Após 5 meses da origem da variante Delta, Brasil é um dos países menos afetados

Devido ao não afrouxamento dos protocolos na chegada da nova forma do coronavírus, o País se saiu melhor em relação a outras nações

Por Vinícius Gabriel

Desde que foi detectada na Índia, agravou a crise sanitária no país, é responsável pelos últimos óbitos na Rússia e aumentou os casos da doença em muitos países, como os Estados Unidos, Israel e nações do do Reino Unido. Enquanto no Brasil, a história é diferente. No Ceará, um caso registrado pela Secretaria da Saúde este mês, exigiu cautela dos profissionais da saúde.

Mesmo com o medo de aumentar a crise sanitária do País, a variante chegou e causou poucas mudanças no cenário nacional. Em cinco meses, desde sua chegada, a média de sete dias de óbitos pelo novo coronavírus declinou em 84%, enquanto no Reino Unido e em Israel as mortes foram cinco vezes maiores e nos Estados Unidos foi de 50%.

Segundo José Eduardo Levi, doutor em Microbiologia pela USP (Universidade de São Paulo), a variante chegou e não causou a terceira onda, surpreendendo muitos que fizeram previsões catastróficas. Devido a isso, foram levantadas questões de como não houve esse estouro de casos no país. Uma delas foi a devastação da variante gama que foi identificada em março, na cidade de Manaus, causando uma crise enorme. Entretanto, há a possibilidade de que muitas pessoas contraíram o vírus covid, e produziram anticorpos e fortificaram a proteção após a vacinação. Com isso, o panorama se tornou menos conveniente para a variante delta.

Segundo Emanuel Maltempi de Souza, doutor em Bioquímica pela UFPR (Universidade Federal do Paraná), devido a pessoa ter pego covid e se vacinado, a proteção aumentou, causando uma imunidade híbrida que pode conter a variante delta. Porém ele falou que, pelo fato da segunda onda ter sido mais intensa, essa hibridização foi maior no País em relação a outros, como Israel, por exemplo, que o pico de variante alfa em é muito menor proporcionalmente do que o pico de gama no Brasil. A incidência que o Brasil atingiu é de 30, 40 vezes maior do que a de Israel, que teve um efeito bem menor.

Outro fator importante para a não expulsão da variante foi o uso de máscaras, já que aqui o uso foi continua obrigatório na maioria dos lugares, enquanto nos EUA, Índia e Reino Unido, devido às pressões sofridas, flexibilizaram a obrigatoriedade exatamente no momento em que ele chegou. Isso é reforçado por Rejane Grotto vice-coordenadora do Vigenômica, rede de vigilância genômica do coronavírus da Unesp, que disse que além das pessoas estarem usando máscara, muitas também mantém o distanciamento, utilizam o álcool em gel e, a maioria se vacinou, principalmente a população idosa, que é a mais vulnerável. Além disso, temos a dose de reforço que pode ter combinação de vacinas para reforçar ainda mais a proteção ao vírus.

A vacinação em massa ajudou no combate à variante Delta / Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Mesmo com a improbabilidade de uma contaminação em massa pela variante, a cautela tem que ser pregada, já que não há dados suficientes para confirmar isso. Segundo a rede genômica internacional, demorou cerca de 30 dias para a Delta ter se tornado dominante no Reino Unido, 70 dias nos EUA e 80 no Brasil que, em tese, a cepa teve o ciclo mais lento, porém o sistema de sequenciamento de variantes no País é precário. Isso fica claro quando José Eduardo Levi reforça que a rede genômica brasileira melhorou depois que a variante Gama foi descoberta por japoneses e não pelos brasileiros. Ele disse que ao ter, todo mundo se mobilizou. Enquanto o País estava sequenciando 0,0%, o Reino Unido já estava sequenciando em torno de 5% dos casos. Hoje a faixa se encontra em 0,2%, sendo que não é o suficiente, pois ele acredita que 1% seria o número ideal.

Um caso que representa bem a necessidade de cautela aconteceu neste mês de outubro no Ceará. Segundo a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), 208 pessoas se infectaram e três morreram pela variante Delta, entre eles viajantes e residentes. Dados dos sequenciamentos genômicos das amostras positivas de Covid-19 realizados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Ceará (Hemoce) e o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), mostram que, dos pacientes identificados com a cepa indiana, 105 são homens e 103 são mulheres, com faixa etária predominante entre 20 e 49 anos. Destes, 12 são tripulantes de navios das Filipinas e 42 são viajantes que testaram positivo no Centro de Testagem do aeroporto da Fortaleza e as procedências deste segundo grupo são Belo Horizonte, Brasília, Foz do Iguaçu, São Paulo, Maceió, Recife, Rio de Janeiro e México.

Já os óbitos foram registrados pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde do Ceará (Cievs) que as vítimas são três homens, com idades de 41, 45 e 69 anos. Dois são residentes de Fortaleza, ambos sem histórico de viagem e não vacinados; o terceiro é um viajante filipino, tripulante do navio Pretty Lady, que registrou surto de Covid-19 entre os embarcados enquanto estava ancorado no Porto do Mucuripe. Não há informação de vacina aplicada nele. Das 208 pessoas infectadas, 86 estavam vacinadas com, pelo menos, a primeira dose. Destas, 46 possuem as duas doses.

No Ceará, são 37 municípios infectados com a variante. Segundo Ricristhi Gonçalves, secretária executiva de Vigilância e Regulação da Sesa, a cada semana percebe-se um crescimento na quantidade de municípios com identificação de pacientes com a variante que, nesse momento, é a que mais gera preocupação no mundo. Além de monitorar e rastrear esses casos, também é necessário tomar providências para diminuir essa transmissão viral, para evitar espalhamento dos casos e surgimento de novas variantes. A secretária finalizou dizendo que, pensando nisso, a Sesa inaugurou um Centro de Testagem na Rodoviária de Fortaleza, pois houve a percepção de que muitos pacientes positivados chegam ao Estado de ônibus, então é importante acompanhar esse cenário.

Apesar da debilidade desses dados no País, há um consenso de que o maior impacto da variante já deveria ser sentido. Na questão de hospitalizações pela Delta, o Brasil não teve o impacto semelhante ao de outros países, não contando com as exceções, é claro. Com isso, os especialistas recomendam o prosseguimento das medidas de combate ao vírus, como uso de máscaras e distanciamento social, pelo menos até o fim do ano, para que em 2022 a doença esteja totalmente controlada e normalidade instaurada novamente.

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