A cultura das batalhas de rap: Uma visão do cotidiano dos jovens que usam a rima como estilo de vida

por Dhara Amorim, Júlia Neves e Breno Gualberto

“Salve, família! Licença pa chegar na casa de vocês!” diz Aline MC, convidada vinda de São Paulo para participar da batalha de rap, na Praia de Iracema, que precederia o show de Mc Orochi, grande nome do rap nacional atualmente. A juventude fortalezense estremece, com gírias e gritos de guerra: “Vai morrer ou vai matar? Vai matar ou morrer? O que cês querem ver?” “SANGUE!”. Todos reunidos com um só intuito, todos unidos com uma só paixão. No fim, sabe o que eles realmente querem ver? A cultura do hip hop recebendo o devido reconhecimento e respeito. Eles só querem fazer rima, se liga?

Batalhas de rima

Batalhas de rima, de MC, de rap, de hip hop são eventos protagonizados por dois ou mais mestres de cerimônia (MCs) que se enfrentam com rimas improvisadas (freestyle), podendo haver ou não som (beat) e de rodadas (rounds) geralmente estabelecidas pela platéia.

As Batalhas surgiram por volta de 1970, juntamente com o nascimento do rap, no Bronx, periferia de Nova York e berço do hip hop. Na época havia grande índice de criminalidade e foi por isso que Afrika Bambaataa, artista negro, teve a ideia de resolver as brigas de gangue com batalhas de break (modalidade de dança do hip hop). Pensando à frente de seu tempo, Afrika era um idealista que viu em jovens de periferia, em meio a violência, uma esperança: “A meu ver, a cultura hip hop se propõe a unir a humanidade como uma só. Unir o planeta sob um só groove, um movimento. Não existem negros, brancos, altos, baixos, brasileiros, americanos, homens ou mulheres. Somos todos seres humanos”, disse ele, e assim é considerado o pai do hip hop.

No Brasil, popularizou-se na década de 1990, mas só foi reconhecido como evento em 2003 com o surgimento da Batalha do Real, no Rio de Janeiro, a pioneira. Em São Paulo, a Batalha do Santa Cruz deu espaço para Emicida, um dos principais nomes da história do rap no Brasil até hoje e o primeiro a ter reconhecimento no exterior.

As Batalhas em Fortaleza

A internet foi a principal disseminadora do conteúdo para os jovens da capital, a maioria deles disse ter conhecido através de vídeos no Youtube. A Batalha da Quadrinha acontecia na praça da estação do bairro Manuel Sátiro antes de receber apoio e mudar-se para o Cuca Mondubim. É uma das primeiras da capital, que hoje já conta com diversas: Batalha do Jangu, Batalha da Gentil, Batalha da Tribo, Batalha da Sapiranga, entre várias outras, sendo Cururu Skate e Rap (Parangaba) e a Batalha do Tonhão (Panamericano) as maiores.

Também existe o grupo Flowtal, que reúne Mcs que vêm se destacando na cena levando dois participantes para o Campeonato Nacional que acontece em Belo Horizonte, sendo um deles o atual campeão, MCharles de Juazeiro do Norte, e Mc Tonhão de Fortaleza, que chegou na semifinal.

Atualmente, o cenário das batalhas é dominado por dois tipos: a de sangue e a do conhecimento. A primeira se refere como tradicional. O Mc inicia mandando sua punch line ou “linha de soco”, recurso usado para atacar o oponente com o tempo de 30/40 segundos, e depois seu adversário dispõe de mesmo tempo para contra atacar. É nesta modalidade que, segundo Mc Becka, 21, “a galera usa muito o termo da gastação pra poder zoar o oponente, os defeitos e tal, pra poder ganhar grito e ocasionalmente ganhar a batalha”. Mc Orochi, em seus tempos de batalha, era conhecido como o rei da “gastação” por suas rimas engraçadas, sempre zombando do seu competidor.

Já a Batalha do Conhecimento é sobre ideologia, os Mc’s têm que desenvolver rimas com temas preestabelecidos. Geralmente colocam palavras aleatórias em cartazes e eles têm que encaixá-las em sua apresentação.

