“Historicamente existe uma discriminação, um desprezo pela Caatinga”

Coordenador geral da Associação Caatinga, Daniel Fernandes é graduado em Direito pela Universidade de Fortaleza, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas e é mestrando em Administração pela Unifor

Por Pedro Rocha  

A Caatinga, junto com o Cerrado, é o único bioma do Brasil a não estar presente na Constituição Federal como patrimônio nacional. Com trabalho que alcança quatro mil famílias, a Associação Caatinga atua há 23 anos na Reserva Natural da Serra das Almas, nos municípios de Crateús-CE e Buriti dos Montes-PI, para a valorização, conservação e restauração da fauna e flora local.

Em entrevista ao Newslink, Daniel Fernandes explica a importância de defender o bioma nordestino, o papel da associação na Serra das Almas, a visão estereotipada da região e os desafios para o futuro.


Daniel Fernandes “Temos que agir de forma rápida para um desenvolvimento sustentável que garanta o acesso aos recursos naturais das próximas gerações” / Foto: Arquivo

NewsLink: Qual é a importância de defender um bioma nativo do Nordeste como a Caatinga?

Daniel Fernandes: A conservação de um bioma que é exclusivamente nosso, um patrimônio do Brasil, se torna extremamente importante para a sobrevivência das pessoas que habitam o semiárido nordestino. Preservar a fauna e a flora gera a produção de água, a fertilidade do solo, a mitigação dos efeitos do aquecimento global, etc. A preservação do bioma é vital para a sobrevivência das pessoas, mas temos que agir de forma rápida para termos um desenvolvimento sustentável que garanta um acesso aos recursos naturais para as futuras gerações. A Associação Caatinga, quando foi fundada, tinha a missão de preservar a carnaúba, árvore nativa do Nordeste, mas enxergamos que havia lacunas e uma omissão do Estado. Desenvolvemos, então, um modelo integrado de conservação da Caatinga, sendo a união entre a conservação e o desenvolvimento de comunidades locais.

NL: Qual feito da associação você considera mais importante nesses 23 anos? Quais os desafios do futuro?

DF: Para mim, o principal legado da Associação Caatinga é contribuir para a valorização do bioma, colocá-lo em um papel de destaque. Para isso, tivemos o tatu-bola como mascote da copa do mundo, as ações de comunicação. A Caatinga é muito carente de publicação técnica, e a associação tem primado em ocupar essa lacuna deixada, para a valorização no cenário nacional. Analisando a Constituição federal, no artigo 225, que trata do meio ambiente, há todos os biomas como patrimônio nacional. Só a Caatinga e o Cerrado não estão presentes. Historicamente há um desprezo e temos feito esse papel (de reverter). Para o futuro, o principal desafio é aumentar o nível de conservação e recuperação da Caatinga. O bioma já perdeu cerca de 50% da cobertura vegetal. Precisamos restaurar a Caatinga.

NL: A associação lançou, em agosto de 2021, a 4ª fase do projeto “No clima da caatinga”, com a implementação de medidas ambientais e científicas. As comunidades da região já estão usufruindo das novidades?

DF: O projeto começou em agosto e está na carteira de clima da Petrobras. Todas as ações são voltadas para a mitigação do aquecimento global. Lançamos a quarta fase com o plantio de cinco mil mudas de árvores nativas. O projeto tem duração de três anos, e estamos na fase de preparação das mudas, para plantá-las na próxima quadra chuvosa. As armadilhas fotográficas são outra medida. Já estamos fazendo o monitoramento da fauna, que tem subsidiado uma série de pesquisas com felinos e primatas. Por elas estamos vendo várias onças pardas. Essas pesquisas mostram que a fauna está sendo conservada: é um indicador de conservação. A onça parda, dentro da cadeia alimentar da Caatinga (com exceção da onça pintada, que está extinta na região) é topo de cadeia, o maior predador local. Então, quando a encontramos, é porque a cadeia alimentar do ambiente está ecologicamente equilibrada.

NL: Quais são as espécies mais representativas que estão ameaçadas de extinção no bioma? Como é realizado o trabalho na serra das almas?

