O Cinema será considerado algo vintage?

Especialistas respondem e comentam o atual momento que a sétima arte se encontra

por Letícia Serpa

No cenário em que o mundo vive atualmente,  perguntas como “você se lembra da última vez que foi ao cinema?” ou “você se recorda do último filme a que assistiu no cinema antes da pandemia?” são recorrentes em conversas entre amigos. Ainda que o distanciamento social seja “recente”, visto que somente um ano se passou desde o início da disseminação do coronavírus, é muito tempo para a sétima arte. As pessoas esqueceram do cheiro, das escadas, do frio, da pipoca e das poltronas de uma sala de cinema.

Tomaz Morais – Arquivo Pessoal

O jornalista e crítico de cinema Tomaz Morais, 23, por exemplo, comentou sobre o que mais sente falta e, com muita dor e saudades, aponta que precisa sentir o frio na barriga de ver algo dentro da sala de cinema novamente. “Eu preciso conferir algo grandioso. E isto só pode ser dentro da sala escura”, explica. Mais que isso: o especialista aponta que sente saudades das reações das pessoas que dividem a experiência com ele. “Sendo conhecidas ou não, é sempre bom estar em contato com outras pessoas, assistindo não só ao filme, mas suas reações também”, conta. 

A experiência, no meio disto tudo, parece ter ficado no imaginário. É preciso se esforçar para lembrar de todos esses detalhes antes e após a  sessão de cinema. A maneira como a relação é feita com o público deixou tudo um pouco mais distante, quase como se estivéssemos conferindo alguém que ainda curte discos de vinil e vitrola. Ficou no passado.

Os elementos do cinema, como conhecemos, mudou. Pela necessidade iminente de distanciamento social e de enclausuramento em nossos lares, as obras cinematográficas deixaram a sala escura de lado e passaram para o formato digital, comandado inteiramente por algoritmos: os serviços de streaming

Tomaz  acredita que o cinema irá passar por mudanças como sempre passou. “O formato deve receber, no futuro, novos atrativos para as gerações que estão por vir. Perceba que nós já debatemos sobre a queda do cinema várias vezes, como quando surgiram os dvds e a pirataria. Agora, a discussão é outra”, comenta. 

Segundo o jornalista, o aumento de serviços digitais será o que tornará o cinema ainda mais forte no futuro. “As pessoas adoram se reunir para fazer o que gostam quando estão juntas. O debate faz parte. E tem lugar melhor para se consumir um filme do que dentro de uma sala de cinema? O cinema vai seguir sendo popular justamente por isso, é um lugar de encontro, como um show. A diferença será o tamanho da sala e o valor das entradas. Mudanças, que, convenhamos, são para o bem”, aponta. 

Vintage ou não?
Lucas Reis – Arquivo Pessoal

O jornalista e mestre em Comunicação, Lucas Reis, 26, prevê que o cinema não será vintage, “visto que, para ser definido como vintage, teria que ter uma queda na procura das pessoas, assim como a queda dos atrativos para o próprio cinema. Não vejo isso nem mesmo quando a Netflix surgiu, e agora muito menos, dado que a plataforma se tornou uma ótima saída aos que buscam pela arte”. E que também será o seu fim. “O cinema ainda vai durar muito, principalmente por ser algo tradicional”. 

No entanto, esta ainda é uma visão que só o futuro irá responder. Até lá, ficam as saudades, como a do jornalista, que diz sentir falta principalmente do cinema como uma experiência de relacionamento com os outros e também de introspecção. Como Tomaz, Lucas diz que “naquelas 120 minutos, você está como num transe, diante de uma tela falando consigo mesmo sobre o que está vendo. Uma ‘loucura boa’ e que streaming nenhum consegue imitar”. 

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