O rap é um estilo musical e, para muitos, um estilo de vida que reflete a arte e a luta das classes sociais marginalizadas. Não à toa sua predominância – e origem – é periférica, muitas vezes sendo resgatada como válvula de escape para a juventude marginalizada que, por sua vez, cria discursos que frisam suas vivências comumente discriminadas, defendendo-se do preconceito generalizado e expressando sua resistência social, tudo isso em forma de rima.

“Coisas que aparecem na minha vida,

coisas que eu vejo na minha frente,

pois a tia preta também é racista estrutural.

Na cidade o povo mata a gente.

Eu disse pra uma tia no busão

que falava comigo dos cristãos

como é que a senhora prega a palavra de Deus

e acha que eu sou ladrão? Não!

Ela falou comigo:

é que a palavra me ensinaram tudo desse jeito.

Tipo minha mãe, mãe preta é pique empregada 

e que não gosta de rap desse mesmo jeito.

Eu sou só um livro em questão

e a realidade é tão dura, ah…

É que a vida passa emoção

Eu não vou te atacar, só vou te mostrar a cultura” – Shook Mc, Batalha da Torre

As rimas do Mc refletem bem a cena que o rap ainda vive. Levi Mc, 16, é estudante e participante da Batalha do Jangu, “o rap começou com os negros e já é um ponto para o homem branco dizer que é de marginal” pontua. Do mesmo lado, Gadelha Mc, 15, completa: “algumas pessoas associam logo a coisa de bandido sem ao menos saber o que significa, o que as letras têm a oferecer, a real mensagem que querem passar”. Mc DG, 17, também aponta: “deve ser porque é uma forma de empoderamento pro gueto, dos cria, e eles não conseguem ver a gente com outros olhos, não”.

Alguns Mcs entrevistados relataram episódios desconfortáveis onde a polícia agiu sem motivo aparente: “os policiais tinham levado a caixinha de som, o notebook, e os cara não tinha dinheiro pra pagar, tá ligado, pra ficar bancando a batalha, mas tipo como a gente é resistência, tá ligado, o evento tem a própria resistência e a gente ainda conseguia fazer o evento” conta Xp Mc, 18. Ele também fala que ações desse tipo são comuns nos lugares que vai para participar das competições e que a forma como a sociedade vê sua cultura como crime é nítida. “Eles criminalizam mesmo, eles não conseguem entender o que é liberdade de expressão quando vem de nós da periferia. Eles não querem ver a gente crescer, né? Mas querer não é poder e só o que tem hoje aí é periférico crescendo com o rap” opina Mc DG.

As Mina no Rap

Durante muito tempo, o rap foi uma cena restrita a homens e bastante avessa à participação de mulheres, mas hoje em dia não são poucas as que se aventuram no meio e revolucionam o cenário.

Em conversa com as Mcs que participam de Batalhas de Rap em Fortaleza, elas contaram os prazeres e dificuldades de ser mulher em um ambiente majoritariamente masculino. “Na maioria das batalhas mal tem mulher rimando e, às vezes, você não se sente confortável de tá assim no meio de tanto homem” conta Mc Flor, 21, ao ser perguntada se as dificuldades de ser Mc tinham a ver com ser mulher.

Mc NayNay, 18, já foi até homenageada por ser a primeira mulher a participar da Batalha dos Bruxos, no bairro Antônio Bezerra, e diz “é um pouco difícil pra mim ser, às vezes, a única mina em uma batalha de 20 manos ou mais, mas só de botar as caras pra batalhar e representar as mulheres já me sinto muito bem.” Ela também contou que ao chegar aos eventos, os outros Mcs não acreditavam que ela estava lá para rimar também, achavam que ela estava apenas para assistir e até desdenhavam: “não era pros cara se impressionar porque a mina vai rimar, entendeu? Porque o lugar também é de mina, não só de mano!”.

Mcs NayNay, Becka e Flor na edição das mina na Batalha do Extra. Foto: Arquivo pessoal.

Infelizmente, ainda hoje, a cena artística do hip hop se mostra hostil quanto a participação de mulheres, mas o exemplo das meninas que batalham nas disputas de Fortaleza tem se repetido em todo o país, e juntas, elas estão comprometidas em mudar por completo o cenário do rap nacional.

Esta matéria foi produzida por estudantes do curso de Jornalismo da Unifor como trabalho da disciplina de Jornalismo Digital, ministrada pelo professor Eduardo Freire. Para conferir o material original clique na imagem abaixo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

css.php