Porque Daniel Craig encerra “No time to Die” como o James Bond mais complexo dos cinemas

Chegou aos cinemas as novas aventuras do agente secreto 007, última que será protagonizada pelo ator. Entre idas e vindas, Craig teve maior carga dramática e teor emocional em seus filmes

Por Alec Bessa

No cinema desde 1962, James Bond já foi interpretado por seis atores em 23 longas oficiais: Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig. Com a era Craig chegando ao fim, a Claquete resolveu destacar algumas características do personagem. Importante é perceber que os vários Bonds, Connery a Pierce Brosnan, tinham as características de serem mulherengos, beberrões, bon vivants. Os filmes nunca foram fundo nos aspectos psicológicos e emocionais do personagem, diferente do Bond interpretado por Daniel Craig. Nos cinco filmes em que interpretou o personagem, conflitos de abandono parental, alcoolismo, vício em sexo e carência afetiva vêm à tona e são problematizados.

Bond foi criado em 1953 pelo escritor Ian Fleming. Nos seus livros ele conta as histórias de um agente secreto do Serviço de Inteligência Britânica, o MI6. O código “00” significa que este é o sétimo agente dessa categoria, que possui licença para matar, sem necessariamente cumprir pena alguma, pois os fins justificam os meios da missão. Essa alcunha é sempre, pelo menos até o presente momento, pertence a James Bond.

Em Cassino Royale, o primeiro da saga, conhecemos James Bond, um agente recentemente promovido à categoria 00. Sanguinário, logo no início do filme, Bond se mostra um assassino frio e impiedoso. Não possui relacionamento emocional com ninguém, seja namorada ou amigos. Ele apenas se relaciona em sua vida com sua chefe “M”, uma senhora que, por vezes, age como figura quase maternal. Curiosamente, um pouco mais adiante no filme, ficamos sabendo que James é órfão, e não teve relação alguma com seus progenitores. Sendo assim, podemos deduzir que o seu distanciamento com outras pessoas se deve ao medo de abandono ou traição, e de não ter tido um relacionamento significativo com seu pai e muito menos sua mãe.

Daniel Craig interpreta James Bond em Cassino Royale / Foto: Divulgação

Para Bond, as mulheres são apenas objetos banais para saciar a sua libido ou são fontes de informação para seu trabalho de agente secreto. Já o álcool é uma válvula de escape para seus sentimentos frustrados e a coisa mais importante de sua vida é o seu trabalho, considerado sempre como uma missão. Essas ferramentas constituem a subjetividade e a construção do “eu” do 007.

Em Cassino Royale há um único momento em que Bond vive um romance com a personagem Vésper. Ele considera até abandonar tudo, inclusive sua vida de agente secreto, para ficar com ela. Porém, ao descobrir uma traição dela envolta em uma teia de mentiras que leva à sua morte, Bond volta a endurecer. Se fecha cada vez mais para as pessoas e se torna novamente mais dependente do álcool, dos tranquilizantes, da violência e dos assassinatos, que fazem parte do seu trabalho.

Na análise que a psicóloga Raina Oliveira faz do personagem ele se define pelas carências. “É perceptível o quanto James Bond é guiado pelo desejo compreendido aqui com a falta, a ausência de várias características importantes para nós, enquanto humanos e indivíduos. O quanto isso o define e o transforma em um workaholic sem conexões reais”.

Já em Skyfall, Bond, então com seus quase 50 anos de idade, começa a sentir o peso da vida de agente que levou até então. O corpo já não é tão forte devido ao abuso de álcool e remédios para a dor, o seu equilíbrio emocional vive abalado. Mas isso não o impede de fazer uma última visita à casa que um dia foi de seus pais e revelar parte de suas memórias, quando afirma: “eu sempre odiei esse lugar, de qualquer forma”.

Mas é em Skyfall que Bond perde a única pessoa por quem se importava. Sua chefe, “M”, senhora de idade e voz maternal. Em todos os filmes, o personagem chora apenas duas vezes, nesta ocasião e anteriormente, anos antes, quando da morte de Vésper. Assim, Bond está sempre solitário, traço comum em seus filmes.

Alcoolismo

Uma interessante pesquisa sobre saúde pública, realizada por cientistas da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, analisou os 24 filmes do agente secreto que foram lançados até hoje. Eles chegaram à conclusão de que Bond pode ser enquadrado como um alcoólatra. O estudo, publicado no Medical Journal of Austrália, revelou que, somando todos os filmes, o agente bebeu alguma bebida alcoólica 109 vezes, ou 4,5 vezes, em média, para cada capítulo da série de filmes.
O Bond do filme Quantum of Solace é o que mais bebe em um único filme. Craig, que fazia sua segunda atuação no papel do agente, virou seis copos de drink Vésper, bebida que consiste em uma mistura de altas doses de whisky e vodca, quantidade que, para muitos, poderia ser fatal. Essa combinação foi criada por Bond para homenagear sua falecida namorada. De acordo com Raina Oliveira, “o alcoolismo é um adoecimento que também deriva de sérios problemas psicológicos e uma grave carência em outros aspectos da vida humana, fora o trabalho e banalidades”. O fim dessa jornada, humana e às vezes nem tanto saudável do James Bond de Daniel Craig, vamos descobrir agora, porém, como já diz o título do filme “Sem tempo para morrer” (No Time To Die).

Serviço:

“007 – No Time to Die” está em cartaz em: Kinoplex North Shopping, UCI Kinoplex Iguatemi Fortaleza, Cinépolis RioMar Fortaleza, Centerplex Via Sul e nos demais cinemas da cidade.

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