“A dor nos ensina e na maioria das vezes saímos dela sendo pessoas muito melhores”

por Yasmin Vasconcelos 

Psicóloga Jéssica Olivier, arquivo pessoal

Em tempos de pandemia, o que mais se tem falado é sobre a perda de pessoas queridas em nossas vidas. Todos os dias, mais de mil pessoas morrem no Brasil e deixam familiares e amigos com um único sentimento: a dor da perda, o luto. 

É sobre a importância de senti-lo e superá-lo que a psicóloga clínica formada pela Universidade de Fortaleza, Jéssica Olivier (@jessicavlolivier, no Instagram) foi a convidada do NewsLink para falar sobre esse momento considerado difícil para todos.

News Link: O que é o luto?

Jéssica Olivier: Luto é aquele momento no qual você permanece em um estado de tristeza pela sua pessoa querida que morreu. Um sentimento que muitas vezes parece que não vai ter fim, uma dor tão profunda que às vezes é difícil nomeá-la.   


NL: Qual é a importância de sentir a dor do luto? 

JO: A dor do luto assim como qualquer outra dor é importante ser sentida. As pessoas subestimam muito a tristeza, já observou? Vemos a tristeza como algo ruim, quase que uma doença contagiosa, ninguém quer estar perto de uma pessoa triste, ou se estamos ao lado de alguém triste logo damos um jeito de querer fazê-la rir ou então mudar de assunto por que o clima ficou “pesado”. Se a gente parar pra observar são em nossos momentos de tristeza onde mais aprendemos, é quando muitas vezes tiramos forças que nem sabíamos que tínhamos para enfrentar algo. A dor nos ensina e na maioria das vezes saímos dela sendo pessoas muito melhores.


NL: O que fazer quando a morte leva aqueles a quem amamos? 

JO: Creio que trazer lembranças de momentos bons vividos com aquela pessoa ajuda bastante. Lembrar do que foi vivido com amor nos trás um “quentinho no coração”, nos dá aconchego saber que em vida aquela pessoa fez tanto o bem e que foram partilhados e aprendido tantas coisas boas com ela. Ora, quando alguém querido parte nem lembramos de seus defeitos e quando lembramos nem mais nos incomoda, esses nem são mais importantes, porque as coisas que foram boas acabam prevalecendo. 


NL: Existe alguma forma das pessoas passarem por esse processo de uma forma menos dolorosa? 

JO: Isso vai depender de cada indivíduo, não tem uma fórmula mágica para não sofrer dentro desse processo. O luto como já dissemos é bastante importante para o amadurecimento de cada pessoa, sendo assim, cada pessoa tem seu tempo dentro disso para conseguir se entender e entender toda essa informação. É realmente muito difícil perder quem amamos, por isso é importante respeitar o tempo e o espaço de cada um. 


NL: Em tempos de pandemia, a dor da perda é algo rotineiro na vida de muitas pessoas. Com as dificuldades apresentadas na hora da despedida, como as pessoas estão lidando com essa dor sem esse processo que costumava ser “tradição”?

JO:


NL: Qual é a importância de passar por esses rituais?

JO: Como estamos conversando essa tradição para os que aqui ficam traz mais alento, uma sensação de dever cumprido, como se o último desejo de quem já se foi estivesse sendo realizado. Além do que é nesse último momento onde as pessoas que têm afeto por aquele que partiu se juntam para se despedir e para os que aqui ficam gera um conforto saber que puderam ter esse último momento presente do corpo daquele que ama. 


NL: Essa perda súbita e falta de despedida tem afetado ainda mais o processo de superação dos que ficam?

JO: Sem dúvidas, não poder realizar esse processo é como se ficasse uma lacuna em aberto, como se algo estivesse faltando para que a partida de seu ente amado seja assim concluída e para os que aqui ficam, esse processo de despedida é muito importante para que esse luto possa ser com o tempo resignificado. 


NL: O luto pode ser superado? 

JO: Se o luto é um estado de tristeza, acredito que todos nós temos sim potencial e capacidade para superar. Muitas vezes nos perdemos dentro dessa situação por acharmos que aquele estado é definitivo, mas se pararmos para pensar de uma forma mais racional (sei que dentro desse estado é difícil mesmo) vamos ver que a felicidade também não é algo definitivo, ou seja, assim como eu não estou sempre e a todo momento feliz, eu também não estarei sempre e a todo momento triste, é interessante também pensar e saber que não é o fato de não estarmos tristes que deixamos de amar ou nos importar com aquele que já foi. Nesses momentos, por mais difícil e complicado que seja, é preciso parar e pensar em quantas coisas já dissemos que não íamos superar e hoje ainda estamos aqui! 


NL: Você concorda com os estágios do luto definidos pela psicologia? 

JO: Para a psicologia, o luto é dividido em cinco momentos. O primeiro deles é o estágio da negação, do isolamento, seguido pelo estágio da raiva. O terceiro estágio é caracterizado pela barganha, o quarto pelo estágio da depressão e por fim, a aceitação. Não sei que gosto de classificar o luto em estágios, penso que cada pessoa tem seu tempo e seu processo de passar por esse momento, não é uma regra para todo mundo.

Confira o infográfico abaixo e entenda mais sobre os estágios do luto e suas características:

(créditos: Yasmin Vasconcelos)

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