ONG acolhe pessoas LGBTQIA+ em situação de risco

Por Fayher Lima 

“Esperar o amor, mas andar com medo

Eu mereço muito, muito mais

Espero ter sorte e não morrer tão cedo

Eu sei que eu mereço andar em paz”. 

(Andar em Paz – Urias)

A letra da música “Andar em Paz”, escrita por Alice Caymmi e Lan Lanh, e interpretada por Urias, cantora trans, reflete a realidade enfrentada pelas pessoas travestis e transgêneras no país. O Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, segundo relatório da Associação Nacional De Travestis E Transexuais (Antra).

De acordo com a associação, em 2020, 175 mulheres trans e travestis foram assassinadas em todo o território nacional, número 41% maior que no ano anterior. Em 2020, o estado do Ceará registrou 22 homicídios contra trans e travestis, tornando-se o segundo do país com maior número de mulheres trans vítimas de assassinatos.  

Sobreviver – além de verbo – é a missão das pessoas T da sigla LGBTQIA+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgêneros, Queer, Intersexo, Assexual e mais). Ainda na música “Andar em Paz”, Urias canta: “mereço que parem de me matar”. Esse é o desejo de um grupo que resiste aos preconceitos da sociedade e luta diariamente pelo direito de viver.

Corpos marginalizados 

Já na música “Diaba”, Urias disserta sobre a marginalização das pessoas trans e travestis. “Sua lei me tornou ilegal, me chamaram de suja, louca e sem moral”, canta. Outro enfrentamento dessas pessoas é a falta de acesso ao mercado formal de trabalho.  Segundo dados da Antra, 90% das pessoas trans brasileiras têm a prostituição como única fonte de renda ou como renda complementar.

A prostituição é um dos poucos lugares onde elas podem ser elas: nome e gênero . Para a travesti trabalhar na noite não é preciso apresentar um documento que comprove seu nome social ou sua identidade de gênero, basta estar dispostas a compartilhar momentos com o outro, mesmo que durante ou após o ato e fora daquele contexto – muitas vezes um quarto sujo e escondido – o outro a agrida verbal e fisicamente. A sociedade joga a mulher transgênero na estrada e diz: “você não é digna da luz do dia”.

Moradores da Casa Transformar em atividade. Arquivo pessoal.

Foi pensando em oferecer direitos básicos como acesso à moradia, alimentação e emprego que, em 2019, nasceu o projeto Casa Transformar. Nik Hot, primeira funkeira travesti do Ceará, junto com seu marido, Davy Lima, abriu os portões de sua casa para acolher pessoas LGBTQIA+, em especial trans e travestis, em situação de vulnerabilidade social.

Embora esteja funcionando oficialmente há pouco mais de um ano, a Casa Transformar  acolheu a primeira moradora no final de 2017 – sem imaginar que tempos depois viraria um lar de resistência. “A Bruna bateu na nossa porta, nem sei como ela conseguiu nosso endereço, pedindo acolhimento. Ela tinha sido demitida do salão que trabalhava e estava com o aluguel atrasado”, relembra a fundadora. Inicialmente, Nik ficou receosa em receber Bruna. “Era a primeira pessoa que estava pedindo para ficar na minha casa, mas depois eu pensei que, se eu não fizesse algo, ela não ia ter para onde ir e ficaria na rua sentindo fome e frio. Ela é travesti como eu. Não posso deixar as minhas semelhantes passarem por isso. Eu vou fazer o que puder pela comunidade LGBTQIA+”, relata. 

Bruna foi para a casa do casal com a garantia de dormir duas noites, mas acabou morando com eles por três meses. A partir desse período, Nik e Davy começaram a acolher de forma anônima. “A gente acolhia amigos que a família expulsava de casa. Chegamos a receber  12 pessoas sem contar com nenhum auxílio”, explica Nik. 

Com o intuito de firmar parcerias para que o trabalho pudesse ter continuidade, Nik oficializou a Casa Transformar em outubro de 2019. “Nós somos uma ONG. Não recebemos apoio da prefeitura e nem do governo”, conta. Atualmente, a Casa Transformar acolhe dez pessoas e sobrevive através de doações e vaquinhas realizadas pela internet. “A galera que ajuda a ONG é muito incrível, nunca deixa a gente na mão. Hoje, todos da casa vivem numa situação confortável”, se alegra. 

Os moradores da casa cumprem uma rotina de obrigações, como a limpeza, manutenção do jardim e cozinhar as refeições. Para além dos afazeres domésticos, a Casa Transformar proporciona qualificação profissional. Por meio de parceria são realizadas aulas de jiu jitsu, teatro, teclado e italiano.  “A gente quer essas pessoas no mercado de trabalho. É importante que pessoas trans tenham sua própria renda e se tornem independentes”, ressalta Nik. 

Conheça a Casa Transformar 

Conheça moradores da Casa:

Emilly

O sonho de Emilly Alves, 22, é viver da arte. Ela começou a estudar balé clássico com 17 anos de idade, já participou de concursos de dança e atualmente é coreógrafa da Nik. Mesmo sem nunca ter feito um curso profissionalizante, Emilly também é maquiadora autodidata. “Eu sempre gostei de estar aqui, pois eu podia me expressar e ser eu mesma”, comenta sobre a importância da Casa Transformar para a sua auto-estima. Confira a história de Emilly.

Keleb: 

Kaleb, 22, saiu do Pará em busca de uma vida digna e encontrou um lar e qualificação profissional na Casa Transformar. “Eu cheguei aqui sem nenhuma estrutura física e psicológica”, comenta sobre o período de entrada na Casa. Conheça mais sobre o Kaleb.

Serviço:

Telefone: (85) 9 – 8126-8410

Instagram: casatransformar

Vakinha: vaka.me/1430182

Leíssa Feitosa (@leissaf)

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