Movimento “Segunda sem carne” visa conscientizar o consumidor em relação ao consumo da proteína animal

De acordo com as estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), somente no Brasil são mortos 62 bovinos por minuto, 3,72 mil por hora, 89,33 mil por dia, 2,68 milhões por mês e 32,24 milhões por ano.

por Yasmin Vasconcelos 

Foi pensando nas pessoas, nos animais e no planeta que a campanha do Movimento Segunda Sem Carne foi lançada no Brasil, em outubro de 2009. O incentivo para o movimento partiu dos grandes números de mortes de animais (bovinos, suínos e frangos), número que a todos os anos vem aumentando. No país, ela é promovida pela Sociedade Vegetariana Brasileira que trabalha ativamente organizando parcerias com instituições públicas para oferecer refeições vegetarianas para a população vulnerável nas segundas-feiras. 

Ter na mesa do brasileiro a conhecida “mistura” do dia é uma  rotina para milhões de famílias. O que poucos ainda não têm consciência é que o número de mortes de animais para fins alimentícios vêm sendo responsáveis por quase 15% das emissões de gases causadores do chamado efeito estufa, fenômeno natural ocasionado pela concentração de gases na atmosfera, os quais formam uma camada que permite a passagem dos raios solares e a absorção de calor.

Mas o consumo de proteínas animais vem se modificando. Segundo a pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) e coordenada pelo The Good Food Institute, 50% dos brasileiros reduziram seu consumo em 2020. Tal hábito de redução representa um influente grupo de consumo, que passou de 29% em 2018 para 50% em 2020. A redução ocorreu devido ao crescimento do preço da carne e também pela grande preocupação com a saúde, tendência que ganhou destaque com o início da pandemia. 

O movimento tem como principal objetivo incentivar as pessoas a que, pelo menos uma vez na semana, evitem  o consumo de carnes na sua alimentação, convidando-as  a descobrirem novos sabores ao substituir a proteína animal pela vegetal. 

Hoje, a Segunda Sem Carne conta com o apoio de governos, como do estado de São Paulo, personalidades e empresas. O movimento está presente em mais de 40 países, como Estados Unidos e Reino Unido, e vem sendo apoiado por inúmeros líderes internacionais. A Humane Society International (HSI) também está presente entre o crescente número de vozes nacionais e internacionais que promovem essa campanha, que simplesmente pede para que os consumidores deixem a carne fora de seus pratos uma vez por semana,  para ajudar o meio ambiente, a própria saúde e os animais.

Já no Brasil, a Segunda Sem Carne conta com o apoio de inúmeros famosos, que buscam fazer a diferença nem que seja por apenas um dia na semana, como a culinarista e apresentadora Bela Gil, o ator Reynaldo Gianecchini, entre outros. 


“Pelas pessoas, pelos animais e pelo planeta”

Há muito tempo, adeptos ao consumo de carnes e vegetarianos/veganos entram em uma onda de opiniões divergentes em relação aos benefícios e malefícios que o consumo de carnes podem ter no organismo. 

Por isso, em entrevista com a nutricionista Silvana Souto, formada pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), a reportagem  questionou se a ingestão de carnes é essencial à vida humana. Silvana explica  que o essencial mesmo é o consumo de proteínas e que existem diferentes tipos, podendo encontrá-las nas carnes vermelhas e brancas, no leite e seus derivados, e nos ovos. Além disso, também é possível consumir a proteína de origem vegetal, que encontramos na soja, lentilhas, algumas leguminosas e também nas fontes de suplementações proteicas, com base de whey, por exemplo. 

Mas ela  ressalta que há um diferencial que as proteínas animais possuem,  os aminoácidos em maior quantidade.  “Os aminoácidos são como tijolinhos que vão formar a molécula maior da proteína. De forma geral, as proteínas de origem animal são proteínas que possuem a maior parte desses aminoácidos que são essenciais, que são produzidos pelo nosso corpo”.