DF: Temos várias espécies ameaçadas de extinção, como a onça pintada, onça parda, o soldadinho do Araripe, taquaruçu do Nordeste, o tatu-bola, entre outros. A associação atua na proteção dessas espécies por meio da criação de unidades de conservação, que são legalmente protegidas. A Serra das Almas é uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), e lá temos 6.285 hectares de Caatinga preservada. No Estado do Ceará existem 40 RPPNs, contando com a Serra das Almas: 26 foram constituídas com o apoio direto da associação. Trabalhamos também auxiliando o poder público na criação de unidades de conservação pública. São feitas parcerias com instituições de ensino para estudo sobre o habitat das espécies, e estamos mapeando as rotas dos felinos. Com as informações colhidas podemos propor a criação de novas unidades.

Onça parda é registrada pela armadilha fotográfica. Sensores instalados nas árvores ajudam os biólogos a mapearem as rotas percorridas pelos animais / Foto: Arquivo

NL: A atuação da Associação Caatinga acontece por sete eixos de atuação, sendo dois deles a educação ambiental e as campanhas de comunicação. Como esses eixos são coordenados e quais públicos são atingidos?

DF: Os dois eixos são direcionados para todos os públicos, que englobam desde crianças de primeira infância até agricultores idosos. O objetivo é revelar o surpreendente mundo da caatinga. Só se defende e protege aquilo que é conhecido. Infelizmente, o bioma ainda é muito desconhecido. Existe uma visão estereotipada de que a mídia e a própria escola, por meio dos livros, sempre retrataram a caatinga como um ambiente inóspito, seco, com solo rachado e animais mortos. Essa parte, infelizmente, existe, mas também há uma Caatinga rica em biodiversidade, verde e exuberante, com animais que só existem lá. As ações que desenvolvemos seguem a linha de engajar a comunidade na proteção da Serra das Almas, desestimulando a caça, restaurando a cobertura florestal e estimulando a criação de novas unidades de conservação.

NL: O desenvolvimento passa pelo uso das tecnologias sociais?

DF: Sim, trabalhamos com elas. As tecnologias sociais são sustentáveis, e harmonizam a relação de quem vive no seminário com o bioma. Temos capacitação de pesquisa, trabalhos com cisternas de placa, experiências com abelhas nativas. Além das duas áreas citadas na pergunta anterior, temos mais dois eixos de atuação, que são as políticas públicas e a pesquisa científica. O bioma Caatinga é pouco estudado, se comparado com outros biomas do Brasil. Estimulamos isso. Existem trabalhos com felinos, espécies de insetos e plantas. Todos acontecem na Serra das Almas.

Ameaçado de extinção, o tatu-bola, mascote da Copa do Mundo 2014, foi escolhido por indicação da Associação Caatinga. O intuito foi alertar para os riscos que ameaçam a espécie / Foto: Samuel Portela

NL: Os trabalhos realizados com as crianças de primeira infância têm qual objetivo prático?

DF: A Associação Caatinga tem na sua carteira de projetos o “No clima da caatinga”, que é patrocinado pela Petrobras S.A, por meio do programa Petrobras Socioambiental. Uma das linhas do projeto é levar educação ambiental para esse público, com oficinas de pintura, teatro de fantoches em escolas. Temos a mascote Tatutinga, que levamos às escolas. Agora, no projeto, vamos fazer o acompanhamento psicopedagógico de 150 crianças nos municípios de Crateús-CE e Buriti dos Montes-PI, que vai dar suporte às famílias. Temos essa preocupação. Desenvolvemos um caderno que tem várias espécies de animais para a criançada pintar. Está tudo disponível no site da associação (serviço no final da entrevista).

NL: A associação caatinga está com a campanha “A caatinga vale mais em pé”. O que é essa novidade e o que podemos esperar?

DF: É uma campanha de comunicação que estamos fazendo no combate à caça. Temos que conscientizar as pessoas de que é melhor para todos preservar a biodiversidade do que matar e caçar os animais. A partir de hoje, 8 de novembro, vamos mostrar a importância de evitar a caça, evitar os incêndios florestais. É uma questão de sobrevivência da espécie humana. Para aqueles que são negacionistas, é a sobrevivência dos negócios. Não conheço uma atividade que funcione sem água no processo. Então temos que ter essa consciência. Só vamos conseguir habitar este planeta se cuidarmos da natureza.

Serviço:

www.noclimadacaatinga.org.br

Instagram: @noclimadacaatinga @acaatinga

Facebook: No Clima da Caatinga

E-mail: caatinga@acaatinga.org.br

Telefone: 85 9680-7500

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