Alta no preço dos combustíveis faz trabalhadores reverem formas de transporte

Preferência por bicicletas é elevada entre pessoas que sofrem com as consequências da crise 

Por Carlos Enrique, Gabriel Gago e Rafael Barros

Mudança nas despesas econômicas. Medo de ser assaltado quando vai ao trabalho. Receio de acontecer algo e ninguém estar por perto para socorrer. Estas e outras preocupações permeiam o dia a dia de vários trabalhadores que precisam se locomover ao trabalho de formas alternativas, em Fortaleza, a fim de se adaptarem às dificuldades apresentadas pela alta no preço dos combustíveis. Hábitos antes comuns nas suas rotinas foram postos de lado em detrimento de outros mais econômicos e acessíveis. 

Mesmo em um cenário deteriorado pré-estabelecido, a economia nacional entrou em parafuso há um ano e meio — culpa, em parte, da eclosão da pandemia de Sars-Cov 2. Como reflexo, o preço dos combustíveis aumentou de forma exponencial desde janeiro deste ano. Para se adaptarem aos custos, milhares de trabalhadores precisaram usar meios de transporte mais baratos em detrimento de outros para se locomoverem. 

O radialista Marcelo Falcão, 46, foi um dos atingidos pelos efeitos colaterais do preço abusivo da gasolina. Para não passar aperto financeiro, o comunicador, que estava acostumado a fazer uso de veículos automotores, precisou vender sua moto e fazer uso de um meio de transporte que não lhe dê prejuízo financeiro. A sua escolha foi a bicicleta. 

As dificuldades financeiras e os custos do cotidiano o fizeram optar por um meio de viagem mais adaptável ao bolso. “A crise econômica afetou sim a minha preferência de locomoção. Realmente, como eu sempre estava acostumado a andar de carro ou moto, as coisas ficam mais caras e o salário não acompanha”, lembrou. 

Marcelo se viu obrigado a mudar de hábitos e se desfazer de coisas que faziam parte do seu catálogo de posses. “As contas vêm, não deixam de chegar. O que aconteceu? Tive que vender minha moto, por causa da gasolina cara. Eu tenho família para sustentar. Acabei me desfazendo da moto”, afirma.

Marcelo Falcão precisa percorrer 20 quilômetros de sua casa até a Unifor / Foto: Rafael Barros

Para o radialista, fazer uso de ônibus como forma de ir ao trabalho não passou por sua cabeça. A opção pela bicicleta lhe foi mais agradável. “Sempre andei de moto ou de carro. Nunca tive o costume de andar de ônibus ou de outro transporte público. Vou de bicicleta porque nela me sinto mais confortável e por meio dela mantenho minha saúde em dia”, reconhece. 

Funcionário da Universidade de Fortaleza, o radialista enfrenta um percurso de aproximadamente  20 quilômetros para chegar ao trabalho. Antes disso, precisa ficar pronto com antecedência para não chegar atrasado. Marcelo precisa se dispor fisicamente para enfrentar os desafios impostos pelo longo período que precisa pedalar.

Ao sair de casa, normalmente se prepara para batalhar contra os caminhos sinuosos que o levam à universidade. As difíceis condições climáticas são outros obstáculos a serem superados. “Durante o dia, saio no pior horário do sol, que é o sol do meio dia. Faço o percurso [até o trabalho] praticamente em subidas”, afirma. 

Para se proteger do sol escaldante, o comunicador se veste com uma blusa de manga longa preta e faz uso de uma proteção para o rosto. Como meio de driblar o pouco espaço na bicicleta, sacolas plásticas levam itens para o trabalho e uma mochila nas costas carrega materiais que serão usados durante sua estadia no emprego. 

Mesmo acostumado a trafegar por avenidas conhecidas e movimentadas, Marcelo conta que por vezes sente receio de estar sozinho. “Vou contra o vento. Tenho acabado de almoçar. Não posso ir rápido na bicicleta, porque eu posso passar mal, e vou sozinho. Se algo acontecer, não tenho ninguém ao meu lado para me socorrer. Até agora, tem dado certo”, declara.

Às 12h30, o radialista chega ao local de trabalho. Depois de cumprir o expediente, ainda lhe são reservados desafios durante sua volta para a casa. Ao sair tarde da noite, Marcelo ainda tem que enfrentar os vinte quilômetros que separam a universidade de sua casa. O funcionário mora no Antônio Bezerra, um dos bairros mais populosos de Fortaleza.

A preocupação com a violência e o desejo de chegar bem em casa para se juntar a sua esposa e filhos permeiam seus pensamentos. “É preciso ainda enfrentar os vinte quilômetros, pedindo a Deus para não aparecer nenhum indivíduo no caminho que queira tomar suas coisas. E o meu bairro, o Antônio Bezerra, não é muito movimentado, nem a minha rua. Sempre têm aqueles oportunistas”, afirma Marcelo.

O comunicador indica que vizinhos e conhecidos seus o perguntam se sua aventura de percorrer vinte quilômetros de bicicleta até o trabalho é verdade ou não. “Digo que sim. É a vida. Se alguma coisa acontece, temos que seguir. É assim que funciona, infelizmente”, declara. 

As mesmas pessoas que tecem esses questionamentos a Marcelo sobre a validade do seu meio de locomoção, contestam os seguidos aumentos dos preços dos combustíveis e indicam estarem pensando em largar mão de seus veículos automotores por uma bicicleta.

O técnico em informática Joedson Bezerra, 28, companheiro de Marcelo na Universidade de Fortaleza é outro que analisa a viabilidade de se manter um veículo alimentado por combustíveis em casa. “Tenho uma moto como meio de transporte e ultimamente eu venho analisando uma possível troca nesse meio de transporte, na qual, queria substituir a moto por uma bicicleta, devido os constantes aumentos no preço, o que vem pesando no bolso. A alternativa mais viável seria trocar por uma bicicleta”, declara. 

Foto em destaque: Rafael Barros


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