Para a nutricionista, não existe um alimento bom e um alimento ruim. A alimentação tem que ser complementar e variada, e ressalta que nunca encontraremos em um só alimento tudo o que necessitamos. “Tudo na alimentação diz respeito ao equilíbrio, o excesso faz mal e o déficit faz mal.”

Ela acredita que  comer carne um dia da semana  é uma opção voltada para valores, aspectos de filosofia de vida e escolhas por questões ideológicas. Se busca o equilíbrio, a pessoa pode fazer a sua escolha de consumo ou não de certos alimentos, desde que monitorado e supervisionado para que não tenha prejuízos a longo prazo. “Eu acho que todas as escolhas que não comprometem a vida devem ser respeitadas e devem ser seguidas, desde que você procure um equilíbrio em relação a isso”, complementa.

Para  a estudante de Jornalismo da Universidade de Fortaleza, Ana Carolina Melo,  que é vegetariana há quatro anos, o processo de adaptação varia de pessoa para pessoa. Ela tem uma opinião muito particular sobre a escolha de comer ou não carne.  “Não acredito na frase ‘comer carne faz mal’. De fato, não faz. Muitos profissionais nutricionistas desmistificam esta afirmação. A diminuição do consumo de carne se trata muito mais sobre pensar na vida de outro ser vivo.”

Ana Carolina Melo, acervo pessoal

Para Carol, movimentos como a Segunda Sem Carne são importantes para quem quer começar a diminuir o consumo e não sabe se vai conseguir. Na sua opinião,  ajuda a mostrar que é, sim, possível se alimentar bem e viver bem anulando a carne na alimentação. “Desde cedo somos induzidos socialmente a comer carne. É um costume que nos é introduzido, mas totalmente possível de ser modificado de forma saudável. É importante que, logo no início do vegetarianismo ou veganismo, a pessoa procure orientação nutricional e se informe para substituir tudo de forma correta”.

Carol não chegou a participar de nenhuma “Segunda sem carne”, pois quando parou de consumir carne,  o movimento ainda não tinha tanta visibilidade, mas reconhece a sua importância  para o planeta como um todo. 

Para quem  pensa que a alimentação vegetariana/vegana seja sobre arranjar maneiras de encontrar um substituto para a carne, a estudante de biologia da Universidade Federal de Fortaleza, Raquel Oliveira, que é vegetariana, alerta  que na verdade é aprender a se alimentar sem precisar dela e diz não sentir falta da carne, pois ela já não se encaixa mais em sua alimentação “Eu não como nenhum alimento que eu considere um substituto da carne. Na realidade, eu repensei o meu prato como um todo, buscando os nutrientes que eu preciso e aquilo que eu gosto de comer. Não sinto falta da carne, pois ela simplesmente não se encaixa mais na minha vida.”

Raquel Oliveira, acervo pessoal

De acordo com Raquel, muitos pensam que fazer uma alimentação sem proteína animal  é baseada apenas em pratos cheios de verdura e deficientes em sabor. Ela afirma que há muitas maneiras de combinar uma alimentação de forma criativa e gostosa, mas que no início não é fácil. De acordo com ela, um dos primeiros passos para quem busca entrar no mundo dos vegetarianos/veganos ou participar do movimento, é a pessoa estar aberta a novas possibilidades de alimentos e combinações “Eu sempre faço pratos diferentes, pois gosto de provar coisas novas, mas os meus pratos são sempre compostos por pelo menos um carboidrato, uma proteína e salada.” 


Em defesa dos animais  

Para entendermos mais o significado do Movimento Segunda Sem Carne e sua importância, também precisamos saber que o ponto principal na história são os animais. 

Só no Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 1,419 bilhões de animais foram mortos  apenas no segundo trimestre de 2020. Partindo disso, vemos que passar apenas um dia da semana  sem o consumo de carnes e derivados pode ser considerado esforço nenhum comparado à vida dos animais. 

De acordo com Raquel, ela parou de comer carne porque  alguns fatores a influenciaram. . “Por causa de uma questão ética com os animais, para evitar a morte e o sofrimento deles, por causa de algo que não é necessário ao meu ver [o consumo de carne]. Acho que eles têm tanto direito à vida e à felicidade como qualquer um de nós.”


