Tornar-se influenciador digital exige persistência

Por Fayher Lima 

Ao longo da história, o serhumano sempre precisou de um semi-deus para chamar de seu: artistas, cantores, atores e, mais recentemente, os digitais influencers. A relação entre fã e ídolo foi marcada, até pouco tempo, pela distância. A pessoa admirada era vista quase como um ser inalcançável. 

Na era da tecnologia, os atuais ídolos são os influenciadores digitais – pessoas que têm o seu trabalho ou rotina acompanhado na internet por milhares de seguidores. Como o contato rápido e direto é uma característica do digital, o fã se sente próximo de seu ídolo.  

Segundo os últimos dados do Hootsuite, sistema norte-americano especializado em gestão de marcas nas mídias digitais, 70% dos brasileiros têm acesso à internet. Com esse número, logo a produção de conteúdo – pessoal ou profissional – virou uma profissão comum – e rentável – na internet

Grandes marcas pagam pequenas fortunas para terem seus produtos ou serviços anunciados nos chamados publiposts (publicações publicitárias). O número de seguidores, engajamento e relevância do conteúdo influenciam no preço do contrato publicitário. Alguns influencers chegam a cobrar 60 mil reais por publicação. 

Mas, longe de viver a realidade dos influenciadores com grandes números, estão aqueles que buscam um espaço nessa nova profissão. Em 2015, Cândido Neto, 23, enxergou em suas redes sociais uma oportunidade de rentabilidade. “Eu já consumia esse tipo de conteúdo, e comecei a produzir o meu, mas não tinha constância, não levava tão a sério. Achava que não ia gerar dinheiro, mas hoje é o que eu quero pra mim”, conta.

Candido em sessão fotográfica. Arquivo pessoal.

Com o passar do tempo, ele foi descobrindo o seu nicho e hoje fala sobre cotidiano e cultura.  Em seu perfil no Instagram – sua principal ferramenta de trabalho -, Cândido mostra sua rotina, faz indicações e resenhas de produções audiovisuais, e interage com os seguidores.  

Se no início ele achou que não teria retorno financeiro, após cinco anos de dedicação Cândido começa a colher frutos. No final de 2020, ele pediu demissão do antigo trabalho como vendedor para se dedicar à carreira de digital influencer. “Hoje, a internet me proporciona uma estabilidade financeira muito boa, e é minha principal fonte de renda. Através das minhas publicações, eu consigo ter um salário e bancar meus gastos. Dá para viver”, explica.

Ele detalha a rotina profissional. “Hoje, eu crio conteúdo para empresas. Faço o marketing dos bastidores, com fotos e postagens no instagram da empresa e no meu. Mas antes de indicar um produto, eu  faço um teste de qualidade”, conta.

Morando em Quixadá, no interior do Ceará, o influenciador reúne mais de 6 mil seguidores no Instagram e já planeja os próximos passos. “Eu não tenho um número tão grande de seguidores. Acredito que é um número bom, mas não para o que eu pretendo, por isso me vejo na necessidade de estudar, criar e me aprofundar mais nos conteúdos. Eu sonho em ter  um estúdio de foto e vídeo, conhecer mais gente no ramo, ter mais parceiros e trabalhar com mais amor que nunca”, almeja.

O lado negativo  

Assim como em toda profissão, trabalhar com a internet também tem seu lado negativo. Com o peso da exposição, surgem os haters –  pessoas que espalham ódio pela internet -, e  nem mesmo os que estão começando ficam imunes à fúria daqueles que estão escondidos por trás de uma tela, geralmente em perfis falsos.  

Evilla em foto publicada em seu perfil no Instagram. Arquivo pessoal.

Com mais de 12 mil seguidores em seu perfil no Instagram, Evilla Pacheco já sente o peso de lidar com os odiadores. “No começo, eu sofria muito hater (ódio). Quando engordava, criavam perfis fakes pra falar que eu tava acima do peso e o mesmo acontecia quando eu emagrecia demais. Se eu tivesse um posicionamento político que não agradasse, criavam mais fakes para me xingar. Parei de me expor politicamente porque adoeci de tanto ódio que recebi”, relata. 

Atualmente, o conteúdo da blogueira aborda “sustentabilidade, autoconhecimento, autoestima e fashionismo” e, eventualmente, ela é atacada por pessoas que se sentem intimidadas pelos temas. “Parece meio utópico abordar esses assuntos quando, por vezes, as redes sociais acabam sendo mais tóxicas do que produtivas. Mas se eu passo um bom tempo do meu dia no Instagram, então tento ao menos consumir e transmitir conteúdos relevantes”, esclarece.

Mesmo após ser vítima dos ataques virtuais, Evilla não desistiu da profissão. “Agora eu estou voltando a produzir conteúdo aos poucos. Percebo que a maioria das pessoas me seguem porque gostam de mim ou porque gostam de acompanhar meu estilo de vida, com isso sobra pouco espaço para o hate escancarado. Agora, se alguém não gosta de mim, das minhas ideias ou do meu jeito de ser, guarda para si. Não sei se isso vai permanecer assim, mas de um ano pra cá, eu recebo mais carinho do que patada, e estou curtindo muito essa vibe mais tranquila. Agora estou na vibe beach lifestyle (modo de vida mais leve e com contato com a natureza), principalmente”, comenta.

Evilla usa todas as ferramentas disponíveis no Instagram para criar conteúdo. Reprodução Instagram.

Embora crie conteúdo digital há mais de três anos, a internet não é sua única fonte de renda. “Definitivamente, eu não consigo viver financeiramente apenas com o meu trabalho nas redes sociais. Eu até poderia, mas ainda não me dediquei o suficiente para isso. E penso constantemente se eu quero ou não me concentrar exclusivamente nisso, porque você pode até ganhar muito dinheiro quando vive em função do Instagram, mas para isso a sua saúde mental tem que estar muito blindada”, pondera.

Apesar de não ter muitos lucros com o trabalho digital, Evilla já recebe presentes de marcas e recompensas que considera mais valiosas que o dinheiro. “Em 2017 eu já ganhava mimos, mas não levava tão a sério. Até que eu comecei a ser abordada em lugares aleatórios por meninas que elogiavam o meu posicionamento e pediam para tirar fotos comigo.  Aí, eu percebi que tinha fãs e pessoas que acompanham o meu trabalho”, relata.

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