Consumo de bebidas alcoólicas aumentou 18%, entre brasileiros, durante o isolamento social

Por Clariana Matias

O isolamento social, que aconteceu durante a pandemia da Covid-19, deixou atividades não essenciais de portas fechadas. Com mais tempo ocioso, as pessoas passaram a consumir, de forma mais assídua, determinados produtos ou serviços, entre eles a bebida alcoólica. De acordo com a “ConVid – Pesquisa de Comportamento”, realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), 18% da população brasileira aumentou o nível de consumo de álcool, chegando a ingestão diária de bebidas alcoólicas. Em algumas faixas etárias, o índice é ainda maior. O aumento do consumo de bebidas alcoólicas chegou  a 26% entre pessoas de 30 a 39 anos.

Infográfico: Aldeci Oliveira/JornalismoNIC

 

Dra Lisiane Cysne. Arquivo Pessoal.

A psiquiatra e psicoterapeuta, Lisiane Cysne, também preceptora e coordenadora do módulo de dependência química da Residência de Psiquiatria do Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto, explica que a fase do distanciamento físico foi um fator prejudicial para o bem- estar das pessoas. “O distanciamento físico começou a causar efeitos colaterais, como quadros de ansiedade. Também gerando a ansiedade estava o convívio familiar intenso. Algumas famílias ficaram muito isoladas, impedidas de sair e estar em espaços livres, ficando assim muito estressadas”, comenta.

 

 

 

 

A importância de pedir ajuda

Os Alcoólicos Anônimos (AA) são uma comunidade com carácter voluntário de homens e mulheres que se reúnem para alcançar e manter a sobriedade, através da abstinência total de ingestão de bebidas alcoólicas. O coordenador do Escritório de Serviços Locais de Alcoólicos Anônimos (ESL/SEDE-CE), Rogério*, explica que, obedecendo às normas de isolamento estabelecidas pelo Governo do Estado do Ceará, as reuniões da irmandade passaram a ocorrer através do Google Hangouts Meet, plataforma utilizada por empresas para a realização de videoconferências. Com a flexibilização atual do Governo, algumas células voltaram a ter reuniões presenciais com a capacidade reduzida. 

Para combater a ingestão excessiva de bebidas alcoólicas, recorrer ao Alcoólicos Anônimos foi a saída de quem não queria ir ao fundo do poço. Segundo um levantamento do Portal IG, a Associação Alcoólicos Anônimos do Brasil (A.A. Brasil) registrou o aumento diário de pedidos de auxílio para parar de beber, saindo de quatro a seis para entre dez a 15. De acordo com a diretora e secretária do Escritório de Serviços Locais de Alcoólicos Anônimos, Liduína*, o número de pedidos por acolhimento recebidos por ela durante a pandemia chegou a 65. Ainda segundo Liduína, é um número elevado se comparado ao número de pedidos realizados antes do isolamento social.

De acordo com Raul Nepomuceno, psiquiatra e preceptor de residência de psiquiatria do Hospital de Saúde Mental de Messejana, a atuação do profissional de saúde mental é de bastante importância. 

Impactos do alcoolismo na saúde

Dr Raul. Arquivo Pessoal.

“É consenso entre os especialistas que não existe o consumo de álcool sem riscos. O álcool está associado a diversos problemas”, afirma o psiquiatra Raul Nepomuceno. Diarréia, distúrbios gástricos, pancreatite aguda, hepatite aguda alcoólica, cirrose, tuberculose são algumas das complicações físicas causadas pelo consumo exagerado do álcool. Ele também alerta que a ingestão de bebidas alcoólicas contribui para a baixa da imunidade, o que facilita o contágio da Covid-19. 

Segundo a psiquiatra Lisiane Cysne, o consumo excessivo de álcool pode ser ainda mais perigoso para quem sofre de algum transtorno mental. Ela explica que pessoas com depressão, por exemplo, podem acabar usando o álcool para a automedicação, o que ocasiona uma piora nos sintomas. “O paciente pode sair de um quadro clínico leve até quadros clínicos muito graves”, afirma.

O site dos Alcoólicos Anônimos do Brasil disponibiliza salas de reuniões on-line para quem busca a sobriedade. Para quem prefere reuniões presenciais, pode buscar informações sobre quais células voltaram às suas atividades presenciais através do número (85) 32312437.

*Acatando um pedido das fontes, os nomes com asteriscos são pseudônimos para preservar suas identidades.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php