Cinema como processo democrático e construção cidadã

por Projeto Radar

O acesso ao cinema no Brasil está em discussão desde novembro de 2019, quando foi o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio, Enem. O tema “Democratização do acesso ao cinema no Brasil” teve repercussão nas redes sociais, na mídia e entrou em debate sobre a necessidade de usufruir a sétima arte no País. 

Em entrevista ao portal G1, o diretor de cinema Bruno Oliveira garante que a cultura precisa de investimento, no entanto, também são necessários mecanismos para facilitar o alcance dessa forma de diversão e lazer para a população. Ele afirma que “estamos ainda muito longe da democratização do acesso ao cinema brasileiro”.

Já para o diretor Marcelo Gomes, a democratização do cinema leva o Brasil a construir sua identidade.  “O cinema é o espelho da nossa cultura. A gente tem que democratizar, fazer chegar a todas as camadas da população, não apenas [estar] em shoppings com ingressos caros. É uma forma de as pessoas acessarem mais conhecimentos, é fundamental ao País”, discute. 

Mapas de Cinemas no Brasil. Os círculos representam a quantidade de salas de cinema por estado e em azul, a concentração de habitantes por salas – quanto mais escuro, mais pessoas para cada sala. Por Raquel San’Aana.

Com obras cinematográficas, é possível desenvolver a construção da subjetividade, praticar a dialogicidade e a interdisciplinaridade. Para a pesquisadora Cláudia de Almeida Mogadouro, “o cinema pode ter um papel altamente educativo. Se assumido pela educação formal, é um grande aliado na formação humanista e cidadã”.

Para o cineasta e professor da Universidade de Fortaleza, Glauber Filho, “quando falamos de democracia, temos que falar dentro de um contexto político, cultural, de um determinado país. A gente quer desenvolver um processo de construção de cidadania e de reconhecimento da nossa identidade, da nossa cultura, a partir daí, podemos pensar em cinema”.

Acesso geográfico: desafios e má distribuição

De acordo com os dados do Ministério da Cultura, o nordestino tem se distanciado do cinema. Entre 2009 e 2018, registrou-se uma redução de 50% no número de pessoas que frequentam salas de cinema.

Já no Ceará, é o cinema que está longe das pessoas. A maioria dos cearenses que quiserem assistir a um filme numa sala de cinema devem se deslocar de suas cidades, é o que aponta os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, em 2018, 51% dos moradores viviam em municípios sem acesso ao cinema. O Estado contabiliza apenas uma sala de cinema para cada grupo de 91.673 habitantes.

Ainda de acordo com o IBGE, em 2018, o Ceará possuía 99 salas de exibição que estavam concentradas em 10 cidades, sendo elas: Aracati, Caucaia, Fortaleza, Juazeiro do Norte, Limoeiro do Norte, Maracanaú, Maranguape, Quixadá, Sobral e Tianguá.

Mapa com a distribuição de complexos de cinema no Ceará. Por Raquel Sant’Ana.

Assistir a um filme no cinema é uma experiência ainda mais difícil de realizar para alguns grupos. O IBGE aponta que 44% da população negra ou parda brasileira vivia em municípios sem acesso ao cinema, enquanto o número de brancos na mesma situação era de 34,8%. O estudo mostra o acesso ao cinema por gênero, cor ou raça, grupos de idade e nível de construção.

Com o avanço da internet no Brasil e o surgimento dos streaming (plataformas on-line para assistir filmes, séries e programas), o acesso ao cinema ficou mais democrático. Agora, as produções cinematográficas estão disponíveis nas telas de celulares, computadores e smart tvs.

Segundo o Hootsuite, sistema norte-americano especializado em gestão de marcas nas mídias digitais, 70% dos brasileiros tinham acesso a internet até janeiro de 2019. Com 149,1 milhões de habitantes navegando na rede, o tempo médio diário gasto no país assistindo transmissões de streaming e vídeo sob demanda é de 3 horas e 26 minutos. 

Embora a internet ainda não seja realidade para 30% dos brasileiros, ela atua como mais uma ferramenta de acesso à cultura e, assim como as quase extintas locadoras,  aproxima as produções audiovisuais dos telespectadores, porém com a rapidez que é característica do digital.

Como ocorre o acesso ao cinema através da internet?

