“A gente acaba silenciando o racismo que mata”

Luizete Vicente é doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Ela também é diretora e roteirista da curta-metragem Os Cabelos de Yami, que conta a história do primeiro dia de aula de uma menina negra na sua nova escola.

por Natália Locatelli

Em maio desse ano, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos, George Floyd, homem negro, é morto por um policial que, mesmo já imobilizado, apoia o joelho em seu pescoço, levando-o a óbito. No mesmo mês, no Rio de Janeiro, o menino João Pedro, negro, de apenas 14 anos, é morto durante uma operação da Polícia Civil e Polícial Federal no Complexo do Salgueiro. Essas situações mostram a desigualdade, discriminação e opressão vivenciada por parte da população negra todos os dias em vários lugares do mundo. 

No Brasil, todo 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra. Para tratarmos dessa temática, entrevistamos a doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Ceará (UFC), Luizete Vicente, 35 anos, jornalista da ONG Fábrica de Imagens, roteirista e diretora do curta-metragem Os Cabelos de Yami, que aborda o racismo a partir do olhar de uma criança.

Jornalismo NIC – Essa semana comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra. De que maneira a senhora acredita que essa data tem contribuído parar melhorar as condições de vida dos negros no Brasil?

Luizete Vicente – Sobre o 20 de novembro, chegamos ao mês da Consciência Negra e muitos gostam de falar coisas ruins sobre esse mês que possui todo um significado, principalmente, no que diz respeito à compreensão sobre a luta da população negra. Conscientização é uma palavra que tem uma relação direta com um pedagogo nosso, que a disseminou, o Paulo Freire, com o significado de afirmar-se para o mundo, de transformação social. Essa consciência, quando a gente fala do dia 20 de novembro, tem esse tarefa que homens, mulheres, negros, brancos, indígenas, a população LGBT+, quilombolas, as comunidades ribeirinhas, possam entender que é uma data alusiva à representação da luta de uma população que por muitos anos, ou séculos na verdade, foi escravizada no nosso país. O Brasil foi o último país a abolir a tão dolorosa escravidão, e a gente vive em um estado que foi o primeiro do país a abolir a escravidão (Ceará), mas que acaba silenciando, achando que não tem população negra. É uma tarefa, que esse mês a gente possa, não só discutir sobre o tema e o significado desse ser negro no Brasil e no mundo, mas o significado dessa consciência que deve ser de todos. Para ter essa consciência negra é preciso conhecer o que se fala de um devir no mundo. Quem fala e já discutiu sobre isso é a Judith Butler (filósofa pós-estruturalista estadunidense e uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e da Teoria Queer), que fala de um devir mulher, e o Achille Mbembe (filósofo africano). Eles falam sobre esse devir, que é você ter empatia, esse debate precisa ser real, por isso que a gente fala que essa consciência negra deve ser real. No Brasil, todas as pessoas devem ter empatia sobre o significado dessa consciência negra. É essa a importância de um mês que discute, dar um lugar especial de fala para a população negra, mas que não deve ser só no 20 de novembro, ou só no mês de novembro, deve ser no ano inteiro. A data simboliza uma luta especial que a gente conhece que é de Zumbi do Quilombo dos Palmares, que faz parte graças a essas leis que implementaram o debate sobre o histórico da cultura afro-brasileira, indígena. 

 A gente não consegue mudar a realidade desses países e das desigualdades, enquanto a gente não entender que não é um tema de uma única população, mas um tema de uma sociedade inteira.

JN – O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) teve seu início no ano de 2012, nos Estados Unidos, com a morte do adolescente de 17 anos, Trayvon Martin, e que depois ganhou maiores proporções em 2020 com a morte de George Floyd e de Breonna Taylor. Esse movimento ganhou força por todo o mundo e, na mesma época, no Brasil, ocorreu a morte do menino João Pedro, que tinha apenas 14 anos e foi morto durante uma operação policial. Qual é a sua opinião quanto a esse movimento e também quanto à repercussão e a importância de ambos os casos? 

