“Pix traz a possibilidade de elevação no nosso Produto Interno Bruto”

por José Bessa

Allison Martins é membro do comitê de implantação do Pix e coordenador do curso de Economia da Universidade de Fortaleza. (imagem: acervo pessoal)

Anunciado em fevereiro de 2020, o Pix, novo sistema de pagamento e de transferência de dinheiro do Banco Central, abriu o seu cadastro no último dia 5 de outubro para se tornar operacional no dia 19 de novembro deste ano. 

Diferente das transferências TED e DOC, este novo método promete funcionar por 24 horas  todos os dias do ano, além de realizar as transações em até 10 segundos e não cobrar taxa de serviço. 
Para nos esclarecer a implementação deste novo sistema, conversamos com o professor Allison Martins, coordenador do curso de Economia da Universidade de Fortaleza.

Jornalismo NIC: O senhor pode explicar a criação do Pix no contexto do sistema financeiro brasileiro? Ou seja, qual foi a necessidade da sua criação?

Allison Martins: O Pix é uma nova modalidade de pagamentos e transferências que traz um avanço tecnológico, em que, até então, não tínhamos em nosso horizonte. Irá permitir uma conveniência de você fazer pagamentos e transferências independentemente de qual banco,  durante 24 horas por dia, sete dias por semana. Então, é uma possibilidade que chega ao mercado financeiro que trará muitos benefícios, sendo um deles, apresentado pelo Banco Central, que somente a implementação do Pix traz a possibilidade de elevação no nosso Produto Interno Bruto, o PIB, em até 0,7%, além de trazer celeridade e comodidade. 

JN: O Pix terá algum tipo de impacto na economia do Brasil, além deste crescimento do PIB?

AM: Em uma questão microeconômica, o Pix trará o benefício para pessoas físicas da exoneração das tarifas para fazer uma transferência simples, sendo essa liberação de maneira regulamentada. Será cobrada esta taxa entre pessoas físicas somente se alguém estiver vendendo algum produto ou serviço. 

No caso das empresas, trará o benefício da velocidade do recebimento de recursos. Por exemplo, as empresas trabalham muito com boletos e eles demoram um ou dois dias úteis para serem processados para o dinheiro cair na conta. Já com o Pix, tudo isso vai ser em uma questão de segundos, onde terá uma geração de caixa mais interessante. 

JN: O uso do Pix será da mesma maneira das transferências TED e DOC?

AM: TED e DOC continuarão podendo ser utilizadas já com o Pix. Se você reparar bem na sua conta corrente, no seu aplicativo ou no seu internet bank já existe uma opção Pix, onde dentro desta opção você poderá fazer uma transferência ou um pagamento para uma pessoa física ou para uma pessoa jurídica. Ou seja, TED e DOC ainda continuarão como uma opção e o Pix terá um módulo caso alguém deseje utilizá-lo.    

JN: Que recomendação o senhor pode dar para alguém que pretende criar sua  chave Pix? 

AM: Cautela, não precisa se apressar uma vez que o Pix só começa a se tornar funcional em 16 de novembro, e avaliar previamente qual instituição bancária que você mais utiliza.  E, então, nesta corporação você cadastra o seu CPF como sua primeira chave, caso tenha uma segunda conta cadastre o seu número de telefone e se tiver uma terceira conta registre seu e-mail. 

Com o Pix, será possível fazer transferências para pessoas físicas e jurídicas (imagem: Freepik)

Não é necessário ter cinco chaves, que é o limite por pessoa física, para cada instituição. Basta apenas uma. Só se você tiver uma conta corrente e uma poupança em uma mesma corporação, assim você registra uma Chave Pix para cada tipo de conta. 

JN: Por que existem essas chaves?

AM: O Banco Central sabe o quão é chato você fazer uma TED ou um DOC e ter que digitar seu o número do banco, a agência, a conta, o digito, o nome, o CPF e o valor. Então, o Banco Central decidiu criar esta chave para englobar todos esses requerimentos. Portanto, quando você for fazer uma transferência não será preciso digitar tudo isso, precisará apenas a chave e o valor. 

JN: Pessoas jurídicas podem ter até 20 chaves do Pix, por quê? 

AM: No ramo comercial e de serviços existem diversas formas de recebimentos de recursos, então, para fazer com que as empresas recebam seu dinheiro de maneira mais rápida, o Banco Central decidiu limitar este número de chaves. Mas acredito que serão raros os casos de empresas que irão utilizar este número de chaves. Eu penso que usar no máximo cinco chaves por instituição bancária.   

JN: O Pix poderá ser utilizado para efetuar pagamentos. Ele irá substituir um boleto e um cartão de débito? 

AM: Com a implantação do Pix, o dono de um estabelecimento pode deixar de usar uma maquininha de cartão de débito. Precisará apenas disponibilizar uma rede wifi para os clientes usarem o Pix, uma vez que ele só funciona com internet. Então, quando um cliente for fazer um pagamento, o caixa irá apurar o valor do que precisa ser pago e dar ao mesmo um QR code, com ele o freguês seleciona a opção Pix no aplicativo do seu banco e paga a conta. 

Com isso, o dono de um estabelecimento receberá seus pagamentos, não terá o custo da  maquininha de cartão de débito e não terá que esperar o período de um ou dois dias para o dinheiro chegar na conta, já que a transferência ocorre em segundos. 

Já no caso do boleto, ele ainda poderá ser utilizado. Porém, ele pode vir juntamente com o código de barra, um QR code, onde poderá ser utilizado a opção Pix, e usando esta alternativa o boleto será pago em real time [tempo real, em tradução livre do inglês]. Ou seja, agora com este novo serviço, a quitação de boletos não irá demorar aquele tempo de dois dias para serem processados. 

