Fernanda da Escóssia debate seu novo livro no Mundo Unifor

A palestra teve como base o livro da jornalista “Invisíveis: uma etnografia sobre brasileiros sem documento”, que traz as trajetórias de brasileiros adultos sem certidão de nascimento

Por Vinícius Gabriel

A invisibilidade de pessoas que não têm documento de identificação no Brasil foi a tônica da conversa da jornalista Fernanda da Escóssia, na última quinta-feira, 21, durante o Mundo Unifor. A mediação da palestra foi feita pela professora de direito, Danielle Cruz.

Fernanda começou o debate relatando o processo de criação do livro “Invisíveis: uma etnografia sobre brasileiros sem documento”, com a seguinte pergunta: “O que você é quando não possui documento?”, e complementou com dados do IBGE de 2015 que contabilizaram cerca de 3 milhões de brasileiros de variadas idades sem documentos, mas não há atualizações sobre estas estatísticas.

Para fazer essa descoberta, ela passou dois anos investigando o dia a dia de um serviço público e gratuito de emissão de certidões instalado num ônibus na Praça Onze, no Centro do Rio de Janeiro. É lá onde as pessoas adultas vão tentar conseguir o primeiro documento de sua vida.

Mas, por que elas não têm documento?

Fernanda explicou que a maioria é pobre, e que não possui documentos porque, muitas vezes, seus pais não têm ou perderam e com isso não consegue registrar seus filhos que, automaticamente, não irão possuir documentos, alastrando ainda mais o problema durante as gerações. Outro fator é o abandono paterno, ou seja, a mãe não registrou esperando que o pai quisesse registrar, e esse companheiro não registrou, resultando no crescimento da criança sem documentos até a fase adulta.

Na conversa ressaltou que a falta de documentos é um problema que tem tudo a ver com a desigualdade brasileira, pois a falta de documentação é um problema transversal, ou seja, atravessa várias camadas da desigualdade brasileira, como machismo estrutural, racismo estrutural. Com isso ela conhece pessoas com diferentes histórias de vida e as ajudou a reconstituir essas histórias.

Ao perguntar para essas pessoas como elas se sentem sem documento, as pessoas disseram que se sentem como se não existissem. Apesar de terem um direito negado, elas sentem vergonha de não terem documentos, como se fossem culpadas por isso. Relatos de ir pra delegacia, ir ao posto de saúde e mentir que esqueceu documentos, entre outros, foram ouvidos por Fernanda.

A jornalista esclarece que, devido ao sistema de documentação brasileiro, chamado de sistema encadeado, as pessoas que não possuem certidão de nascimento, não podem tirar outro documento, ou seja, não podem votar, não têm emprego formal, conta em banco ou bens em seu nome. Apenas consegue atendimento médico de emergência e não pode ser incluído em políticas sociais.

Depois de um breve debate com a professora Danielle sobre questões etnográficas envolvendo o livro, Fernanda encerra lembrando o protagonismo das mulheres na busca pelos direitos, muitas são mães, filhas, irmãs que assumem a dianteira na busca por documentação e reforçou isso com relatos contados a ela. Houve ainda o convite para o lançamento do livro, que será dia 25, às 18 horas, e acontecerá virtualmente no canal do YouTube da FGV, editora da obra.

Graduada em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Fernanda é doutora em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV e mestra em Comunicação pela UFRJ. Trabalhou nos jornais O Globo, Folha de S. Paulo e O Povo, em Fortaleza. Tem ampla experiência em reportagem, redação e edição jornalísticas, jornalismo político, jornalismo e direitos humanos, coordenação de equipes, formação de jovens profissionais e formulação de parcerias estratégicas.

No jornalismo e na vida acadêmica, a desigualdade social brasileira, em suas variadas facetas, é o foco de sua produção. Sua pesquisa de doutorado, sobre brasileiros sem documento, ganhou menção honrosa no Prêmio Antropologia e Direitos Humanos, concedido pela Associação Brasileira de Antropologia.

Realizado a cada dois anos, o Mundo Unifor é o maior evento de disseminação científica, cultural, artística e de humanidades da região Nordeste, no qual promove a vinda de profissionais do cenário nacional e internacional para debater temas de diversas áreas.

Foto em destaque: Divulgação

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