Longa faz homenagem duvidosa aos criadores de Cidadão Kane 

por Letícia Serpa

Com mais de 120 anos de cinema, a “sétima arte” já criou, através dos anos, milhares de clássicos de todos os gêneros para diversos públicos que necessitam ser representados.

Através de “Mank” (2020), David Fincher, um dos diretores contemporâneos mais importantes do século XXI, explorou uma jornada que ficou presente na memória da cinefilia erudita: “Cidadão Kane”, o longa metragem de estreia de Orson Welles, considerado, até hoje, por especialistas da linguagem e da Cahiers du Cinéma (“Cadernos do Cinema”, em tradução livre, revista francesa mais antiga especializada em cinema e suas técnicas), um dos melhores filmes existentes.

Poster do filmer Mank (via Blog Mundo Fantasmo)

Assim, a Netflix assina a produção do filme que aborda a vida do roteirista e autor de “Cidadão Kane”, Herman J. Mankiewicz, vulgo Mank, que tinha tendências de esquerda e se tornou mal visto nos anos de caça aos comunistas. Fincher, tendo conhecimento disto, foca em um profissional que possui comportamentos obsessivos, assim como outros personagens de sua filmografia. A diferença, no entanto, é a ansiedade de ser um clássico como o filme de 1941. 

A pretensão é tão grandiosa quanto estúpida. Fincher – conhecido pelas obras “Zodíaco”, “A Rede Social” e “Garota Exemplar”, suspenses com autoria incomparável – retorna depois de sete anos para lançar o seu clássico a respeito dos bastidores do, provavelmente, maior clássico do cinema, esquecendo que este tipo de obra sobrevive ao teste do tempo, sendo atual em todo momento. 

Mank, em contrapartida, envelhece assim que é finalizado. Seu roteiro é confuso, cheio de interrupções desnecessárias e que não desenvolvem seus personagens. Seus astros, apesar de dedicados, parecem que estão em filmes diferentes. Enquanto Gary Oldman grita em grande parte do filme, como se atuasse em um stand-up, Amanda Seyfried sussurra como se estivesse em um templo. Não há conexões. 

Um filme metalinguístico garante-nos, minimamente, algumas curiosidades de bastidores, mesmo as que não foram solicitadas. Infelizmente, aqui não é o caso. Algumas aparições e momentos históricos são elevados ao sensacionalismo extremo, como se o diretor quisesse que, em cada cena, houvesse algo grandioso, enquanto na vida real não é assim.

Gary Oldman interpreta Mank (via Portal Justiça Geek)

Estética

A ideia do filme em preto e branco, por outro lado, é belíssima. A homenagem ao estilo de Kane é justíssima e apaixonante, visto que aplica o P & B para especificar o tipo de produção que era feita de forma barata, já que, na época, o formato Technicolor era caro e usado apenas em superproduções.

Para além disso, a fotografia de Fincher não tenta emular os enquadramentos de Kane e opta por uma paleta sem textura e uma natureza digital ao tentar simular arranhões de película e marcas que indicavam a mudança dos rolos. Mas tudo por puro visual, nada que acrescente na história. 

A Netflix acredita ter produzido o primeiro grande clássico da plataforma. Porém, David Fincher deveria ter entendido que não se tenta ser grandiloquente. Um clássico não precisa demonstrar aspectos copiados de uma estética antiga para ser clássico. 

O longa não deixa de ser uma experiência, principalmente quando homenageia um clássico da história do cinema. Se Hollywood decidiu indicá-lo para o cargo do Oscar de melhor filme em 2021, cabe, aos integrantes da Academia, avaliar.

FICHA TÉCNICA

Título: Mank

Ano de lançamento: 2020

Direção: David Fincher

Duração: 191 min

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