Pelo planeta 

E, neste momento, você pode se questionar sobre como a contribuição da Segunda Sem Carne pode influenciar no planeta se se se trata de apenas um dia da semana sem consumir carne ou derivados? O vídeo criado pela Fry’s Family, na Austrália e África do Sul, explica de forma rápida e fácil a importância da campanha: 

Além disso, de acordo com o livro Global Water Issues (Questões Globais de Água), em tradução livre do inglês), publicado em 2011, um consumidor de carne demanda, indiretamente, mais de 3800 litros de água por dia e a pecuária é responsável pela emissão de 14,5% dos gases causadores do efeito estufa (fonte: TACKLING CLIMATE CHANGE THROUGH LIVESTOCK), isso sem falarmos da responsabilidade de 80% no desmatamento no Brasil. 

Foi a partir principalmente do desmatamento que o ator e influenciador Andree Ximenes se viu  totalmente envolvido pelo movimento. “Descobri que a carne é um dos principais causadores de desmatamento no mundo.  Hoje em dia, preferem desmatar para plantar soja e milho, ou desmatar pra ter pasto. Senão desmatam para plantar o que vai alimentar o boi ou o porco e que depois vai nos alimentar. Ainda se gasta muito mais água para produzir a carne. Se gasta 17 mil litros de água comparado a 1kg de vegetal, você gasta entre 3 a 5 mil litros”.  

Ele também ressalta que  entendeu como isso interfere na nossa economia. “Quase 90% das terras do Brasil pertencem a menos de 1% da população brasileira, então esse dinheiro não fica pra gente. É o agronegócio Agrotóxico que interfere na nossa saúde diretamente, então a gente fica refém dessa população mínima que são riquíssimas e esse dinheiro não fica aqui”.

O desmatamento, a grande quantidade de água que é utilizada e os gases de efeito estufa também fazem parte dos motivos pelos quais  Raquel aderiu ao movimento. “O mercado da carne é muito prejudicial ao meio ambiente, pois ele financia o desmatamento das matas nativas (para criação de pasto), a monocultura de soja (para ração), gasta quantidades enormes de água e emite muitos gases de efeito estufa.”

Raquel também afirma que diminuir ou acabar com o consumo de carne é um passo muito importante para que a gente proteja o meio ambiente e possa lutar contra as mudanças climáticas.


Empresas também aderem 

Algumas empresas também entram no movimento. Ao conversar com um restaurante vegano que participa da Segunda Sem Carne desde o ano passado, seus idealizadores nos contam sobre seus objetivos ao participarem da Segunda sem carne. Entramos nesse movimento para conseguir incentivar as pessoas. Nosso propósito é realmente mostrar para as pessoas que dá super certo comer gostoso sem carne e derivados de animais. E a melhor maneira de fazer isso, é fazendo uma comida bem gostosa, e dando desconto de incentivo pra galera dar o primeiro passo”. 

Um dos donos do restaurante relata que possuir um restaurante voltado para alimentação sem carne ajuda a fazer chegar às pessoas que é possível ter acesso a esse mundo de uma maneira deliciosa e que não faz falta o animal no prato do consumidor. “Dar a oportunidade da pessoa dar o primeiro passo, encorajar.! E depois do primeiro passo, com sabor e conhecimento sobre o porquê desse movimento, já se planta uma semente e o processo é lindo. Ajuda as pessoas a começarem o processo de despertar pelo planeta, pelos animais e por elas”.

Por fim, entendemos que a Segunda Sem Carne é, antes de tudo, o primeiro passo. Ela não busca fazer a pessoa parar totalmente de consumir carnes e derivados, respeitar seu próprio tempo é a chave principal, mas ela busca incentivar pessoas a repensarem e a olharem para o futuro, para si mesmas, para o planeta e para os animais. 

Para quem se interessa em participar do movimento, mas ainda não sabe por onde, aqui vai uma dica de duas receitas fáceis e práticas para substituir a carne animal do seu dia a dia: 

Infográfico por Yasmin Vasconcelos

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