LV – A gente viu esse ano bem forte o retorno do Black Live Matter, mas que já é um tema que é recorrente. Você falou sobre esse slogan que nasce, mas que antes dele já se discutia muito nos Estados Unidos sobre a importância das vidas negras. Nós temos uma diferença sobre o debate das relações raciais Brasil versus Estados Unidos, mas que também nos unificam e nos separam. Os Estados Unidos tiveram uma segregação, o apartheid, tendo até mesmo bairros, universidades e escolas específicas para negros. Eles separaram de forma muito evidente e isso foi até a década de 60. Nós estamos no século XXI e isso aconteceu no século XX, então só mostra que ainda é recente esse tipo de perfil que os Estados Unidos tinha, essa forma de organização, e que, só depois de muitos bombardeios e muita luta da população negra de lá, retiram essa entrava. Mas ainda ficam os resquícios, não tem como. Vão existir resquícios e a gente vê eles até hoje, no modelo de polícia, de segurança pública nos Estados Unidos. Esses negros, os que morreram principalmente nesse ano, o George Floyd e a Breonna Taylor, foram símbolos de lutas. E assim como tantos outros, porque eles são a representação de um momento atual, de grande enfocamento no debate do racismo, artistas que se pronunciam muito sobre isso e mesmo os Estados Unidos, que teve um presidente negro, mesmo assim não conseguiu responder de forma efetiva, mudanças reais, porque o racismo é estrutural. Entrando agora no Brasil, o racismo é estrutural enquanto não mudarmos a realidade desse racismo. A gente não consegue mudar a realidade desses países e das desigualdades, enquanto a gente não entender que não é um tema de uma única população, mas um tema de uma sociedade inteira. A gente não vai conseguir mudar. Não é à toa que os Estados Unidos fizaram esse apartheid (em africâner significa “separação”, regime de segragação racial imposto na África do Sul pelos brancos, que durou de 1948 a 1994) e depois teve a valorização da economia. Existe uma classe média negra nos Estados Unidos, mas mesmo assim não define, como não definiu não só o George Floyd, mas vários outros jovens homens e mulheres que foram assassinados lá por serem negros. Isso nos alinha nessa luta agora com o Brasil porque nós temos um racismo que é muito mais perigoso que lá (nos Estados Unidos). Eles definem muito esse debate sobre negro e a família quando tem essa linhagem, ela é uma família negra e ponto. Aqui, a gente tem redefinições sobre racismo porque nós temos o debate da diversidade, da quantidade de raízes criadas aqui, no Brasil, e aí traz esse racismo à brasileira. No Brasil, existe uma ideologia de uma democracia racial, todo mundo está junto. Eu não posso dizer quem é branco, quem é negro no Brasil, porque todo mundo é igual, porque todo mundo tem alguma coisa. Nisso, a gente acaba silenciando o racismo que mata. Por exemplo, esse jovem, o João Pedro. Mata aquela criança que a empregada foi levar o cachorro para passear em Pernambuco e pediu pra patroa cuidar da criança. Isso diz muito, esse perfil mostra o que é o racismo à brasileira. 

Os Cabelos de Yami é uma ficção que conta a história do primeiro dia de aula de uma menina negra na sua nova escola. Ela se depara com um grande desafio: a aceitação de seus cabelos crespos pelos colegas de classe. (Foto: Os Cabelos de Yami via Facebook)

JN A senhora foi roteirista e diretora do curta-metragem “Os Cabelos de Yami”, que aborda da perspectiva de uma criança negra as dificuldades encontradas no primeiro dia na escola e o julgamento de seus colegas de classe quanto aos seus cabelos, que foi lançado em 2018. Como surgiu a ideia da história?

LV – Eu e uma amiga, a Rebeca, que é a outra diretora, nós trabalhávamos juntas em uma ONG (Organização Não Governamental), a Fábrica de Imagens, que trabalha cidadania e gênero, em Fortaleza, e que desenvolve o projeto Curta o Gênero. Lá, a gente conversava muito sobre diversos temas, inclusive sobre esses debates [sobre racismo]. Eu e a Rebeca somos do Movimento Negro, então discutimos muito sobre isso e falávamos sobre os desafios. Quando a gente pensou na produção dessa história, história real de várias meninas, mas, devido ao Movimento Negro, tínhamos relatos de várias pessoas, inclusive de uma amiga que tem uma filha que o nome dela é Yami. Quando a filha chegou em casa, a filha queria alisar o cabelo e ela foi perguntar o porquê. A gente conversando sobre isso pensou nesse roteiro e eu tenho uma relação muito de respeito, de cuidado com as religiões de matriz africana. O vídeo fala muito sobre religiões de matriz africana, sobre dois Orixás muito cultuados no candomblé e na umbanda, aqui no Brasil, e que são comuns de religiões no continente africano. Eu pensei que a gente tinha material, mas precisava criar mais materiais que possam ajudar outras crianças, porque do mesmo jeito que Yami, elas passam por isso. Outras crianças chegam pra gente falando da escola, “professora não tocou no meu cabelo”, “a professora pega no cabelo de todas as meninas menos no meu”. Então tem muito isso, “a menina puxou meu cabelo” ou “o menino colocou tais apelidos no cabelo”. Isso é muito cruel porque dita como essas meninas vão crescer.  

Cena de Os Cabelos de Yami, dirigido por Luizete Vicente e Rebeca Barbosa. (Foto por Levi Magalhães via Behance)

JN – Qual é o significado das tranças e a sua relação com a apropriação cultural? 

