Em campos opostos, o apagamento da memória e o resgate do patrimônio da cidade que teima em resistir ao abandono da história

À espera de tombamento, muitos prédios que guardam vestígios históricos de Fortaleza sofrem com a degradação e desgaste. Multas em casos de não regularização desses edifícios podem chegar a 21 mil reais

Por Mario Henrique Lima e Taisy Ribeiro

Quem nunca foi ao Centro da cidade e se espantou com estacionamentos onde antigamente eram casarões tradicionais da cultura cearense? Já é de costume do fortalezense se admirar quando anda em locais que costumavam ser edifícios grandiosos outrora. Pelo menos quatro prédios tombados provisoriamente foram destruídos na capital nos últimos três anos, segundo dados da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor).

“É um golpe duro”, afirma Marcus Lima, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Fortaleza. Ele atua como representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-CE), sobre a demolição dos edifícios arquitetônicos de Fortaleza.

Prédio São Pedro, o Copacabana Palace cearense, sofre graves riscos de demolição / Foto: Diário do Nordeste

O exemplo mais recente do descaso sofrido por essas construções históricas é o edifício São Pedro, localizado na Praia de Iracema, que estava em vias de tombamento há cinco anos. A prefeitura indeferiu seu tombamento em agosto deste ano e agora se encontra em risco de demolição. O primeiro prédio construído na orla de Fortaleza em 1951, hoje sente as dores do abandono nas marcas de sua estrutura.

Casarão dos Gondim, a edificação tinha o estilo de arquitetura Eclética e elementos Art Déco, principais referências arquitetônicas no século XIX e XX / Foto: Diário do Nordeste

A demolição do Casarão dos Gondim em julho deste ano, foi outro exemplo. O prédio, que estava em vias de tombamento desde 2011, transformou-se em mais um estacionamento no Centro da cidade. O solar, que completaria 110 anos em 2022, era localizado na Rua General Sampaio. O espaço também promovia encontros do cenário musical de Fortaleza.

Lima pontua, também, sobre a importância da educação patrimonial para manter a consciência de preservação entre gerações. Ele argumenta que há uma relação identitária mesmo indiretamente entre as construções e a sociedade. “É para fazer as pessoas entenderem porque aquele bem é de interesse público”, explica.

“A vida é dinâmica, as coisas nascem, crescem e morrem. Agora uma das preocupações humanas importantes é com a memória. Resguardar a memória é algo que nos permite conhecer como agimos no passado, se fizemos certo ou fizemos errado, para no presente evitar os erros que cometemos e ofertar um futuro melhor”, disse o advogado Humberto Cunha, professor de Direito Cultural da Universidade de Fortaleza.

“Todo dano à memória coletiva é um dano que afeta a todos”
professor Humberto Cunha

Os dilemas inseridos no processo de tombamento são complexos, segundo Cunha, pois, em sua avaliação, o município não possui uma estrutura administrativa adequada para conduzir patrimônios culturais tombados e isso é fruto de problemas de natureza política, jurídica e social. “É um caos normativo geral que existe no Brasil, porque a Constituição determina que em termos de fazer as leis para proteger o patrimônio cultural, deve ser a União editando as normas gerais, os estados (normas) complementares e os municípios as (normas) suplementares. E isso é meio caótico ainda”, afirma o professor.

Uma visão sobre a cidade
Raquel Sant’Anna, foi graduanda no curso de Arquitetura e Urbanismo e, ao iniciar o curso de Jornalismo, sempre soube que seu trabalho final seria envolvendo arquitetura / Foto: Arquivo Pessoal

“É uma relação importante porque eles são os edifícios históricos da cidade que eu moro, são edifícios por onde eu passo, que eu vejo e quando eu estudo sobre a história desses prédios eu estou estudando sobre a história da minha cidade”. É dessa forma que Raquel Sant’Ana, aluna do curso de Jornalismo, da Universidade de Fortaleza, repousa os olhos sobre a cidade com seu livro-reportagem a respeito do patrimônio arquitetônico da capital do Ceará.

O livro, com o título provisório “Fortaleza: do Mucuripe ao Centro”, já possui um sentimento bem sugestivo e contará a história de quatro edifícios, realizando um percurso pela cidade: Farol do Mucuripe, São Pedro, Casarão dos Gondim e o Cineteatro São Luiz. A ideia arquitetada pela autora é que a obra não será tão tradicional assim, porque será contada em forma de quadrinhos.

O objetivo de Raquel é explicar e ressaltar a importância da conservação do patrimônio arquitetônico e ainda como a valorização desses bens pode ser benéfica para a população.

Multas para irregularidades de edifícios tombados ou em vias de tombamento podem chegar a 21 mil reais

De acordo com o Código da Cidade (Lei Complementar nº 270/2019), a Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) informa que executar obra ou serviço de reparo sem a devida licença é considerada infração grave, passível de multa que pode variar entre R$ 135,00 a R$ 21.600,00.
Os casos de denúncias sobre obras ou serviços ilegais em patrimônios públicos podem ser realizados por meio do aplicativo Fiscalize Fortaleza e pelo número 156.

One thought on “Em campos opostos, o apagamento da memória e o resgate do patrimônio da cidade que teima em resistir ao abandono da história

  • 6 de outubro de 2021 em 18:08
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    Excelente matéria, muito importante chamar a atenção para o que vem acontecendo. Parabéns!

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