O internauta pode assinar um plano mensal em sites especializados e ter acesso ilimitado ao catálogo disponível, alugar ou comprar filmes avulsos nas “locadoras” digitais. O fator financeiro também é um ponto positivo para as plataformas de cinema on-line. De acordo com o IBGE, em 2018 a família cearense gostou, em média, 100 reais por mês em acesso à cultura. Valor acima dos preços das assinaturas mensais dos streamings disponíveis no Brasil. Confira o preço de alguns deles no infográfico.

Preços das assinaturas mensais de streamings no Brasil. Por Raquel Sant’Ana.

O público é quem faz o cinema acontecer

A distribuição e o alcance da população às salas de cinema representam a concentração socioeconômica e a desigualdade regional do Brasil. Enquanto a região Sudeste concentra o maior número de locais de exibição,  a região Nordeste tem o menor índice de habitantes por sala.

Segundo dados divulgados pelo Observatório Brasileiro do Cinema e Audiovisual, OCA, foram vendidos cerca de 174 milhões de ingressos de cinema no País em 2019. Isso representa um aumento de 6,8% do público em salas de exibição no Brasil se comparado a 2018. Contudo, muitos brasileiros ainda não têm acesso a esse tipo de produção audiovisual.

Para o cineasta Glauber Filho, diretor e roteirista de filmes como “As Mães de Chico Xavier” e “Bate Coração”, a democratização não está ligada somente à diminuição do valor do ingresso. “A questão do acesso tem a ver com um processo de aculturação. Democracia é uma função de cidadania”, declara. Para grande parte da população cearense, o acesso ao cinema ainda é restrito uma vez que 12 municípios concentram todas as salas do Estado. Dados divulgados pelo Observatório Brasileiro do Cinema e Audiovisual, OCA, vinculado à Ancine, mostraram que 93% das 184 cidades do Ceará não têm salas de cinema. 

Por estarem localizados em shoppings, nos grandes centros urbanos, os cinemas não são acessíveis a todos. Os moradores da periferia, por exemplo, têm grande dificuldade de acessar locais como esses. Os valores do ingresso, da alimentação e do transporte são os principais fatores que impedem a escolha dessa forma de lazer pelas classes populares.

por Raquel Sant’Ana

Para assistir a um filme em um shopping de Fortaleza, segundo um levantamento da plataforma Cuponation, o espectador gasta, em média, R$ 34 num ingresso. 

Uma opção com valor mais acessível é o Cineteatro São Luiz, localizado na Praça do Ferreira, no Centro da cidade. Considerado patrimônio histórico e cultural do Estado, o cinema tem capacidade para 1050 pessoas e exibe filmes com ingressos a partir de R$ 5,00. Além disso, por meio do projeto “Férias no São Luiz”, que acontece nos meses de janeiro e julho, o público pode assistir a sessões gratuitas.

Produções cinematográficas nacionais em ameaça

A democratização ao acesso ao cinema no Brasil é pautada há algum tempo. No ano de 2019, o Enem trouxe o tema à tona. Desde então, o assunto não saiu de pauta. A estudante de jornalismo Sarah Mariana conversa com o cineasta Max Eluard, que comenta sobre as dificuldades que o cinema nacional enfrenta em relação a distribuição. Participa também, a advogada na área do audiovisual Cecília Rabelo, que explica  como funciona a Lei Rouanet e fala sobre o estatuto da pessoa com deficiência.

O podcast foi produzido por Mabel Freitas, Sarah Mariana, Gustavo Queiroz, Matheus Moura e Victor Mandarino. Apresentação de Sarah Mariana.

Em relação à distribuição de filmes para as salas de cinema, produções estrangeiras continuam como protagonistas na oferta de filmes comercialmente competitivos, adquirindo mais de 80% da renda obtida nas salas de cinema em 2019, como afirma o Informe de Mercado divulgado pela Agência Nacional do Cinema (Ancine) no começo de 2020

Para a Professora do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza (Unifor), Bete Jaguaribe, esse é um problema histórico desde o início da produção de cinema no Brasil. “Com a profissionalização do mercado audiovisual, as empresas americanas ocupam um mercado internacional com filmes americanos. O Brasil é dominado pelo cinema americano, então temos que furar esse bloqueio econômico e cultural”, explica.

Em consequência de um possível encerramento das atividades da Ancine e com o fim do Fundo Setorial do Audiovisual, lei instituída em 2006, Bete acredita que a produção do cinema nacional pode acabar, pois toda a cinematografia do mundo precisou de incentivo dos governos estaduais. 

A norma que sustenta a propagação do cinema nacional é a chamada ‘cota de tela’. Existente em alguns países no mundo, é uma obrigação legal de exibição de um mínimo de obras nacionais no cinema e que foi implementada por Getúlio Vargas no ano 1930.

