Quando o azul é a cor mais quente

Por Rafaela Alves

A primeira paixão é sempre um momento de novas experiências. Por vezes, o  amor pode ser arrebatador, doloroso e triste, e tende a ficar ainda mais intenso quando envolve autoaceitação. O filme Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adéle – Chapitres 1 et 2) discorre sobre esse período de grandes descobertas.  

Inspirado na HQ Le bleu est une couleur chaude (O azul é uma cor quente), escrita por Julie Maroh, a produção audiovisual é  dirigida pelo diretor e roteirista tunisiano Abdellatif Kechiche. Retrata a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma jovem estudante de ensino médio que está começando a descobrir sua orientação sexual. 

Capa do poster do filme “Azul é a cor mais quente”. Foto: Reprodução

Adele mora na França e possui uma vida normal, sem muita agitação. A jovem adulta divide seu tempo entre as aulas na escola, leituras de livros clássicos, amigos e família. Porém, tudo muda quando ela conhece Emma (Léa Seydoux), uma pintora de cabelo azul um pouco mais velha que está cursando Belas Artes na faculdade. 

O sentimento surge em um dia que Adèle está a caminho de um encontro e acaba esbarrando em Emma. A troca de olhares foi tão intensa que a jovem passa a ter sonhos íntimos com a pintora. Apesar de todas as suas incertezas, Adéle passa a se relacionar com Emma, com quem vive novas experiências.

Quando passa a se envolver com Emma, Adèle percebe que está começando a se aceitar, mas a vontade de organizar sua vida e o que está a sua volta ainda a aflige. Ela anseia conseguir projetar uma imagem ideal perante a sociedade. É possível perceber que a adolescente não consegue se encaixar nos padrões de relacionamentos impostos. Adèle sente como se algo estivesse faltando ou estivesse errado, como se vivesse uma mentira. A pressão que a jovem sofre por parte das amigas para se relacionar com homens é tão grande, que ela acaba cedendo, fazendo com que tenha um pequeno e rápido caso com um jovem do colégio, intensificando ainda mais esse sentimento de que falta algo.

Crítica 

Lançado em 6 de Dezembro de 2013, a obra arrecadou 19,5 milhões de dólares em bilheteria. O filme com temática LGBTQIA+ ganhou diversos prêmios, incluindo Palma de Ouro, British Independent Film Award como melhor filme estrangeiro independente, New York Film Critics Circle Awards de melhor filme estrangeiro, entre outros. 

Mesmo com uma abordagem mais crua onde os personagens são mostrados em momentos mais realistas, como comendo de boca aberta, dormindo , chorando ou explorando seus corpos, principalmente em seus momentos de intimidade, a obra passa longe da vulgaridade. O filme vai além das expectativas e traz consigo uma carga política ao desmistificar o corpo, o sexo e as relações.

A fotografia do filme é outro fator a destacar. A cor azul não está presente somente no título, Kechiche inseriu em cada cena diversas tonalidades de azul, seja na cor do cabelo de Emma, em algum objeto, nas roupas das protagonistas e dos coadjuvantes ou no próprio quarto de Adèle, que é todo azul.

A obra-cinematográfica recebeu diversas elogios pela representatividade e visibilidade que deu a esse assunto. As cenas de maior destaque do longa foram o primeiro ato sexual das protagonistas, a briga que acarretou o término do relacionamento e a cena de despedida na cafeteria. 

Apesar da aclamação da crítica, o filme está envolvido em escândalos. As protagonistas acusam o diretor de abuso sexual e declararam publicamente que nunca mais trabalhariam com Kechiche. Devido aos acontecimentos, a história que foi feita para ter uma continuação aparentemente chegou ao fim ainda em sua primeira parte, deixando o espectador com um gosto de quero mais.

O longa, que possui uma história obscura por trás das câmeras, foi aplaudido de pé no Festival de Cannes. Em meio a tantas críticas, escândalos e elogios, é inegável dizer que esse filme é uma obra-prima.

Ficha técnica 

Título original : La Vie d’Adéle – Chapitres 1 et 2

Ano : 2013

País: França 

Duração: 179 min

Direção: Abdellatif Kechiche

Roteiro: Ghalia Lacroix, Abdellatif Kechiche

Baseado em: Le bleu est une couleur chaude de Julie Maroh

Um comentário em “Quando o azul é a cor mais quente

  • 20 de setembro de 2020 em 15:46
    Permalink

    Embora Kechiche seja nenhum santo.. Haha Léa Seydoux é proveniente de uma das famílias mais ricas da França e seu avô tem produzido filmes de Kechiche no passado, La Graine et Mulet, O segredo do grão, foi produzido e financiado pelo avô da Léa Seydoux, Jerome Seydoux (justo faz um Google search para você ver). Eu tenho muita duvida se ela foi ”abusada”, ela sempre muda de versão em cada entrevista sobre o filme, e principalmente em sendo neta de um dos homens mais ricos da França.

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php