Dia do Jornalista é momento de reflexão sobre as mudanças na profissão

Por Marcelo Teixeira

No dia 7 de abril, comemora-se no Brasil o Dia do Jornalista. A data foi criada pela Associação Brasileira de Imprensa, em 1931, em homenagem ao médico e jornalista Giovanni Battista Libero Badaró. Ele foi proprietário do Observador Constitucional, um veículo de ideias liberais, que defendia a liberdade de imprensa e se colocava contra o regime do imperador Dom Pedro I.

No dia 22 de novembro de 1830, Badaró foi assassinado a tiros, em São Paulo, na rua de sua casa, por alguns de seus inimigos políticos, em virtude de suas denúncias e ideologias que contrariavam os homens do poder. Antes de morrer, o jornalista disse a seguinte frase: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”, tornando-se assim um símbolo da liberdade de imprensa no Brasil.

Desde então, o Jornalismo tem passado por muitas transformações, não só no perfil do jornalista, mas também no modo de produção de notícias. Se antes o estudante de Jornalismo era formado para trabalhar em mídias específicas e possuir habilidades voltadas para um único meio, hoje ele deve ingressar no mercado preparado para atuar e lidar com todas as áreas de atuação oferecidas pelo Jornalismo: rádio, TV, impresso e Web. Isto é, ele deve munir-se de um perfil multifuncional.

“Morre um liberal, mas não morre a liberdade”

Giovanni Battista Libero Badaró

O novo modelo de jornalismo que se constitui no século XXI é consagrado pelo mundo digital e conectado com novas mídias, plataformas e a imersão da tecnologia em todas as etapas do processo de produção jornalística. Ele vislumbra a convergência do jornalismo. Essa convergência no jornalismo ocasionou uma alteração no mercado profissional, algumas funções desapareceram, outras foram incorporadas por diferentes postos em uma redação, novas surgiram, assim como novos atores sociais no processo de produção de conteúdo.

Luiz Carlos Carvalho, jornalista e assessor no setor de Comunicação e Marketing, afirma que o jornalismo tradicional, feito por uma única mídia, não existe mais. E que essa mudança está relacionada com a convergência, provocada pela tecnologia. “A transformação do jornalismo mais significativa, para não dizer radical, foi a integração digital de todas as formas de gerar e compartilhar conteúdos jornalísticos. O jornalismo como conhecíamos até poucos anos atrás sumiu. Não existe mais. O jornalismo hoje é totalmente diferente de cinco anos atrás. E não me refiro apenas ao fim do impresso, mas principalmente à forma de apurar e de compartilhar notícias. Antes, ficávamos à espera do jornal ou da revista impressa para ter acesso às notícias. Hoje, quem de nós manuseia revista ou suja as mãos na tinta do jornal impresso? Raríssimas pessoas, não é verdade?”.

Um levantamento feito em 2019, pelo Portal 360, revela que a tiragem de exemplares impressos, obteve queda significativa, entre os anos de 2014 e 2019. Em dezembro de 2014, tinham uma tiragem somada de 1,2 milhão de jornais impressos. Em outubro de 2019, o número foi de 588,6 mil. O equivalente a uma redução de 51,7%. Paralelo a isso, as adesões a assinaturas digitais vêm crescendo desde 2014. Contudo, a maior parte foi registrada a partir do ano de 2018, um exemplo disso, é o caso do jornal Valor Econômico. De 2017 para 2018, pulou de 28.985 assinantes digitais para 60.759. A revista Veja, famosa por sua grande circulação no país, por muito tempo alcançou a média de um milhão de exemplares. Em 2019, obteve 243 mil cópias em papel, conforme o Instituto Verificador de Informação (IVC).

Jornais como Estado de São Paulo, Folha de S. Paulo e O Globo estão trabalhando com equipes multidisciplinares nas plataformas digitais, produzindo texto, vídeo, infográfico e ambientes de análise. A multimidialidade cresce por parte dos fornecedores de conteúdo. Isso repercute diretamente no processo de produção do conteúdo que passa a exigir uma equipe interdisciplinar de profissionais responsáveis por etapas específicas da linha de produção definidas por suas competências e expertises. Uma mesma matéria passa a ser composta por distintas peças e formatos, como áudio, vídeo, texto, imagem, imagem animada, infográfico, conforme as potencialidades oferecidas pela pauta, todas juntas formam uma harmonização de conteúdo. Ana Paula Farias, jornalista, professora universitária e editora do blog Mural da Ana Paula, acredita que as novas tecnologias possuem influência muito grande nessa nova formatação. “O avanço das novas tecnologias promoveu uma grande proliferação de espaços de produção de conteúdo informativo. O que implicou em certa flexibilização dos valores-notícia e levanta o questionamento sobre os métodos e parâmetros da produção de noticiários. A figura do gatekeeper/editor perde lugar para uma audiência com grande poder na determinação de pautas”, diz.

João Bandeira Neto é editor-assistente de produção de conteúdo Digital do Diário do Nordeste

As funções dos cargos nas redações, passam por uma reconfiguração e não se trata, entretanto, de apenas dominar o uso das novas tecnologias como uma ferramenta técnica, mas de se familiarizar com as transformações que elas podem propiciar no modo de pensar e fazer jornalismo, perpassando pelo processo de produção da notícia, formas narrativas e interações com novos atores sociais. João Bandeira Neto, editor-assistente de produção de conteúdo Digital do Diário do Nordeste, considera que o principal desafio para ele no jornalismo foi ele ter conseguido reinventar-se em meio a um cenário de mudanças. “A principal transformação na nossa profissão foi o jornalista entender que estamos em uma área cada vez mais essencial para a vida das pessoas. Através de conteúdos relevantes, matérias bem apuradas e uma checagem dos fatos de forma correta, o jornalismo se reinventou e assumiu o protagonismo em meio a tantas fake news e constantes ataques. Estar sempre atento aos diferentes meios de comunicação que surgiram, fez o profissional buscar ser ainda mais completo”, afirma.

