A Caminho da Lua: a animação musical que trata sobre perda e luto

Por Clariana Matias

Over the Moon ou A Caminho da Lua, como ficou conhecida no Brasil, é uma animação musical de fantasia e aventura ambientada na China. Lançada em 16 de outubro de 2020 na plataforma de streaming Netflix, o filme conta com a direção de Glen Keane, responsável também pela direção de diversos longas da Disney, entre eles A Pequena Sereia, Aladdin, Tarzan e A Bela e a Fera.

A protagonista, Fei Fei, é fascinada pela lenda de Chang’e, a deusa da Lua, graças a sua mãe que sempre lhe contou histórias sobre a deusa que vivia solitária na Lua, apenas com a companhia de seu coelho por conta de um elixir que tomou sozinha e lhe deu a vida eterna, a separando de seu amado, Hou Yi. 

Fei Fei e seus pais. Foto reprodução.

Ainda pequena, Fei Fei enfrenta a morte de sua mãe e começa a trabalhar na loja, fazendo as comidas que a família vende  na loja. Apesar de não lidar com o luto, isso fica ainda mais evidente quando seu pai começa a ter outro relacionamento. Fei Fei não suporta a ideia de ver alguém ocupando o espaço que era de sua mãe e odeia o fato de ter que dividir a casa não apenas com uma madrasta, mas também com seu filho, Chin. Ela fica chateada quando percebe que as pessoas a sua volta seguiram em frente após alguns anos, inclusive o seu pai, que demonstra não mais acreditar que a deusa da Lua existe. 

Fei Fei. Foto reprodução.

Apaixonada por astronomia, Fei Fei monta um plano para construir um foguete e assim ir até a Lua para provar a sua teoria de Chang’e. Um dos pontos fortes do filme é ver uma protagonista feminina com interesse muito forte em ciência e a sua determinação para chegar no seu objetivo. O filme também consegue costurar muito bem a crença de Fei Fei com a ciência. Após diversas tentativas sem sucesso, ela finalmente consegue fazer a sua espaçonave voar, mas acaba percebendo que Chin também estava lá, o que fez com que enfrentasse problemas e precisasse de uma ajuda do espaço.

Ao chegar à Lua, Fei Fei percebe que além de não estar sozinha, Chang’e não  parece ser nada do que sua mãe lhe costumava contar em suas canções. Chang’e lhe pareceu convencida e egoísta, lhe exigindo um presente especial em troca da prova de sua existência: uma foto das duas tirada por Fei Fei. A deusa propõe uma competição, quem lhe entregar o presente, dentre todos os habitantes da Lua e Fei Fei e Chin, poderá ter um desejo realizado. 

Além de tocante, A Caminho da Lua é um filme visualmente bonito. Sua trilha sonora o torna delicado e sensível, principalmente por se tratar de luto. Abordando esse tema, ele não apenas se torna uma animação para crianças, mas também um filme que adultos poderão se identificar e se emocionar. A “vilã” Chang’e tem um plano de fundo, enriquecendo ainda mais o longa. Ela desconta o seu luto nos outros e acaba criando um ambiente tóxico ao seu redor. A deusa precisa do presente para trazer Hou Yi até a lua. mas percebe que mesmo conseguindo isso terá que se despedir do seu amor e seguir em frente. Com isso, ela ajuda Fei Fei a superar o luto e entender que, mesmo não estando viva, sua mãe estará sempre com ela. 

A amizade é também um tema bem trabalhado no filme, Fei Fei reconhece a importância de Chin e o quanto o quer por perto, e passa a ver a namorada do pai com outros olhos, lhe dando abertura para se aproximarem e ela ser feliz novamente.

A lenda de Chang’e

De acordo com a lenda, havia dez sóis no céu e eles queimavam as plantações fazendo as pessoas morrerem de fome. O arqueiro Hou Yi usou arco e flecha para atirar em nove sóis e foi recompensado com um elixir da vida eterna. Ele o guardou para compartilhar com Chang’e, mas enquanto ela estava sozinha em casa, tentaram roubar o frasco e Chang’e tomou todo o elixir. Ao chegar em casa, Hou Yi já a encontrou subindo para a Lua. Após uma triste despedida, Hou Yi começou a rezar constantemente para a Lua, honrando a sua esposa. 

Após a criação dessa lenda, também foi criada a lenda em torno do coelho de Chang’e. Três imortais disfarçaram-se de mendigos para pedir comida na floresta e receberam alimentos da raposa e do macaco. Sem nada para oferecer aos mendigos, o coelho se jogou na fogueira, oferecendo a própria carne. Os imortais ficaram tão emocionados que o tornaram imortal e o enviaram para viver com Chang’e.

A lenda de Chang’e foi criada durante a dinastia Song, entre 960 e 1127. O feriado nacional da China é comemorado em 15 de agosto no calendário lunar. Os antigos imperadores e trabalhadores do campo são os grandes homenageados nesta data. As famílias costumam comemorar fazendo um jantar para venerar as luas cheias e, assim como no filme, eles costumam comer de sobremesa os Bolinhos da Lua, preparados para esse evento. 

Em memória de… 

A Caminho da Lua foi escrito por Audrey Wells, uma roteirista, cineasta e produtora cinematográfica norte-americana. Ela morreu em 2018, após lutar contra um câncer e escreveu o filme como uma carta para a sua filha superar o luto. Isso o torna ainda mais emocionante e real. E só mostra como o luto é um assunto que deve ser tratado por adultos e crianças. Audrey Wells escreveu filmes como George, o Rei da Floresta; Sob o Sol da Toscana; Quatro Vidas de um Cachorro e O Ódio que Você Semeia. 

Ficha Técnica

Over the Moon, A Caminho da Lua

Ano: 2020

Direção: Glen Keane

Duração: 1h 40min.

Nacionalidade: EUA, China.

Gênero: Animação, Fantasia, Aventura, Comédia, Musical.

Confira o trailer: 

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