“Uma cidade sem arte é uma cidade sem vida”

por Jean Dantas

O Fortaleza Cromática é um projeto que busca promover nas  mídias sociais grupos de arte de rua, suas histórias, atores, estéticas e temáticas. O objetivo é a produção de um mapeamento relativo aos coletivos artísticos e suas intervenções na capital, como forma de valorização da arte urbana que, por tantas vezes, é vista como sinônimo de marginalização.

“Você também é parte das Telas, Palavras e Riscos desse quadro em movimento. Venha pintar com a gente a Fortaleza Cromática!”, exclama a publicação na sua conta no Instagram. O trabalho também pretende identificar, investigar e estudar as trajetórias e circuitos de obras de artistas urbanos na cidade de Fortaleza, além dos desafios enfrentados por eles em tempos de pandemia. A intenção é de que todo o material coletado seja compartilhado para livre acesso. 

A pesquisa é desenvolvida pelo Laboratório das Artes e das Juventude (Lajus), da Universidade Federal do Ceará (UFC), e coordenada pela socióloga e pesquisadora de produtividade do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Dra.ª Glória Diógenes. O projeto é similar à pesquisa sobre artes urbanas em Lisboa, realizada  pela coordenadora em 2013, com o intuito de “entreabrir portas de passagem e ampliar os olhares e gestos que fazem a cidade”.

Glória Diógenes é sociólogo e coordenadora do projeto Fortaleza Cromática (foto: acervo pessoal)

O Fortaleza Cromática aposta em uma identidade visual moderna, com traços voltados para a valorização da arte urbana de Fortaleza e a utilização de cores vívidas como forma de enfatizar a estética, temática bastante trabalhada no projeto. Nos textos, é possível observar a presença de palavras com o gênero neutro, cada vez mais usado por diferentes comunidades como uma forma de inclusão e pertencimento. Para conhecer mais o trabalho do Fortaleza Cromática, clique aqui

Para discorrer sobre o “Fortaleza Cromática” e as artes urbanas, o NewsLink conversou com Glória Diógenes. Nesta entrevista, a ex-Secretária Municipal de Direitos Humanos trata de questões sociais, projetos e conta sobre a sua trajetória profissional.

NewsLink: De onde surgiu a ideia de intitular o projeto de “Fortaleza Cromática”? 

Glória Diógenes: Eu acho que foi, num momento inicial, minha [ideia], porque eu venho trabalhando essas artes de rua há algum tempo. O Fortaleza Cromática vem exatamente com essa ideia de “vitrinizar” esse potencial das artes de rua em Fortaleza, porque é significativo que Fortaleza afirme seu potencial criativo. A ideia também é unificar as políticas públicas, unificar outras universidades, unificar coletivos, porque Fortaleza Cromática não é um projeto só nosso, é um projeto da cidade. É assim que a gente pensa.

NL: Diante da proposta estabelecida pelo Fortaleza Cromática, qual é a importância do projeto para o cenário cultural contemporâneo da cidade? 

GD: O Fortaleza Cromática é importante porque ele condensa. É como se fosse um lugar de condensação, de organização, de concentração e de visibilidade das artes de rua em Fortaleza. Ou seja, isso que aparece no festival, que aparece no muro, que aparece no viaduto, que aparece no jornal, que aparece nas redes sociais de forma dispersa e fragmentada. O Fortaleza Cromática concentra nesse mapa das artes visuais de Fortaleza, das artes urbanas, e, com isso, ele integra e cria uma malha entre os coletivos. É importante também dizer que Fortaleza é uma das cidades consideradas mais violentas do Brasil e do mundo. Ela está marcada por estatísticas de mortes, de crimes. Então, na medida em que a gente mostra uma Fortaleza Cromática, a gente está mostrando Fortaleza também como pulsão de vida, como um lugar de criação, como lugar de afirmação da resistência da criação. Eu acho que essa é a maior importância do Fortaleza Cromática.

Portal do Fortaleza Cromático (imagem: https://fortalezacromatica.tumblr.com/)

NL: Quais são os maiores desafios de se executar um projeto em tempos de pandemia? 

