Conto traz encantos e angústias que transcendem o tempo

Por Raquel Sant’Ana

Lançada em 2014, a produção audiovisual “O Conto da Princesa Kaguya” é uma adaptação da prosa japonesa “O Conto do Cortador de Bambu”, datada do século X.  Dirigida por Isao Takahata, a obra foi indicada ao Oscar na categoria de  Melhor Filme de Animação. 

 

História

 

A história começa com Okina, um velho cortador de bambu, na floresta. Entre as plantas, ele avista um broto de bambu e, curioso pelo broto fora de estação, se aproxima. De repente, o bambu começa a crescer e, de dentro da árvore, Okina descobre uma minúscula princesa.

Encantado pela sua descoberta, ele mostra a jovem a sua esposa Ouna e como mágica, a princesa se transforma em bebê. Juntos, o casal decide adotar a misteriosa criança, agora chamada de Hime, ou Princesa.

Assim como o broto de bambu, Hime também cresce com muita rapidez. Em poucos dias, o bebê aprende a andar, falar e faz amizade com um grupo de meninos. Eles a apelidam de Pequeno Bambu, por crescer tão rápido quanto um bambu.

De volta à floresta, Okina descobre tesouros escondidos dentro dos caules de bambu: diversos tecidos de seda colorida e incontáveis pepitas de ouro. Então, o velho cortador de bambu decide construir um palácio e transformar Hime em uma princesa de verdade, acreditando ser essa a vontade dos deuses.

No filme, a heroína precisa conciliar seus desejos com as expectativas de seu pai (Imagem reprodução)

Recém-chegada ao palácio construído por seu pai, a agora adolescente Hime se sente maravilhada com os luxos da nova vida. Mas sua felicidade dura pouco, já que agora precisa aprender a se comportar como uma princesa de verdade. Ela sente falta de sua antiga vida, explorando a natureza em volta da sua casa. No entanto, Hime permanece no palácio por amor ao pai, e encontra refúgio na companhia da mãe.

Agora conhecida como Kaguya-hime – traduzido como princesa brilhante -, relatos de sua beleza se espalham e logo ela recebe propostas de casamento de cinco ricos pretendentes. Sem vontade de se casar, Hime envia os cinco homens em tarefas absurdas. Todos falham, mas agora o próprio imperador se interessa pela misteriosa princesa.

 

A heroína

Tanto o filme quanto conto seguem praticamente os mesmos eventos: Kaguya-hime é encontrada no broto de bambu, criada pelo casal de camponeses, vira uma bela princesa e recebe propostas de casamento do imperador e cinco aristocratas. Até o final, em que a princesa é obrigada a voltar para sua verdadeira casa na Lua, se mantêm.

Os eventos podem ser os mesmos, mas diferente da Kaguya-hime folclórica, a heroína de Takahata é mais humana do que divina. Ao enxergar a protagonista como essencialmente humana, Takahata explora os encantos e angústias da vida terrestre. 

Uma grande diferença entre as duas obras que merece destaque é o papel do imperador na história. No conto original, ele é visto como uma figura heróica que, mesmo rejeitado pela princesa, conquista sua amizade. Mas na adaptação, seus avanços românticos causam grande angústia à Kaguya-hime e são o estopim de seu retorno forçado à Lua.

Boa parte inicial do filme é dedicada a  construir as relações afetivas da protagonista com sua família, amigos e natureza. Okina, o cortador de bambu, tem grande afeição pela filha, mas as oportunidades de ascensão social cegam seu raciocínio. Quando percebe o mal que causou à filha, já é tarde demais.

Adaptação explora relação mãe-filha das personagens (Imagem reprodução)

Ouna, a mãe da princesa, ganha mais espaço na adaptação. Dentro do palácio, é junto dela que Kaguya-hime se sente mais à vontade. Juntas, elas cuidam de um pequeno jardim e realizam tarefas domésticas como se ainda vivessem na antiga cabana.

Entre seus amigos de infância, Sutemaru é o qual Kaguya-hime mais se aproxima. É junto dele que a jovem princesa explora e descobre a natureza em volta de sua cabana. Mais velha, as lembranças de Sutemaru são divagações de um futuro que poderia ter acontecido.

 

Cinematografia

 

 

O estilo artístico da animação é diferente dos outros filmes do estúdio. Takahata escolhe trabalhar com elementos visuais que lembram pinturas e desenhos tradicionais em aquarela, grafite e carvão. O traço também se assemelha ao encontrado em pinturas tradicionais japonesas e ajuda a transmitir as emoções das cenas ao público.

Takahata trabalha a animação como uma representação abstrata não apenas da realidade mas também dos sentimentos de seus personagens. Quando feliz, ela não apenas sorri. Ela alça vôo pelas montanhas. Quando angustiada, o mundo se deforma e perde suas cores. 

Os cenários bucólicos e a paixão pela natureza são temas recorrentes nas obras do estúdio Ghibli, tanto nos trabalhos de Isao Takahata quanto de Hayao Miyazaki, ambos co-fundadores do estúdio. 

Cenários naturais são temas recorrentes nos trabalhos de Takahata. (Imagem reprodução)

Ficha Técnica

O Conto da Princesa Kaguya

Ano: 2014

País: Japão

Direção: Isao Takahata

Duração: 2h 17min

 

Sobre o diretor

Os trabalhos de Takahata recebem influências do cinema italiano neo realista e do movimento Nouvelle Vague (Imagem IMDB).

 

Isao Takahata foi um diretor e co-roteirista japonês. No seu currículo estão as obras  “Pom Poko” (1994), “O Túmulo dos Vagalumes” (1988), “Meus Vizinhos os Yamadas” (1999)  e “O Conto da Princesa Kaguya”, seu  último trabalho antes de falecer por câncer de pulmão, em 2018.

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