Série “Euphoria” é retrato explícito da juventude contemporânea

por Jean Dantas

Jovens, drogas, sexo e traumas. A princípio, Euphoria não se difere dos clichês reproduzidos pelas inúmeras séries televisivas que abordam as temáticas, mas se destaca pela forma como a produção da Home Box Office (HBO) equilibra o drama adolescente, questões atuais e uma estética visualmente deslumbrante. 

Desde o seu lançamento mundial, em 16 de junho de 2019, a série criada por Sam Levinson tem chamado atenção do público e da crítica mundial, seja pelo grande investimento em sua produção, que conta com o rapper Drake como produtor executivo, ou pela abordagem explícita da trama, que chegou, inclusive, a receber pedidos de cancelamento devido ao seu conteúdo ser considerado má influência para os jovens. O fato é que a série cumpriu o seu objetivo dentro da proposta estabelecida pelos autores: impactar. 

A nova promessa da HBO é inspirada em uma série israelense de mesmo título, criada por Ron Leshem e Daphna Levin. A versão original também tratava de temas recorrentes na vida adolescente como drogas e sexo, mas o clímax narrativo é outro. Ambas fazem parte do específico gênero de “dramas adolescentes para não-adolescentes”, popularizado principalmente por Skins, em 2007.

A primeira temporada de Euphoria conta a história de vários jovens cujos caminhos se cruzam na escola ou em festas. A protagonista e narradora dos acontecimentos é a jovem Rue (interpretada por Zendaya), uma adolescente de 17 anos que acaba de sair de uma clínica de reabilitação após sofrer uma overdose. A jovem, que sofre de depressão, continua a usar drogas mesmo após deixar a clínica, mantendo-se fiel ao seu estilo de vida apesar da constante preocupação de sua família. 

As coisas começam a mudar quando Rue conhece Jules (Hunter Schafer), uma garota transexual que acaba de se mudar para a cidade com seu pai. As duas acabam desenvolvendo um laço forte de amizade, do qual  o enredo começa a se desenrolar.

Além disso, a série possui outros personagens complexos que contribuem constantemente para o desenvolvimento e consolidação da narrativa. Nate Jacobs (Jacob Elordi), o estereótipo do jovem branco, privilegiado, jogador de futebol americano e que tem tudo para “se dar bem na vida”; Cassey (Sydney Sweeney), uma garota com problemas familiares, especialmente com seu pai; Kat (Barbie Ferreira), uma jovem que sofreu gordofobia durante toda a sua vida, mas que começa se empoderar cada vez mais; e Maddy (Alexa Demie), a típica adolescente que busca incessantemente por aprovação.

Ao retratar a história desses personagens e como eles se relacionam entre si, Euphoria incita questionamentos a respeito dos motivos e circunstâncias que levaram cada um deles a serem o que são. A produção aborda sobre maternidade e paternidade, e todos que passam por problemas na narrativa possuem algum passado conflituoso com a família, seja por doença, perda de algum familiar, abandono ou traumas.

Embora sofra com “excesso desnecessário” em algumas cenas, a série retrata com responsabilidade as questões relevantes para seu público-alvo. Não há incentivo ou romantização de comportamentos autodestrutivos, mesmo que isso seja aparente em certos momentos se não assistido sob a perspectiva correta. Bullying, abuso de drogas, depressão, machismo, relacionamentos tóxicos, sexualidade e aborto são temáticas constantemente presentes ao longo dos oito episódios que compõem a primeira temporada.

Percebe-se, aqui, o cuidado dos produtores ao construir o roteiro, diferente de outras produções que envolvem assuntos semelhantes e extremamente delicados de forma irresponsável. Mesmo assim, diante das polêmicas geradas pelo lançamento da série, a protagonista Zendaya sentiu-se no dever de alertar sobre o conteúdo de Euphoria. “É um retrato bruto e honesto de vício, ansiedade e das dificuldades de navegar na vida hoje. Há cenas que são gráficas, difíceis de assistir e que podem ser um gatilho para algumas pessoas. Por favor, só assista se você acha que pode lidar com isso. Faça o que for melhor para você”, afirma a estrela da série  em sua página do Instagram.

Euphoria possui a sua estética como grande diferencial. Há cenas de episódios que parecem, por muitas vezes, pequenas obras de arte, com fotografia, maquiagem e edição brilhantes e repletas de cores, luzes e ângulos de câmera que entregam à produção uma experiência inconfundível. Além disso, a série conta com músicas de artistas expressivos em seus episódios, a exemplo de Beyoncé, Billie Eilish, Migos e BTS. Já a trilha sonora original, produzida por Labrinth, é que dita o ritmo e tom da série e é a responsável por conduzir longas cenas apenas com instrumentais.

Trata-se de  uma série desenvolvida com o objetivo de ampliar questões pouco vistas pela sociedade. Dessa forma, através das imagens consideradas “pesadas” por muitos telespectadores, propõe reflexões aprofundadas e até mesmo debates. A produção é incômoda quando mostra contextos extremos, ao mesmo tempo em que transmite tranquilidade em seus momentos de calma e reflexão. 

Definitivamente, a série não é para todos os públicos e nem pretende ser. Mas, apesar de difícil de assistir em alguns momentos, Euphoria consegue equilibrar sua honestidade brutal com uma atmosfera cheia de empatia para criar uma obra esteticamente linda e desafiadora, unida pela performance que rendeu o prestigiado prêmio Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática à brilhante atuação de Zendaya como protagonista. 

Ficha técnica

Título: Euphoria

País: Estados Unidos

Data de lançamento: 16 de junho de 2019

Nº de episódios: 8

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php