Este ano, a cota voltou a existir na prática, mas com alterações. De acordo com a Ancine, será calculada de acordo com o número de salas e em função do grupo exibidor: grupos que tiverem duas ou três salas de cinema, por exemplo, devem exibir 28,2 dias de produções nacionais ao ano. Já para aqueles com 201 ou mais salas este número salta para 57,3 dias. 

A cota de tela ainda determina que uma variedade de títulos seja exibida nas salas de cinema: quem tem uma sala deve exibir ao menos três obras diferentes ao longo do ano, enquanto os grupos com mais de 20 salas devem programar 24 produções nacionais em 2020. Há uma norma na agência em que, após às 17h, haverá uma redução de 20% da obrigatoriedade para a exibição de obras cinematográficas brasileiras de longa metragem para cada sessão programada.

Cinema para todos

No contexto contemporâneo, são inúmeras as barreiras enfrentadas por indivíduos portadores de deficiência. Essas dificuldades são vivenciadas em diferentes cenários, incluindo nas salas e produções de cinema, visto que as estruturas das salas são inacessíveis e as adaptações necessárias nas produções cinematográficas são inexistentes.

No Brasil, as pessoas com deficiência (PcD) e mobilidade reduzida têm o acesso à cultura, ao esporte e ao turismo assegurado pela legislação. A Constituição, através da  LEI Nº 13.146, visa promover a inclusão social de PcD e mobilidade reduzida, para isso os espaços comuns e públicos devem proporcioná-los segurança e autonomia.

A lei também é aplicada ao cinema. Para que as produções cinematográficas sejam acessíveis para todos os públicos, a Agência Nacional do Cinema (ANCINE) possui normas de inclusão. Os filmes devem ser produzidos com traduções e adaptações para cegos e surdos.

Segundo a professora e pesquisadora, Vera Santiago, do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e fundadora do Grupo Legendagem e Audiodescrição (Lead) e do Laboratório de Tradução Audiovisual (Latav), mesmo com as regras da ANCINE, as produções e as salas de cinema ainda são inacessíveis aos cegos e bem limitado aos surdos. “Para os surdos, eles ainda têm legenda em filmes estrangeiros. Mesmo sem as informações adicionais, eles assistem a esses filmes. Eles só não têm acesso a filmes nacionais”, conclui.

Em vista do despreparo das salas de cinema e das obras cinematográficas, a ANCINE determinou na Instrução Normativa 128/2016 que a partir do dia 1º de janeiro de 2020, todas as salas de cinema do país serão obrigadas, sob pena de multa, a oferecer aparelhos de acessibilidade para deficientes visuais e auditivos.

Contudo,  o presidente Jair Bolsonaro assinou uma medida provisória, adiando o cumprimento da meta por mais um ano, ou seja, para 1º de janeiro de 2021.

Mesmo com a falta de uma acessibilidade real para pessoas com deficiência, existem iniciativas que auxiliam neste processo. Uma delas é a startup Cinema Cego, criada por pesquisadores da Universidade de Brasília. Ela possui um compromisso de impactar positivamente a vida de todas as pessoas com limitações visuais e possibilita o  enxergar pelos ouvidos através da tecnologia, não permitindo que o atraso do Poder Público seja interferência em projetos inovadores.  

O consultor em audiodescrição (tradução para deficientes visuais) da startup Cinema Cego, Paulo Lafaiete, se opõe à medida provisória e declara. “Essa decisão pode ter um impacto negativo, isso porque, as salas de cinema vão empurrando com a barriga e não criam interesse em disponibilizar o recurso que tanto auxiliam as pessoas com deficiência visual no Brasil.”

Esta matéria foi produzida por estudantes do curso de Jornalismo da Unifor como trabalho da disciplina de Projeto Integrador I, ministrada pela professora Adriana Santiago. Para conferir o material original clique na imagem abaixo.

Expediente Projeto Radar

Edição: Beatriz Irineu, Chate Naberezny, Fayher Lima e Laís Maia

Audio: Sarah Mariana, Mabel Freitas, Gustavo Lima e Vitor Hugo Mandarino

Redação: Sarah Esmeraldo, Letícia Medeiros, Victória Crisostomo e Gabriela Paiva

Imagem: Raquel Sant’Ana, Jéssica Alves, Matheus Albino e Lara Montezuma

Orientadora: Adriana Santiago

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