LV – Minha tese [de doutorado] fala sobre mulheres negras, identidade e representação. Eu entrevistei uma cabeleireira, que é exatamente especialista em tranças, e lá as pessoas que trabalham são mulheres de Guiné Bissau. Elas aprendem desde pequenas a fazer trança, é muito comum lá. Ela falou disso, tem as tranças das mulheres que são casadas, são diferentes das mulheres solteiras. Tem a forma de trançado, o que é diferente de uma tribo, de uma comunidade para outra, de uma aldeia para outra. Elas têm essa relação e tem um debate sobre a valorização dessas tranças muito forte. Aí, quando fala sobre apropriação, trazendo pra nós, aqui no Brasil, a gente precisa entender que existem símbolos que fazem parte da cultura de populações. O turbante, por exemplo, é algo muito utilizado pela população negra, veio realmente do continente africano, do Marrocos. Quando a gente discute população negra, sobre cuidado com essas apropriações, é porque os meios de comunicação criam sempre estratégias para realocar algum tipo de prática. Por exemplo, o rastafári (movimento religioso jamaicano surgido na década de 1930), que são aquelas tranças que vem de uma doutrina rastafári, de uma construção de um jamaicano que pensou a doutrina inteira, sobre o significado de uma caminhada, de uma libertação rastafári, que é uma libertação da cabeça, enquanto construção de mundo de melhores condições de vida para população, dentre outras coisas. Aí, ela é deturpada, dizendo que são as pessoas maconheiras. Isso é mecanismo de poder. Michel Foucault (filósofo e historiador francês falecido em 1984) fala muito na microfísica do poder. Ele diz, ‘cuidado, os mecanismo de poder não tem só a tarefa de negar alguma coisa, eles tem a tarefa de criar, reproduzir um discurso’. Para afirmar isso, se ele não consegue negar, ele cria um discurso que restabeleça estratégia para continuar com esse modelo [de poder]. 

JN – O empoderamento para as mulheres negras possui um significado mais amplo, coletivo, posicionando-as como agentes ativas de mudanças culturais da sociedade. No processo de conscientização, ela não se vê como sendo só ela, mas como fazendo parte de algo muito maior. Um dos processos desse empoderamento é a revolução capilar que aconteceu com as mulheres negras, que rompe com a imposição de uma beleza homogênea. Como vê essa perspectiva de empoderamento?

LV – Empoderamento. Olha como é incrível essa palavra. O empoderar-se, ele é de dentro pra fora. Elas falam de forma muito consistente que na verdade é coletivo, mas começa no individual para que se transforme no coletivo. Eu tenho que olhar no espelho e perceber que alguma coisa sempre está me incomodando, mas eu não sei o quê e como responder a isso. Aí vem a história desse enquadramento, vem a partir da conscientização, quando eu me conscientizo dessa ação, eu faço uma reflexão, eu percebo que é preciso mudar, porque essas estruturas e os mecanismos de poder ficam ditando uma coisa que me marcou, que me violenta, que silencia o meu corpo, meu cabelo. Uma das entrevistadas [para a tese de doutorado] fala disso: “desde muito pequena, eu percebi que eu era diferente, não era como as outras pessoas”. Ela pensa assim, e aí disse que pegava o pregador e colocava no nariz pra tentar afinar. “Eu comecei alisar o cabelo”. Isso diz muito sobre a forma como a mídia tenta homogeneizar a sociedade, tenta ditar o modelo e violenta as mulheres. A mídia ainda vai dizer que é tal roupa, como a Veja (revista) colocou, “bela, recatada e do lar”, [mulher] do Michel Temer. Então a mídia nos joga isso a todo instante pras mulheres negras, principalmente, que tem o debate do cabelo afro, o cabelo crespo, cabelo cacheado. Isso ainda é mais cruel porque elas vão tentar ser aceitas e para serem aceitas, elas vão ter que negar alguma coisa. Se eu quero ser aceita, eu tenho que me negar. E pra negar, eu tenho que retirar alguma coisa. Hoje, esse rompimento, esse empoderamento dos cachos tem feito e transformado a sociedade. Hoje em dia, você chega no supermercado, você chega numa loja de cosméticos, numa farmácia e tem uma mega produção só pra cachos, tem especialistas dos cachos, especialistas em transição capilar. Pessoas especializadas nisso porque são elas olhando pra dentro, e quando elas olham pra dentro, elas olham pra fora. Essa mudança de dentro pra fora é social, mas ela é principalmente psicológica, porque a gente não vai se transformar se a gente não faz transformação psicológica também. Cachos, que são empoderamentos da vida, do corpo, da fala, de tudo, é muito isso essa transformação capilar.

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