Falsas memórias podem afetar a saúde e gerar injustiças

Por Mateus Moura

Lembranças que parecem reais mas que, na verdade, nunca existiram, podem ser mais comuns do que imaginamos. Chama-se Efeito Mandela: fenômeno que ocorre quando alguém ou um grupo de pessoas possui uma memória clara de algo que nunca aconteceu.

Cientificamente conhecido como Síndrome da Falsa Memória, o nome Efeito Mandela surgiu em 2009, quando Fiona Broome, pesquisadora americana de fenômenos sobrenaturais, descobriu, durante uma convenção, que Nelson Mandela não havia morrido na década de 80, enquanto esteve preso, como acreditava. Não só isso, ela descobriu, também, que não era apenas ela que havia criado essa memória falsa, mas diversas outras pessoas também tinham a mesma convicção. Mandela, no entanto, faleceu apenas em 2013.

Broome, então, criou o Mandela Effect, site dedicado ao fenômeno, onde as pessoas podem documentar e compartilhar memórias, teorias e gerar discussões acerca do assunto. Confira, no infográfico abaixo, alguns exemplos de falsas memórias coletivas:

Infográfico: Mateus Moura

Como a ciência explica:

A psicologia explica que nossas memórias ficam armazenadas em uma região do cérebro chamada hipocampo. Em resumo, as memórias são relações de afinidade entre os neurônios e, quando se memoriza algo (como a data de aniversário de um parente, por exemplo), o cérebro forma conexões entre as células cerebrais, que ficarão responsáveis por aquela informação, como uma espécie de arquivo salvo. 

Quando é necessário relembrar uma memória, o cérebro acessa o “arquivo salvo” criado. O problema, porém, é que dependendo do tempo e da quantidade de detalhes exigidos da memória, o cérebro pode recorrer à imaginação, com o objetivo de preencher lacunas para completar a memória requisitada. “Esse fenômeno costuma ocorrer quando há uma exigência ou pressão social para que o indivíduo recorde de determinada situação e, também, quando o cérebro encorpa memórias em situações nas quais o indivíduo está tendo dificuldade de recordar, criando-se memórias falsas”, conta Luiz Coelho, psicólogo clínico.

“Nossa memória não se comporta como a de uma câmera digital, em que tudo, uma vez gravado, fica facilmente acessível quando se bem entende. Ela está mais para uma página da Wikipédia, que pode ser editada livremente. E o principal: ela é colaborativa. Você não é o único editor – sua memória enciclopédica também pode ser editada pelos outros”. A analogia foi explicada por Elizabeth Loftus e citada pela Super Interessante. Loftus é uma psicóloga norte-americana que realizou o primeiro experimento relacionado às falsas memórias, em 1995, com o propósito de descobrir se era possível convencer alguém de ter vivido algo que nunca viveu.

Condenação de inocentes

A intensidade e profundidade das memórias falsas são relativas, mas suas consequências podem ser perigosas. Há casos em que pode-se acreditar que viu um objeto em um cômodo da casa, mas na verdade ele está em outro. Como há, também, casos em que se cria memórias equivocadas, envolvendo confissões de assassinatos e estupros que nunca aconteceram.

Em 1979, o inglês Sean Hogston foi preso após confessar com detalhes o assassinado e estupro de uma mulher, caso que ficou conhecido como “Assassinato de Teresa de Simone”. 27 anos depois, Hogston foi diagnosticado com a síndrome da falsa memória e inocentado por meio de análises de DNA, que comprovaram que ele não havia participado do crime.

O caso de Hogston abriu uma nova necessidade dentro dos tribunais: a de estudar a ciência das falsas memórias para evitar condenação de inocentes. De acordo com um estudo realizado em 2007 pela psicóloga norte-americana Allison Redlich, 22% dos condenados com problemas mentais poderiam dar falsos testemunhos, assim como o de Sean Hogston. Caso o indivíduo não possua nenhum tipo de doença mental, o risco cai para 12%. Além do falso testemunho, há também outras possibilidades, como o reconhecimento facial errôneo.

Segundo pesquisa da Innocence Project, organização sem fins lucrativos voltada a enfrentar e ajudar pessoas que foram condenadas injustamente, a identificação equivocada através do reconhecimento facial é a principal causa de condenações injustas nos Estados Unidos. Dos 365 casos em que houveram exoneração do crime através de testes de DNA, 69% estavam ligados a identificação facial errada.

Recursão

Ambientando a temática da Síndrome da Falsa Memória como uma obra literária de ficção científica, Recursão, escrito por Blake Crouch, mostra como as memórias constroem nossa realidade. A obra, inclusive, ganhará uma adaptação como filme e série pela Netflix.

Na trama, acompanhamos a história de dois personagens que vivem em linhas temporais diferentes, mas que, ao decorrer da história, se encontrarão. Em 2007, Helena Smith, uma neurocientista desenvolve  uma tecnologia para a cura do Alzheimer, com o objetivo de ajudar pessoas como sua mãe, que possuem a doença. Com dificuldades para conseguir recursos, Smith recebe a proposta de um milionário: recursos ilimitados e laboratório próprio. 

Em 2018, temos Barry Sutton, um policial que trabalha em Nova York e que carrega consigo a tristeza pela morte de sua filha. Ao ser chamado para intervir em uma tentativa de suicídio, Sutton se depara com uma mulher que sofre da Síndrome da Falsa Memória, alegando ter vivido um casamento com um homem que não existe. O problema é que a síndrome parece estar se espalhando de alguma forma pela população mundial, afetando a realidade de todos.

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