Série ‘Bridgerton’ traz romance de época com questões atuais

por Raquel Sant’Ana

A nova produção de Shonda Rhimes (criadora de Grey’s Anatomy e How to Get Away with Murder) vem fazendo sucesso desde seu lançamento, no Natal de 2020. De acordo com a plataforma de streaming Netflix, a série alcançou o 1º lugar no Top 10 de séries mais assistidas da plataforma em 76 países, contabilizando 63 milhões de espectadores em seus primeiros 28 dias de lançamento. Sua segunda temporada já foi confirmada pela plataforma nesta quinta-feira (21). 

A primeira temporada acompanha Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor), filha mais velha da família Bridgerton, e sua apresentação como debutante à sociedade aristocrática de Londres. A jovem é reconhecida pela própria Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel) como ‘joia rara’ da temporada e chama a atenção de vários pretendentes. Mas Anthony (Jonathan Bailey), seu irmão mais velho, afasta todos os candidatos por não achá-los bons o suficiente.

Logo, Daphne se aproxima do recém-chegado Simon Basset (Regé-Jean Page), Duque de Hastings e amigo de Anthony. Ao contrário de Daphne, casamento é a última coisa que Simon quer. Para chamar a atenção de possíveis pretendentes para Daphne e espantar as de Simon, os dois fazem um acordo e fingem viver um romance.

Alguns telespectadores podem achar similaridades entre Bridgerton e clássicos como Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Ambas as obras tratam sobre casamento e a aristocracia britânica – Bridgerton, aliás, se passa em 1813, mesmo ano de lançamento do romance de Austen -, mas as semelhanças terminam aí. Bridgerton é construída para cativar a audiência moderna, desde os vestidos e trilha sonora até os discursos de empoderamento feminino.

Eloise (Claudia Jessie), segunda filha dos Bridgerton, não tem interesse em casamento e quer se tornar escritora. Ela é quem mais aponta as limitações de gênero impostas às mulheres e funciona como um contrapeso à sua irmã Daphne, que está mais do que disposta a se casar e participar da sociedade. 

Ao contrário de outras obras em que o papel de “feminista” cabe apenas a uma personagem, diversas mulheres de Brigderton têm opiniões similares a Eloise, incluindo a própria Daphne. No decorrer da série, ela desabafa a Hastings sobre a impotência que sente enquanto mulher e sobre como um bom casamento é importante para assegurar seu futuro e a segurança de sua família. Esses momentos trazem tridimensionalidade à personagem, que por vezes transparece como uma protagonista superficial, perfeita em excesso e difícil de se identificar.

Outro aspecto importante é a escolha por um elenco “colorblind” (ou “daltônico”). O termo é usado para produções que não levam em consideração a raça dos atores durante a escolha do elenco. Na maioria dos filmes e séries de época, personagens não-brancos são ignorados e, se aparecem, possuem tramas superficiais ou que reforçam a marginalização. Mas na realidade, a história mundial do século XIX, inclusive a europeia, está cheia de importantes personalidades não-brancas. Durante esse período, a Europa já mantinha relações com as Américas, Ásia e África. A própria Rainha Charlotte, que aparece na série, é especulada por historiadores como afro-descendente.

Portanto, a escolha de Bridgerton em introduzir personagens não-brancas em posições que normalmente não lhe eram permitidas é algo refrescante de assistir, mas que infelizmente ainda peca pela superficialidade. 

A maioria absoluta do elenco são de atores brancos, com apenas quatro personagens negros no núcleo principal: o Duque de Hastings, Marina Thompson (Ruby Barker), Lady Danburry (Adjoa Andoh) e Rainha Charlotte. Dos quatro, apenas Hastings e Marina têm enredos próprios. O papel de Danburry e Charlotte na série é ajudar o casal principal. Personagens asiáticos aparecem ao fundo, mas não são recorrentes.

Em um dos episódios, Lady Danburry, em uma conversa com Hastings, nos revela que o universo de Bridgerton não é tão “daltônico” como pensávamos. “Nós éramos duas sociedades separadas por cor até que o rei se apaixonou por uma de nós”, ela relembra ao afilhado. A declaração, além de desnecessária para a série, aparenta ser uma fraca justificativa para a limitada diversidade racial da produção.

Apesar disso, quem estiver à procura de uma série de romance “água com açúcar”, Bridgerton é uma ótima opção. Além do romance, o público não precisa conhecer as normas sociais da época para acompanhar a trama, ao contrário de obras historicamente mais rigorosas, como a nova adaptação Emma (2020). Mas o telespectador que tentar ir além da superficialidade sairá decepcionado. 

Ficha técnica

Título: Bridgerton

País: Estados Unidos

Data de lançamento: 25 de dezembro 2020

Nº de episódios: 8

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