Os avanços tecnológicos, sobretudo a internet, ocasionou não só uma rapidez na elaboração da notícia, mas também na sua divulgação. Novos moldes de construção de notícias foram surgindo em conformidade com a implementação dessas novas tecnologias. O jornal carioca Extra é um dos pioneiros no Brasil na utilização do aplicativo WhatsApp tanto para receber conteúdo dos leitores como para localizar fontes para as reportagens. O jornalista Luiz Carlos diz que com as facilidades proporcionadas por este mundo digital, a notícia está mais fácil de ser alcançada. “Hoje a notícia está literalmente à mão, a um clique e 24 horas no ar, e não necessariamente produzida por jornalista. Isso porque a apuração e a divulgação da notícia sofreram impactos. Diariamente, a notícia nos chega por vídeos ou links no WhatsApp, Telegram, a cores e quase ao vivo, e, em alguns casos, gerada à revelia dos grandes veículos de comunicação”, conta.

Luiz diz ainda que, em função disso, muitas das vezes os jornalistas têm que ir atrás dessas notícias, seja para ampliá-las ou até mesmo para comprovar a sua veracidade. As agências de checagem existem para atestar isso, configurando-se, ironicamente, como importantes áreas de atuação dos jornalistas. Segundo ele, isso prova que, mesmo com todas as mudanças, o jornalista ainda é uma peça importante e essencial na engrenagem da comunicação. Além disso, o mundo digital também ampliou as oportunidades para outras áreas como produção de podcasts, portais e blogs de notícias, web stories, e-books e outras mídias digitais.

Professora Ana Paula Farias, docente do curso de Jornalismo da Universidade de Fortaleza.

A professora Ana Paula Farias, acredita que o jornalismo tradicional está em crise, mas, apesar disso, aposta na função do jornalismo para a sociedade e na sua sobrevivência. “O avanço tecnológico é tanto irreversível quanto imprevisível. A crise no Jornalismo tradicional é evidente. No entanto, acredito que o jornalismo tem uma função importante na estrutura social que justifica e garante sua sobrevivência: adentrar os mais diversos campos do conhecimento e, se apropriando de suas linguagens específicas, ofertar informação multifacetada e de interesse público”, diz.

Para Luís Carlos, não importa o período da civilização humana, o jornalista sempre será aquele profissional que vai apurar e confirmar a veracidade das notícias para que os leitores possam confiar nas informações veiculadas. “As fábricas de fake news, por conta dos embates ideológicos, políticos e comerciais, vieram para ficar por um bom tempo. E o profissional do jornalismo precisa existir para separar o joio do trigo. E divulgar o trigo. Agora, os jornalistas precisam estar atualizados às modernas tecnologias, para que não fiquem bradando no deserto, por mais que seus brados sejam verdadeiros e justificáveis”.

João Bandeira Neto, acredita que a relevância da profissão estará cada vez mais em evidência, diante dos inúmeros cenários. “Em uma sociedade cada vez mais dinâmica e com pessoas cada vez com menos tempo para se informar, o futuro do jornalismo está ligado diretamente à forma de como o jornalista vai conseguir ser lido/visto/ouvido pelo público. O bom jornalismo sempre terá espaço. Não importa a mídia que venha a surgir”.

Luíza Ester é estudante de Jornalismo e estagiária do Núcleo de Cultura e Entretenimento do Grupo de Comunicação O POVO

Na visão de Luíza Ester, estudante de Jornalismo e estagiária do Núcleo de Cultura e Entretenimento do Grupo de Comunicação O POVO, uma das maiores transformações do jornalismo é lidar com a impermanência. Tudo muda muito rápido o tempo todo. Isso está não só para o jornalismo, mas também para as várias áreas da sociedade.

Para a futura jornalista, essas transformações não devem deixar para trás o senso crítico e a sensibilidade. “Devemos levantar reflexões críticas sobre a reorganização do ambiente de trabalho, a emergência das novas mídias, da inovação e das múltiplas competências, mas também devemos considerar que somos maravilhados por uma explosão de sons, imagens e textos que nos provoca infinitas sensações: raiva, alegria, tristeza, sonhos. Para mim, o Jornalismo está na observação da vida e dos sujeitos, para registrar o agora e levantar questões sobre o mundo. Há espaço para várias narrativas. E o futuro caminha para a experimentação dessas mais diversas formas de se contar histórias”.


Em comemoração ao Dia do Jornalista, os alunos do Núcleo de Rádio, do NewsLink, produziram um podcast sobre o novo perfil do jornalista nos dias atuais. Com as participações dos jornalistas Athila Nepomuceno, atuante na assessoria de comunicação da Unimed Fortaleza e Eulália Camurça, professora e editora de TV do Sistema Verdes Mares. Confira!

Já o núcleo de WebTV produziu um vídeo homenageando os profissionais da categoria. O professor Wagner Borges, coordenador do curso de jornalismo da Unifor, explica neste vídeo o que é ser jornalista.

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