GD: São muitos, né? Primeiro, porque estamos “fora”, isolados. Não estamos na cidade, nós estamos olhando a cidade de fora. Muitos coletivos não estão podendo pintar a cidade, não estão podendo intervir na cidade. Então, o desafio agora é olhar para a cidade através das paisagens digitais, é ver que essa cidade migra para as paisagens digitais, que muitas das intervenções são lembradas. Existe todo um acervo, um arquivo de memórias nas redes sociais. Mas também pode acontecer, e eu tenho visto, que no isolamento alguns grupos, de madrugada, acabam fazendo algumas intervenções que migram para a internet. Então, nesse momento, nosso desafio é entender como internautas. Fazer uma etnografia do ciberespaço, estar no ciberespaço entendendo que ele não é só um lugar virtual em oposição ao real, como muitos pensam. Ele é uma dobra da cidade, uma dobra que pulsa da cidade. É como se a cidade escoasse para os meios digitais e os meios digitais devolvessem para a cidade imagens de si. É um desafio também dizer que que nós estamos vivos, potentes, que nossa vontade de criação continua e que ela não para por isso. Ela migra para onde pode. É como água que você tenta fechar, isolar e mesmo assim a água encontra um ‘furinho’ e escoa. Assim é a arte, assim é a criação, assim é a vontade de criar e recriar a existência.

NL: Quando e de onde surgiu seu interesse por questões sociais e urbanas? 

GD: Eu creio que desde que eu entrei nas Ciências Sociais. Entrei  em 1977 e, se há um eixo comum em todas as minhas pesquisas, é sobre a cidade. A cidade recorta todos os meus campos de pesquisa e sempre esteve, como sendo um lugar, uma paisagem, onde se concentra toda a dimensão do comportamento humano, das suas relações, dos encontros e desencontros, dos conflitos, da pulsação da arte, da pulsação da recriação, do imaginário urbano. Enfim, todas essas questões, elas sempre, desde o início do curso de Ciências Sociais, me seduziram. Eu acho que também surgiu porque eu sempre fui curiosa sobre comportamentos sociais. Me lembro, bem jovem, que eu pegava os ônibus pra ir pro Centro, sempre sentava na última cadeira e ficava a observar as pessoas que entravam, saíam. Eu andava muito pela cidade, andava muito a pé, eu ia pra escola a pé, voltava a pé. Então eu me lembro muito de olhar pras famílias, olhar que naquele momento existiam mais casas do que apartamentos, como se dava a vida em família, como [vivia] o pipoqueiro que tava na rua, como ele começou a ser pipoqueiro, qual era sua clientela. Enfim, eu sempre fui curiosa. Eu sempre tive essa atração pela cidade como um receptáculo, como uma grande concha de experiências humanas, da condição humana.

NL: O que a impulsiona ou serve como motivação para continuar a atuar na área? 

GD: O que me impulsiona é imaginar que a cidade é um celeiro de transformação social, um celeiro vivo, é um lugar de pulsação de vida, de reconstrução das experiências, de construção e reconstrução. Sou socióloga numa interface muito próxima da antropologia. Digo que sou uma socióloga “antropologizada”. Essas dimensões se alinham e aí essa vontade de continuar foi de perceber que o cientista social tem um papel importante de compreender os conflitos sociais, de compreender as tramas da sociabilidade e de intervir, como foi o projeto Enxame, como [quando] estive na condição de Secretária de Direitos Humanos e como agora no laboratório que eu coordeno das artes e da juventude. Hoje, a gente tem vários projetos, sendo o principal o Fortaleza Cromática, onde a gente destaca esses coletivos de arte na cidade .

NL: Desde o início de sua trajetória nas ciências sociais até hoje, quais mudanças e evoluções pode destacar em relação às artes urbanas em Fortaleza? 

GD: Eu acho que isso tudo começa com o movimento hip-hop, essa relação arte e cidade realmente se inicia. O hip-hop tem um papel fundamental nos anos 80, em Fortaleza. E os graffitis, na produção dos graffitis, numa linguagem urbana, numa linguagem estética é mais pictórica. E, também, as pichações, a gente não pode dizer que as pichações não são expressão. Alguns acham que é só poluição ou rabisco, formas de sujar a cidade. Eu digo que as pichações contam a história da cidade, elas também expressam um tipo de linguagem urbana. Então, a partir dos anos 80, o hip-hop, com suas posses. E eu digo que, a partir dos anos 90, nós tivemos a organização de alguns coletivos de arte, alguns coletivos expressivos na cidade. Uma expressão mais forte das artes de rua vai vir nos anos 90 e de forma bem expressiva nos anos 2000. Fortaleza vai recebendo vários festivais de arte, vários coletivos de arte, e ela vai se tornando, eu acho, uma cidade que hoje é uma paisagem, eu diria quase um museu de arte a céu aberto. Fortaleza é, hoje, uma das cidades mais expressivas das artes urbanas no Brasil. A partir do Festival Além da Rua, organizado pelo Acidum, do Festival Concreto, [organizado] pelo Grud, nós temos inserções internacionais fortes. Então Fortaleza é uma cidade que está ligada ao cenário internacional das artes.

Xarpis em Fortaleza (foto: acervo pessoal)

NL: Apesar de não ter tanta visibilidade quanto São Paulo, por exemplo, Fortaleza é marcada em seus muros por uma estética de pixo própria e original. Como você enxerga a cultura do pixo e graffiti na cidade? 

