Documentário discute direitos de pessoas com deficiência

Por Selene Facó

Camp Jened foi um acampamento de férias que ocorreu em 1951, a 160 km de Manhattan, nos EUA. Exclusivo para pessoas com deficiência e com a coordenação de um grupo hippie da época, se tornou o estopim para o principal movimento dos direitos das pessoas com deficiência e de vida independente nos Estados Unidos.  É o tema de Crip Camp: Revolução Pela Inclusão.

Campistas se divertindo no acampamento (créditos: Netflix)

A energia era leve e com todos convivendo harmoniosamente, livres, sem excessos de cuidados, e sem hierarquias de deficiências. Havia desde casos considerados “leves” pela sociedade, até casos mais severos, como paralisia cerebral. Porém, nada os impedia de conviverem e se divertirem a sua maneira naquele ambiente bucólico e inclusivo. 

Era o espaço dos sonhos para as PCDs (Pessoas Com Deficiência), de inclusão, uma exceção dentro de uma sociedade ainda alienada para as questões ditas “diferentes”.

Acompanhamos, ao longo de 105 minutos, um grupo de jovens que aprenderam uns com os outros a se desenvolverem, longe da dura realidade da época, que, infelizmente, perdura até os dias atuais. 

Os campistas se sentem, pela primeira vez na vida, independentes e livres para abordarem assuntos polêmicos e delicados com assertividade e humor.  São apenas jovens, com piadas de jovens, fazendo coisas de jovens. Mas sempre com a reflexão de que os não deficientes, os ditos “normais”, deveriam pensar em se adaptar, se aproximar e incluir essa grande parcela da população mundial.

O filme mistura histórias de vida dos personagens, num crescente narrativo, até culminar em seu ponto central.

Nixon, o então presidente dos EUA, havia aprovado uma lei federal de reabilitação, que prezava a garantia de acessibilidade nos espaços mantidos com dinheiro público, como escolas, hospitais, universidades, bibliotecas, transporte etc. Ou seja, se usa dinheiro público, tem que ser acessível.

Presidente dos EUA Richard Nixon e sua esposa Pat Nixon, em 1951. (AP Photo/Charlie Harrity, File)

Porém, a lei era ignorada e nada era feito para assegurar esses direitos.

O movimento nasceu pequeno, mas se espalha organizadamente pelos Estados Unidos, até o momento emblemático, onde um grupo de pessoas com deficiência invade a sede do Ministério da Educação, Saúde e Bem-Estar, em São Francisco, dando início à fase de maior ênfase da luta. 

Pessoas com deficiência protestando nas ruas de São Francisco, EUA (créditos:© AP Images)

Nesse cenário, surge a figura de Judy Heumann, uma das campistas, que se destaca como líder do movimento, mobilizando simpatizantes e pressionando políticos a cumprirem o que a lei assegura.

Judy Heumann, líder do movimento (créditos: cineaddiction)

{imagem} Judy Heumann, líder do movimento (créditos: https://cineaddiction.com/2020/03/25/crip-camp-critica-de-cinema/

A sociedade civil e a imprensa tomam interesse pelo tema e acompanham, dia após dia, o cotidiano desses jovens, alguns inclusive em greve de fome como meio de protesto.

Os Panteras Negras, grupo que defendia a resistência armada contra a opressão dos negros, de forma inesperada, se aliam ao movimento, oferecendo comida e outros insumos. Surgia aí, um novo movimento pelos direitos civis, desta vez daqueles que compõem a maior minoria dos Estados Unidos.

O final é emocionante e impactante, ao mesmo tempo que nos revolta ao perceber que, infelizmente, o povo brasileiro, ou melhor, as pessoas com deficiência no Brasil, também tem que conviver diariamente com essas questões.

Ficha técnica

“Crip Camp: Revolução Pela Inclusão”

Ano: 2020

País: Estados Unidos 

Direção: James Lebrecht e Nicole Newham 

Duração: 105 minutos 

Disponível pela Netflix

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