JN: Algumas transações do Pix poderão ser feitas através de um QR Code Estático e outro Dinâmico. Você poderia diferenciá-los e explicar como ambos funcionam?

AM: Essa é uma questão mais técnica, pelas conversas e pelos eventos que acompanhamos do Banco Central. A questão do QR code estático ou dinâmico está mais relacionado a segurança, no quesito de alguém copiar o QR code ou fazer algum hackeamento e mudá-lo. Mas, a priori, para quem é cliente não vai mudar muita coisa, isso vai ser um ponto de atenção para os empresários. O QR Code vai ser mais uma possibilidade de usar o Pix ao lado das chaves e dos dados.    

JN: O uso do Pix será inteiramente através de um aplicativo?

AM: Muitas pessoas estão achando que é um aplicativo específico, mas não é, isso precisa ser frisado. O Pix será usado através do aplicativo do seu banco. Se você tem uma conta corrente ou poupança, você entra em seu banco, cadastra a chave que você vai utilizar e, a partir do dia 16 de novembro, quando estiverem autorizadas estas transferências e pagamento, você entra no aplicativo do seu banco, ou no seu internet bank, para fazer sua operação Pix. 

Lembrando, antes fazíamos TED e DOC, agora vamos fazer Pix, e onde fazemos isso?  Nos nossos bancos, nos aplicativos das instituições bancárias, nos nossos internet bank, fintechs e cartões de crédito.

Cadastre seu Pix através de sites e aplicativos de bancos confiáveis (imagem: ShutterStock)

JN: O cadastro do Pix está aberto desde o último dia 5, qual importância de se cadastrar já?

AM: Sinceramente, não precisa de pressa, é essa a recomendação que quero que seja fixada. Sejam cautelosos e usem bem suas chaves, lembre-se de usar o seu CPF na instituição bancária que você mais usa, já que esse registro é único. E lembre-se, cadastramento no Pix não é cobrado tarifas.

JN: Alguns veículos de informação estão alertando para possíveis golpes em falsos sites de cadastros. Quais recomendações o senhor dá para o público se prevenir em relação a isso?

AM: A forma que acontece estes golpes tem um padrão, sendo esse através de um SMS ou e-mail, onde tem algo como “Cadastre sua chave Pix e clique aqui”. Nunca clique aqui (risos). Esta é minha recomendação, se você nunca clicar em um e-mail, em um SMS ou em alguma rede social, eu lhe garanto que você não terá problemas com fraudes bancárias. 

A segunda dica que dou é entrar no site ou no aplicativo do seu banco para fazer esse cadastramentoPara não gerar confusão, aviso que, quando você faz o cadastro no Pix, a sua instituição pode mandar um e-mail ou um SMS com um código de confirmação, mas você só precisa lê-lo, não precisa clicar em nada. 

JN: Quando o dinheiro eletrônico descentralizado, como o bitcoin, começar a se tornar mais global, que papel cumprirá o pix?

AM: Apesar do Banco Central dizer que o Pix não está relacionado com dinheiro eletrônico, acredito que ele caminha para isso. Como se ele começasse a dizer para as criptomoedas que: “Estamos aqui e o dinheiro é digital”. Isso é um processo. 

Eu acredito que como o dinheiro é algo muito importante e mexe até com a saúde das pessoas, imagino que o Pix é um passo muito importante para chegarmos em algum momento nas moedas digitais, e acho que o próprio Banco Central sabe disso e que ele criou esse serviço para dar celeridade e comodidade para o mercado bancário, mas também trará concorrência para o setor financeiro, no qual irá possibilitar uma startup e uma fintech competir com um grande banco. 

O Pix trará maior concorrência no mercado financeiro. (imagem: Getty Images)

JN: No mundo todo há um movimento pela digitalização do dinheiro. Ou seja, as cédulas de dinheiro estão caminhando para sua extinção. Diante desse contexto, como se explica a criação de cédulas de 200 reais?

AM: O grau do Brasil de monetização é muito pequeno e o que está sendo tendência é diminuir com o decorrer do tempo. Ou seja, a quantidade dinheiro em circulação vem caindo ao longo tempo. Apesar de existir um limite, estamos quase chegando nele. 

Quando fazemos essa relação do Banco Central com a cédula de duzentos reais pensamos que é uma incoerência, mas tem um ponto que pode equilibrar este discurso, que o custo do papel moeda cresceu muito, e é verdade. Então, para fazer com que se tenha dinheiro à disposição e com um custo mais baixo foi preferido fazer uma cédula de duzentos reais. É melhor produzir uma cédula de duzentos reais ao invés de fazer duas cédulas de cem. E mesmo que sejam gastos de centavos, em um universo de trilhões de reais, estes centavos podem fazer uma boa diferença.

JN: Qual é a sua expectativa para o início do Pix?

Sinceramente, estou um pouco preocupado, pois quando o Pix está sendo lançado são poucos dias antes da Black Friday, então, ele logo passará por um teste de fogo e depois irá passar por mais um que é o Natal. Eu faria diferente. Colocaria este lançamento para janeiro de 2021 e ainda faria processo similar, desde quando a TED foi lançada, há 18 anos atrás. Começaria, primeiramente, com um recorte de valor. Por exemplo, só poderia fazer um Pix acima de R$1.000,00, acredito que assim daria menos volume e menos assertividade. 

Também estou receoso em relação às chaves. Imagino que a população terá problemas de entendê-las, que irão gastar suas cinco chaves em uma única instituição e com isso não poderão cadastrar mais nenhuma em outro banco. 

Mas temos que ser otimistas e pensar que vai dar tudo certo, já que toda inovação tem esse processo de aprendizagem. Porém, certamente iremos superar essa fase e vamos colher os frutos desses benefícios.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php