GD: Eu acho o pixo super significativo. Eu andei por algumas cidades do mundo vendo como [se] pixa e você vê que o pixo é uma arte caligráfica. É uma caligrafia urbana, é uma escrita da cidade, é uma forma da cidade escrever. A pessoa se arrisca no viaduto, bota sua vida em risco para deixar uma marca, para deixar sua assinatura, o “xarpi”. É algo que se faz com o corpo, o corpo é tinta, o corpo é spray. Também é uma extensão, o spray é uma extensão do corpo, está tudo amalgamado, então é pra mostrar também que o pixo irrita. Uma vez o meu pai disse assim, “mas minha filha, você tá estudando isso, isso me irrita”. Pois, então, foi conseguido o objetivo do pixo, que é irritar, que é mostrar que a cidade não é só publicidade, que a cidade é um hieróglifo estranho, que só é decodificado pelos entendidos. Então, o pixo tem essa função de nos convocar a compreender, a perceber uma cidade que não se anuncia só pelas publicidades, pelas palavras consentidas. Ela também se mostra a partir do mistério de uma escrita que não se faz ver, que não se faz compreender de imediato. Uma escrita que tem o nome da “crew“, tem o nome do grupo, da família dos pixadores. É preciso estar dentro dessa escrita para que ela possa ser decodificada e eu acho que tem uma importância fundamental na metrópole. Com o tempo, talvez, esses pixos serão cada vez mais valorizados como sendo uma forma estética das metrópoles, das cidades.

NL: Você realizou seus estudos de pós-doutorado em Lisboa, Portugal. Quais as principais diferenças entre as expressões artísticas de uma capital europeia e Fortaleza?

GD: O pixo, que não é chamado de pixo, lá é tudo graffiti. Essa palavra pichação não existe, é graffiti legal ou graffiti ilegal. Essa é a grande diferença. Eu estive em Lisboa em 2013, passei o ano todo lá. Foi um ano em que a Galeria de Arte Urbana, a GAU, foi traduzindo cada vez mais Lisboa como uma das cidades mais importantes das artes urbanas do mundo e vai produzindo uma espécie de turismo cultural, turismo artístico. Vi, nesse momento, como as artes de forma geral, mais particularmente as artes de rua, ajudaram a construir uma outra possibilidade de Lisboa para além da crise econômica. Eu acho isso muito significativo e também vi que existiam vários muralismos ilegais. Foi o que fiz lá, porque aqui, como a polícia é muito violenta, o que mal dá [para fazer], às vezes, é você “tacar sua marca”, como dizem os pichadores, e sair correndo. Lá, não. Embora tenha, como eles dizem, “coimas”, multas altas, existia um muralismo, um tempo em que a pessoa passa fazendo um muro ilegal de madrugada. Amanhece com aquele muro feito, ou seja, o ilegal também migra para muralismo. É uma diferença significativa que mostra como as cidades são cada vez mais divididas, a cidade como mercadoria, como propriedade. E isso em todas as cidades, principalmente Lisboa, onde a história, a preservação do patrimônio histórico cultural urbano é muito, digamos, forte. Fortaleza não tem essa preocupação com o seu patrimônio, mas tem preocupação com propriedade privada. Aqui, quantas vezes jovens, sejam pichadores ou grafiteiros, foram banhados [de tinta]? Foram agredidos por estarem realizando essa operação, essa forma de expressão e receberam vários tipos de agressões, como serem pintados de spray, humilhados? Enfim, muitas vezes espancados, outras vezes presos. Mas é preciso dizer que as artes de rua mostram fundamentalmente a pulsão de vida de uma cidade.

NL: A arte urbana ainda é vista por muitos como sinônimo de marginalização. O que você acredita que contribui para isso e de qual forma um projeto como o Fortaleza Cromática pode auxiliar na desconstrução desse conceito? 

GD: O Fortaleza Cromática quer mostrar exatamente isso. Uma cidade sem arte é uma cidade sem vida, porque a arte urbana é um patrimônio imaterial das cidades. Então o Fortaleza Cromática vem nessa vontade, nesse propósito, nesse objetivo de mostrar que uma cidade que fala por imagens, por frases, por desenhos, por murais, por lambs, colagens e por outras formas de intervenções urbanas é uma cidade que está viva, que está precisando falar de si, que está precisando dizer o que pode fazer, como pode se transformar, que está falando da sua insatisfação, de seus desejos. Então, mais do que marginalização, a arte é pra ser vista e é importante que seja vista como uma cidade que não esquece de si, como uma cidade que faz lembrar de si, como uma cidade, contrariando as “Cidade Invisíveis” de [Ítalo] Calvino, que se faz ver.

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