza o racismo dentro da sociedade cearense?

ZM: O racismo está presente em toda a realidade brasileira. Ele vai ganhando contornos diferenciados nas particularidades de cada região. Se pensa, no Ceará, que não existe negro na sociedade. Isso acontece porque existe uma associação pervessa do negro ser igual ao escravizado. Pensou-se que, como abolimos a escravidão quatro anos antes do Estado brasileiro, só bastava sumir com os negros. Não trabalhamos o que foi a presença negra neste estado. É a nossa particularidade. Em relação ao Brasil, sempre existiu um projeto de Nação em que os brancos teriam preferência. Por isso, sempre houve uma negação aos escravizados e afrodescentes. É por isso que nas escolas não estudamos personalidades da resistência dos povos negros. Com a resistência é que estamos buscando projetos de desconstrução da colonialidade, que é desfazer essa história que nos exclui.  

Em dezembro de 2020, Zelma Madeira foi convidada para assumir o posto de Assessora Especial de Acolhimento aos Movimentos Sociais do governo estadual / Foto: José Wagner 

NL: Como a senhora traça um paralelo entre o negro na sociedade escravorata e o negro na sociedade contemporânea?

ZM: Para dizer o porque de nós ainda convivermos com as persistentes desigualdades raciais, é preciso enteder que passamos muito tempo sob a batuta da escravidão. Vivemos quase 400 anos sob atividades escravistas. Como eu disse, a elite implantou um projeto de país anti-negro e anti-indígena. É importante destacar que fizemos uma abolição inconclusa, inacabada. Não existiram políticas de reparação pelos danos de um passado criminoso. Ao contrário do que afirmam as forças discursivas conservadoras, nossa escravidão foi cruel. Foi um crime que precisa ser reparado.

NL: Pautas sobre igualdade racial ainda não são bem aceitas por uma camada da população. Esta é uma questão que está exposta no nosso meio social?

ZM: É uma franja da sociedade, um pedaço dela que não tolera a discussão do respeito à diferença. Mas é um tipo de racismo que vai ser negado, porque essa camada diz que já existiam desigualdades desde o período da escravidão. Eles não querem políticas afirmativas de combate a discriminação. Eles partem do pressuposto de que estamos em igual posição. Então, pensam que se a maioria da população carcerária é negra, isso ocorre porque nós somos despidos de moral. 

NL: Para finalizar, como define a sua história? 

ZM: O diferencial em minha vida, sendo filha de uma costureira e de um pedreiro, foi o fator família. É muito importante ter o reconhecimento étnico das famílias. Precisamos ter orgulho do nosso nome e do nosso sobrenome. As famílias precisam de apoio e de proteção para poderem realizar todas as suas funções.  Eu considero que foi uma fortaleza a minha configuração familiar e toda a comunidade onde fui criada. Isso tudo fez diferença. Minha mãe sempre dizia que o estudo é tudo. Minha família esteve  presente durante meu desenvolvimento educativo.

Foto em destaque: Davi Pinheiro

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